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Doria e Covas repudiam invasão a hospital por deputados

Cristiane Agostine

Cinco deputados estaduais forçaram a entrada no hospital municipal de campanha do Anhembi sob a justificativa de que iriam vistoriar as dependências do local O prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), e o governador do Estado, João Doria (PSDB), repudiaram a ação de cinco deputados estaduais que invadiram ontem o hospital municipal de campanha do Anhembi. Para Covas, foi “sensacionalismo barato” e uma “exploração política” da crise sanitária. Alvo de críticas diretas dos parlamentares, Doria afirmou que os deputados usaram o hospital voltado para pacientes com covid-19 como um “palanque político”, em um ato “demagógico” para “criar mentiras e enganar a população”.

Na tarde de ontem, os deputados estaduais Adriana Borgo (Pros), Marcio Nakashima (PDT), Leticia Aguiar (PSL), Coronel Telhada (PP) e Sargento Neri (Avante) forçaram a entrada no hospital municipal de campanha do Anhembi sob a justificativa de que iriam vistoriar as dependências do local, que foi adaptado para receber pacientes com covid-19. Em vídeos publicados em redes sociais, os parlamentares falam que querem “desmascarar” Doria e mostrar que o hospital está vazio, sem pacientes de covid-19.

Críticos das medidas de isolamento social no Estado, os cinco deputados, acompanhados por assessores, foram a uma ala ainda não ativada do hospital, com leitos vazios e camas sem colchão, e gravaram vídeos dizendo que não há pacientes no local. A ação foi amplamente registrada, em vídeos divulgados redes sociais e transmissões ao vivo.

“Classifico o que aconteceu como sensacionalismo barato”, afirmou Bruno Covas, em entrevista à imprensa nesta sexta-feira. Para o prefeito, os cinco parlamentares utilizaram a prerrogativa constitucional de fiscalização para “exploração política”. “Aqueles que acreditam que a Terra é plana, que fazem pouco caso da democracia, que querem a volta do AI-5 utilizam o que muitas pessoas lutaram por muitos anos para conquistar que é parlamento livre, independente e com fiscalização”, disse sobre os cinco parlamentares que invadiram o hospital.

O governador paulista disse que o uso dos hospitais de campanha como palanque político é um “desrespeito aos profissionais de saúde, aos pacientes e à população”. “Demagogia pura de alguns parlamentares que não fazem nada para ajudar no enfrentamento da pandemia, apenas criam mentiras para enganar a população em benefício próprio”, afirmou Doria, em um vídeo. “Se querem fazer política, façam na Assembleia Legislativa, não no hospital de campanha”, disse. “É função da Assembleia fiscalizar, mas não façam campanha política em hospital de campanha. Isso não é atitude elogiável para nenhum parlamentar.”

Covas afirmou que o hospital de campanha do Anhembi já recebeu 3.700 pessoas e que foi montado para desafogar os outros hospitais e unidades de saúde. “Lamento que queiram produzir ‘fake news’ e politizar uma questão importante que é a saúde pública”, disse. O prefeito afirmou que a estrutura montada no Anhembi tem capacidade para 1.800 leitos, disse que a prefeitura usa 887 e paga somente pelos leitos usados.

Ontem, ao entrar no hospital de campanha, os parlamentares criticaram Doria e afirmaram que o governo paulista tem mentido sobre o número de casos de mortes e de pessoas contaminadas por covid-19 no Estado.

A deputada estadual Adriana Borgo gravou toda ação enquanto caminhava pela ala ainda não ativada. “Não tem doente porcaria nenhuma”, disse no vídeo. “Não tem nem colchão”, afirmou, enquanto mostrava as estruturas das camas. A deputada criticou Doria pelas medidas de isolamento social e disse que tem “comerciante morrendo de fome” e prefeitos submetidos às ordens do governador, enquanto o hospital, segundo a parlamentar, não tem paciente. Uma funcionária disse à parlamentar que havia 220 pacientes naquele momento no hospital de campanha e que mais 20 eram aguardados.

Os deputados mostraram-se impacientes com os funcionários do hospital, que tentavam explicar as regras sanitárias para circular por um local com dezenas de pacientes com covid-19. Em um vídeo publicado no Facebook, Adriana Borgo aparece vestindo o equipamento de proteção individual, sem os cuidados necessários. Sem lavar as mãos, vestiu avental, touca, fez troça ao colocar os óculos de proteção, como se fossem um equipamento de mergulho, e afirmou: “Isso é frescura. A gente não tem medo disso”.

Apesar das críticas a Doria, o hospital é municipal.

Em nota, a prefeitura afirmou que os parlamentares e seus assessores invadiram o hospital “de maneira desrespeitosa, agredindo pacientes e funcionários verbal e moralmente, colocando em risco a própria saúde porque inicialmente não estavam usando EPI e a própria vida dos cidadãos que estão internados e em tratamento na unidade”.

“Além da invasão e das atitudes violentas, os parlamentares filmaram as alas do hospital municipal de campanha do Anhembi que ainda não foram ativadas, mas que estão prontas para serem colocadas em funcionamento caso seja necessário. E também gravaram pacientes sem autorização prévia, muitos dos quais estavam sendo higienizados em seus leitos”, afirmou a prefeitura.

De acordo com boletim divulgado nesta sexta-feira pela prefeitura, o hospital municipal de campanha do Anhembi está com 395 pacientes internados.

O Estado de São Paulo é o epicentro da crise sanitária no país, com 129.200 casos e 8.561 mortes. A capital tem 77.768 casos confirmados e 4.843 óbitos, além de 214.213 casos suspeitos. O país registrou 614.941 casos e 34.021 mortes.

O hospital municipal de campanha do Anhembi é administrado pela Organização Social (OS) Instituto de Atenção Básica e Avançada à Saúde (Iabas), que foi afastada da gestão e construção dos hospitais de campanha no Rio de Janeiro por suspeitas de irregularidades.

Bruno Covas e João Doria

Foto: Governo do Estado de São Paulo