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Economia desacelera em uma Espanha mergulhada na instabilidade política

Por Emmanuelle MICHEL
Cliente visita concessionária Seat em Vigo em 31 de outubro de 2019

A Espanha, que terá eleições legislativas no domingo (10), enfrenta uma desaceleração líquida de sua economia, minada pelas incertezas globais e pela instabilidade política que impede projetos de reformas.

Roberto Garrido, que vive em Madri, vê suas vendas de carros caírem desde janeiro. Somente as vendas de veículos Renault, explica ele, caíram 30% em relação ao ano anterior, em uma época em que todos os investimentos não urgentes foram colocados em espera pelos consumidores.

Desde que o país voltou a crescer em 2013, o setor se beneficiou de "um efeito de recuperação ao longo dos anos de crise", explica o gerente à AFP no bairro de Fuente del Berro, em Madri.

O efeito se dissipa, porém, com a ausência de um governo estável e a resultante falta de regulamentação clara sobre as emissões permitidas, desencorajando os compradores.

"Os políticos estão falando: 'e se o diesel, e se a gasolina, e se a poluição, e se as vias fechadas para pedestres das grandes cidades' (...). Então as pessoas não sabem o que fazer, elas não sabem se você compra um carro, qual carro comprar. Então, adiam", lamenta Garrido, que espera, embora sem muita esperança, um pouco mais de clareza após a eleição legislativa de domingo, a quarta em quatro anos.

As vendas de carros caíram 6% na Espanha nos primeiros dez meses do ano, mais de 12% considerando-se apenas as compras de pessoas físicas, segundo a associação de fabricantes da ANFAC.

Nesta quinta-feira, a Comissão Europeia revisou para baixo sua previsão de crescimento do PIB na Espanha para 2019, a 1,9%, em comparação com os 2,3% anteriormente esperados. O governo e o Banco da Espanha também revisaram para baixo suas previsões de crescimento do PIB para 2019, para 2,1% e 2%, respectivamente. Entre 2015 e 2017, a Espanha alcançou um crescimento anual em torno de 3%.

Para os economistas ouvidos pela AFP, o principal fator está no contexto global: incertezas ligadas a várias guerras comerciais e a desaceleração dos principais parceiros comerciais, com União Europeia e Alemanha à frente.

"Vimos uma deterioração significativa no consumo privado ... e também houve uma desaceleração significativa no investimento empresarial, o que é consistente com essa incerteza", diz o analista Rafael Domenech, da BBVA Research.

As exportações de mercadorias estão progredindo em um ritmo mais lento do que em 2018 (+1,7% na primeira metade do ano contra 2,9% no ano anterior) e devem se ressentir da decisão dos EUA de impor tarifas sobre vários produtos agrícolas espanhóis (como azeite de oliva, vinho e queijo) em retaliação ao conflito da Boeing-Airbus.

- Desemprego elevado -

O consumo se recuperou no terceiro trimestre, mas os especialistas não esperam que perdure, uma vez que, em paralelo, o desemprego recua com menos vigor do que nos últimos anos.

No fim de setembro, o desemprego estagnou em cerca de 14%. O pior aumento no número de pessoas em busca de trabalho desde 2012 foi registrado em outubro.

Ainda assim, o atual presidente do governo, o socialista Pedro Sánchez, está otimista. "Temos bases sólidas para responder a esse arrefecimento", disse ele na quarta-feira, observando que o crescimento da Espanha está "acima da média da zona do euro" (0,2% no segundo trimestre) e que "empregos ainda estão sendo criados".

As eleições de domingo podem não acabar com a instabilidade política, porém, já que, para Sánchez, líder nas pesquisas, será difícil conseguir maioria para formar um governo.