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Doutrina Paulo Guedes: combater atos 'antidemocráticos' enterrando a democracia

Paulo Guedes e Jair Bolsonaro durante visita da comitiva brasileira à China. Fopto: Adriano Machado/Reuters


Chega a ser constrangedor ter de explicar, mas vamos lá: nos últimos 15 anos o Brasil não viveu em um regime comunista.

Não chegou nem perto disso.

Os bancos privados lucraram como nunca.

Partidos de diferentes orientações disputaram eleições palmo a palmo. Derrotado em quatro corridas presidenciais, o PSDB, partido mais alinhado ao empresariado, venceu sucessivas disputas em estados-chave, como São Paulo.

O país conquistou, e perdeu em seguida, o selo de investimento. Empresas abriram capital na Bolsa.

Pode-se contestar o sistema de financiamento das chamadas campeãs nacionais através dos bancos públicos, os gastos com mega eventos (que encheram as burras das grandes construtoras), os desajustes fiscais, o inchaço da máquina pública, a intervenção excessiva na economia, os vícios do financiamento eleitoral.

Mas ninguém chegou nem perto de sugerir fechamento de Poderes independentes, não condicionou escolhas políticas apenas a alinhamento automático (Henrique Meirelles, banqueiro, trabalhou nos governos Lula e Temer) ou planejou monopolizar a produção e distribuição dos produtos pelas veias estatais.

Ainda assim, o governo do presidente Jair Bolsonaro não perde a chance de testar as águas para saber até onde vai o medo de seus eleitores com os espantalhos que os ajudou a se eleger. O “comunismo” é um deles - um papo de doido que se tornou discurso na ONU.

Deu tão certo que seus apoiadores mais fanáticos se converteram em macarthistas de primeira ordem. (Para quem não sabe, a expressão é uma referência a Joseph McCarthy, político americano que usou como pode o pretexto da Guerra Fria para assassinar reputações e perseguir todo tipo de pensamento divergente).

Nas redes, vi nesta semana amigos convertidos ao mcarthismo celebrarem a notícia de que o PIB brasileiro havia ultrapassado a da Inglaterra com um aviso: esse é só o começo após o fim da era comunista no Brasil. O detalhe é que a notícia era de 2011, o auge desse regime “comunista”.

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A conversa lembra a estratégia dos anciãos do filme “A Vila”, sobre o qual já escrevemos por aqui. No longa de M. Night Shyamalan, o espectador passa boa parte da história pensando se tratar de um filme de época. Naquela comunidade, afinal, vigora o estilo de vida medieval e um conjunto de hierarquias mantidos na base do terror alimentado pelos mais velhos, que orientam jovens e crianças a jamais chegarem perto da floresta para evitar encontros com criaturas assustadoras que moram no entorno. 

Tudo não passa de fantasia, vestida pelos próprios operadores do medo - que se esforçam em se trancafiar num mundo paralelo, preso ao passado, para manter algum tipo de controle social. O mundo do lado de fora que eles tanto temem (alerta de spoiler) é uma cidade como outra qualquer do século 21.

O resgate dos símbolos de uma era pré-Queda do Muro de Berlim, que acaba de completar 30 anos, é a armadura disponível de quem não parece capaz de enfrentar os bugs do mundo contemporâneo, conectado, baseado na economia criativa, na liberdade, na diversidade, nos valores democráticos.

Tudo isso assusta quem precisa dobrar a aposta no medo para ter algum tipo de prestígio. Vende-se espantalhos para oferecer uma falsa sensação de proteção.

Livre, Lula se tornou o espantalho perfeito para o recrudescimento desse discurso: “se não tomarmos o controle, eles vão quebrar tudo, vão contestar as urnas, vão destruir bancos, virar carros do avesso, vão tacar o terror”.

Fora da cerca discursiva, não há qualquer sinal de que alguém esteja planejando algo parecido. Há apenas alguém dizendo que o rei está nu.

Lula mirou em Paulo Guedes, em sua política de desmonte. Guedes parece ter sentido. E, a exemplo do chefe, foi buscar no entulho do passado mais autoritário o tridente capaz de desmobilizar qualquer reação: “nós temos um passado tenebroso, e podemos tirá-lo das catabumbas para colocar vocês em seus devidos lugares”. A ameaça não é apontada para os adversários, mas para a população em geral, que já começa a se incomodar como o modo Bolsonaro de governar.

O AI-5, dispositivo da ditadura que fechou o Congresso, cassou adversários e suspendeu o habeas corpus, sobrevoa assim como uma espada sobre as cabeças que podem ser cortadas a qualquer momento.

A menção foi prontamente rebatida pelos adultos que ainda restam na sala, Rodrigo Maia (DEM-RJ) entre eles. O presidente da Câmara foi um dos primeiros a contestar qual o sentido de reaver um dispositivo que fechou instituições democráticas a partir do medo de possíveis manifestações antidemocráticas.

Sentido é tudo o que não existe quando palavras e gestos são manifestadas no susto, pelo medo.

Quem não gostou da declaração foram os investidores, que passam a se questionar que tipo de liberdade econômica pode existir num ambiente de liberdades políticas cerceadas ou em permanente ameaça. A alta do dólar após a fala é sintoma da síndrome do tiro no pé. Bem-vindos à doutrina Paulo Guedes.

Em tempo. Tudo seria apenas cômico se não produzisse efeitos no mundo real, e não só a quem prefere guardar dinheiro em lugares menos inóspitos. A doutrina do terror ameaça censurar a classe artística, promete dar licença para matar em casos de manifestações e persegue ONGs e movimentos sociais demonizados pelo presidente e que, aos poucos, começam a ser sufocados com acusações vagas e ameaças de todo tipo, como aconteceu na terça-feira em Alter do Chão. Longe dos círculos de privilégio, o Estado de exceção sempre foi a regra. Agora está escancarado.