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Doenças cardíacas e câncer: os efeitos da economia ruim na saúde dos brasileiros

Foto: Getty Images

Por Breno Damascena (@brenobueller)

Entre 2012 e 2017, mais de 31 mil pessoas morreram no Brasil em decorrência da recessão econômica. O alarmante número é resultado de um estudo desenvolvido por pesquisadores brasileiros e britânicos publicado na The Lancet Global Health. Os autores analisaram as associações entre desemprego e mortalidade em 5565 municípios brasileiros.

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Durante este período de 5 anos, o Brasil enfrentou uma grave crise econômica e a taxa de desemprego subiu: de 8,4% no primeiro trimestre de 2012 para 13,7% no primeiro trimestre de 2017. O levantamento apontou que a cada aumento de 1% de nível de desemprego houve o crescimento de 0,5% de mortalidade, resultando em 31.415 mortes excedentes.

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Essa associação foi observada predominantemente em negros e pardos entre 30 e 59 anos. “É um grupo social que costuma ter uma inserção mais precária no mercado de trabalho por conta da escolaridade e outros aspectos sociais”, pressupõe Rômulo Paes, pesquisador titular da Fiocruz de Minas Gerais e um dos autores do estudo. “Não encontramos resultados estatisticamente significativos em homens brancos, mulheres, idosos e jovens de 15 a 29 anos”, comenta.

O aumento da mortalidade foi impulsionado pelo alto número de mortes por câncer e doenças cardiovasculares. “O estresse emocional está relacionado com a mudança de estilo de vida e é uma das causas deflagrantes de infarto agudo do miocárdio, que pode evoluir para situações de elevada gravidade”, explica Alexandre Soeiro, médico cardiologista da BP - A Beneficência Portuguesa de São Paulo.

“É muito intuitivo que ficar desempregado por ser desesperador e sabemos que o estresse é vinculado a esse tipo de doença”, pontua Paes. Ele relembra que só entre 2015 e 2016, cerca de 1,5 milhão de pessoas perderam o plano de saúde no país, o que pode potencializar os riscos.

A pesquisa relaciona políticas de austeridade para restringir gastos públicos em saúde com o efeito letal da crise. “Em outros países, as pessoas geralmente buscam o diagnóstico mais cedo e, assim, começam o tratamento no início da enfermidade. Aqui, em períodos de crise, costumam acontecer muitos cortes, o que normaliza déficits crônicos e provoca a diminuição na procura por esses serviços”, aponta Rômulo.

O estudo constatou que o impacto na mortalidade é amenizado pela presença de sistemas de proteção social. Observou-se que as regiões que receberam mais investimentos em políticas públicas de assistência social, como o Bolsa-Família e o SUS, sofreram menos com a recessão econômica que assolou o País. “É preciso haver mecanismos de compensação para aliviar os efeitos da crise”, defende o pesquisador.

Para quem está passando por complicações em decorrência da situação financeira, a recomendação é buscar uma alimentação saudável, prática de atividades físicas como caminhadas, consultas médicas regulares e terapia. “Se necessário estabeleça uma rotina e procure se cuidar de forma preventiva. A falta de cuidado, a longo prazo, acaba comprometendo a saúde indefinitivamente”, explica o cardiologista.