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E se a Terra parasse de girar? O que aconteceria?

Claudio Yuge

A cada 24 horas (ou melhor, 23 horas, 56 minutos e 4,1 segundos), a Terra completa um ciclo de rotação, girando em torno de si mesma a quase 1,7 mil quilômetros por hora. Entretanto, nosso planeta vem girando mais devagar — algo revelado em um estudo científico publicado em 2016 no The Royal Society. Nos últimos 28 séculos, essa velocidade teria diminuído 1,8 milissegundo por século, segundo o estudo, fazendo com que os dias ficassem 1,8 milissegundo mais longos a cada 100 anos. Não parece muita coisa, mas, ao longo de tanto tempo, isso implica em alterações significativas. E daí fica a pergunta: e se um dia a Terra parasse de girar por completo? O que aconteceria?

Só para ter uma ideia de como essa desaceleração já afetou a Terra, há 250 milhões de anos, cada rotação completa tinha aproximadamente 23 horas. Após a extinção dos dinossauros, há 63 milhões de anos, um dia inteiro passou a ter cerca 23 horas e 30 minutos — até chegarmos às atuais quase 24 horas. Embora o “freio” não seja constante, a rotação segue um pouco mais devagar, devido a algumas razões.

A força gravitacional da Lua, que, aos poucos fica mais distante de nosso planeta, é o principal dos motivos. E isso causa desastres naturais, como terremotos e tsunamis, o que, por sua vez, também diminuem a velocidade da Terra. O próprio formato do planeta (que não é literalmente redondo, estando mais para um geoide com polos levemente achatados) está na lista de causas da desaceleração. Uma pesquisa da revista Science prevê que, em 2100, o ano terá 5 milissegundos a mais do que atualmente.

Ainda assim, o planeta não vai chegar ao ponto de parar de girar por completo. De acordo com o Dr. Sten Odenwald, cientista-educador da NASA, a probabilidade de a Terra parar de girar é “praticamente zero nos próximos bilhões de anos”. Mas o que aconteceria se algum evento inimaginável e poderoso o suficiente pudesse paralisar a rotação de nosso planeta? Eis algumas hipóteses do que poderia acontecer.

Seis meses de luz, seis meses de escuridão

De acordo com Odenwald, segundo as leis atuais da física, a Terra nunca pararia “por completo” nesse progresso natural da redução de sua velocidade de rotação. Mas, caso isso acontecesse de repente, a atmosfera continuaria em movimento na linha do equador, na mesma velocidade atual de quase 1,7 mil quilômetros por hora. Assim, carros, pedras, árvores, edifícios, eu, você e tudo que não estivesse preso às camadas rochosas seria sugado pela atmosfera.

Tudo que não estivesse preso às camadas rochosas da Terra seria sugado pela atmosfera (Reprodução/GoodFon)

Agora, se o congelamento da rotação acontecesse de forma natural, nós teríamos seis meses de luz e outros seis de escuridão, porque o Sol só nasceria e se poria uma vez por ano. Ou seja: o dia planetário teria duração de 365 dias normais. É que a Terra manteria sua relação com o Sol em uma órbita heliossíncrona — uma parte do planeta seria banhada pelos raios solares durante o dia, enquanto a outra ficaria completamente gelada nesse longo período noturno. E, claro, todos os eventos climáticos seriam afetados, assim como a visualização dos astros no céu.

A temperatura dependeria da sua latitude e afetaria o padrão de circulação do ventos atmosféricos, que iriam transitar pelos polos, em vez do equador, como acontece atualmente. À medida que você se movesse ao longo de linhas constantes da latitude da Terra, você veria a elevação do Sol aumentar ou diminuir no céu conforme a sua movimentação — e não de acordo com a rotação do planeta, como acontece hoje.

Os polos magnéticos, que oscilam ao longo do ano, não teriam o equilíbrio atual, e a intensidade do campo magnético decairia para um valor residual baixo. Não haveria mais auroras boreais e austrais, e o Cinturão de Van Allen provavelmente desapareceria, assim como nossa proteção contra raios cósmicos e outras partículas de alta energia. E isso poderia significar graves consequências para todos os seres vivos.

Água nos polos e seca no equador

Em uma análise da ESRI, empresa estadunidense especializada em informações geográficas, se a Terra parasse de girar por completo, a força centrípeta que tornou o centro do planeta mais “gordinho” (e elevou as águas em cerca de oito quilômetros ao longo de bilhões de anos) não estaria mais em ação. Assim, a linha do equador seria formada por terras secas, e os oceanos migrariam para os polos.

Teríamos, então, apenas dois oceanos polares totalmente desconectados. No norte, o Canadá seria totalmente subaquático, assim como todos os outros países da linha imaginária com a fronteira dos Estados Unidos ao longo do globo. Groenlândia, bem como as planícies do norte da Sibéria, Ásia e Europa também ficariam debaixo da água.

Na parte debaixo, o novo oceano do sul começaria aproximadamente em uma linha que atualmente atravessa Camberra, na Austrália. A Argentina, por exemplo, ficaria completamente submersa. Como a bacia subaquática ao redor do Polo Sul é muito maior do que a bacia ao redor do Polo Norte, o “Oceano Sul” teria um nível do mar cerca de 1,4 quilômetros abaixo do “Oceano Norte”.

Simulação mostra faixa de terra que apareceria na linha do equador e os polos sob a água (Reprodução/ESRI)

A faixa central do planeta poderia se tornar, então, um “megacontinente”, unindo a América do Sul, Africa, Europa e Ásia em um só bloco de Terra conectado. A gravidade, como dito na outra hipótese acima, seria também afetada, pois os polos, que são aproximadamente 10 quilômetros mais próximos do centro da Terra do que no equador, teriam um poder de atração ainda mais forte.

Nada a se preocupar (por bilhões de anos)

Assim como vemos no filme O Dia em que a Terra Parou — que, na verdade, tem a ver com uma invasão alienígena —, o mundo ficaria em choque com algo do tipo. O pânico e todas as consequências econômicas e sociais, aliados aos desastres naturais (e a coisas como objetos e pessoas sendo levadas para a atmosfera) iriam praticamente destruir tudo o que conhecemos atualmente no planeta.

A própria possibilidade de vida em si seria afetada, especialmente por conta da intensa radiação solar, sem nosso “escudo” protetor criado pelo campo magnético. Ou seja: seria um completo desastre para todos os seres vivos.

A boa notícia, como dito acima, é que não há condições, de acordo com as leis da física, para a Terra parar “por completo”. E, mesmo se ela chegasse a um estado natural próximo a isso, esse processo levaria bilhões e bilhões de anos para acontecer. Provavelmente nosso planeta já teria sido destruído antes disso, quando o Sol estiver "morrendo". Nossa estrela chegará ao fim de sua vida daqui a mais ou menos 10 bilhões de anos, mas, em 5 bilhões de anos, ela se tornará uma gigante vermelha, com suas camadas externas se expandindo até a órbita de Marte — ou seja, "engolindo" a Terra.


Fonte: Canaltech