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Dona da Telhanorte aposta em retomada de hotéis e escritórios

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***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 14.07.2011 - Fachada de uma loja da Telhanorte na marginal Tietê, em São Paulo. (Foto: Luiz Carlos Murauskas/Folhapress)
***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 14.07.2011 - Fachada de uma loja da Telhanorte na marginal Tietê, em São Paulo. (Foto: Luiz Carlos Murauskas/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Desde julho na presidência para a América Latina da multinacional francesa Saint-Gobain, especializada no setor de construção civil, o espanhol Javier Gimeno afirma que melhorias no processo industrial permitiram que o grupo segurasse parte do repasse da inflação ao consumidor. Ainda assim, foi preciso subir os valores dos produtos. "Acredito que 2022 ainda será um ano inflacionista", diz.

O grupo planeja terminar este ano com crescimento de 40% no faturamento no Brasil, e alcançar 15% no próximo. Para fomentar esse aumento, o executivo aposta em uma retomada do mercado de construção civil não-residencial, como o de escritórios e hotéis. Com a volta do trabalho presencial, ou pelo menos híbrido, "as equipes precisam de um nível de conforto, saúde e segurança maior do que antes", analisa.

A multinacional, que tem entre suas marcas Brasilit, Quartzolit e Telhanorte, vai investir 100 milhões de euros (R$ 627 milhões) no país até dezembro, em ações como a construção de uma nova linha de placas de gesso, em Mogi das Cruzes (SP), uma nova fábrica de telhas de fibrocimento em Abadiânia (GO) e a ampliação da produção desse produto em Recife.

A linha de Mogi promete aumentar em 50% o reaproveitamento interno de resíduos e vai atender o mercado de construção a seco, que gera menos desperdício de água.

Pergunta - Qual o impacto da alta da inflação nos negócios da companhia? Ela está sendo repassada aos produtos?

Javier Gimeno - Inflação é um problema mundial. A demanda explodiu e os fornecedores não têm possibilidade de seguir essa demanda, então, como consequência, os preços sobem. Neste contexto, é necessário compreender se esta inflação é conjuntural ou estrutural. Não tenho como responder, mas acredito que 2022 ainda será um ano inflacionista.

Na Saint-Gobain, temos cultura industrial muito forte e isso nos permite compensar uma parte da inflação com melhorias nos processos de fabricação. Mas a inflação foi tão importante nos últimos meses que, para preservar nossa rentabilidade, tivemos que aumentar os preços, de forma mais limitada do que a inflação, mas esse aumento aconteceu e creio que vai continuar ainda em 2022.

A construção civil apresentou bons resultados no Brasil neste ano, esperam que isso se mantenha no ano que vem?

JG - A indústria de construção está tendo um ano fantástico no Brasil, na América Latina. A primeira razão para isso é que estamos comparando com a demanda de 2020, que foi baixa por causa da pandemia. A segunda é que a pandemia acelerou a demanda por tipos de produtos que a Saint-Gobain produz, que têm relação direta com saúde, conforto e sustentabilidade. A terceira é que as pessoas têm gastado mais do que nunca na renovação das suas casas, porque passaram muito mais tempo nelas e ganharam consciência da necessidade de melhorar seu habitat doméstico.

As reformas vão continuar mesmo com o arrefecimento da pandemia?

JG - Não vejo uma degradação dessa tendência, ela segue estável e é de longo prazo, porque é uma mudança cultural.

A renovação vai continuar a ser elemento de crescimento importante para a Saint-Gobain, porque o mercado residencial novo não deverá ser muito dinâmico em 2022. Acredito que o número de novos prédios vai ficar mais ou menos igual [a 2021].

Para 2022, o que eu espero também é uma reativação do mercado não-residencial, dos escritórios e hotéis, que esteve muito fraco em 2021. Agora, as equipes estão voltando [a trabalhar presencialmente] e precisam de um nível de conforto, saúde e segurança maior do que antes. Elas precisam de espaço maior.

Vocês tiveram que mudar planos de expansão no país por causa dos efeitos da pandemia?

JG - Neste ano, anunciamos três novas fábricas que estão em processo de construção e que devem começar sua atividade industrial até 2023. Tudo isso é um investimento de dinheiro considerável [100 milhões de euros], mas é o que precisamos fazer para continuar crescendo no ritmo que queremos crescer aqui.

No ano passado, vocês projetavam 17% de crescimento no faturamento para 2021. Qual resultado devem atingir e qual a expectativa para 2022?

JG - Teremos de 35% a 40% de crescimento neste ano em relação ao ano passado, na América Latina, e 40% no Brasil. Nós estávamos otimistas no começo do ano, mas fizemos melhor do que esperávamos. Já a taxa de crescimento em 2022 não deverá ser tão alta porque vamos comparar com um ano mais exigente, mas queremos crescer dois dígitos.

Qual a situação da Saint-Gobain nos outros países da América Latina?

Estamos crescendo muito no México, na Colômbia, no Peru e no Chile. Mas o Brasil está

mais avançado, tem demanda mais sofisticada, e a presença da Saint-Gobain é maior. O Brasil representa quase dois terços das vendas na América Latina.

Nós temos uma estratégia muito ambiciosa para a América Latina: é uma região que precisa de uma regeneração urgente do espaço urbano. A taxa de urbanização é muito alta, mas sem levar em conta necessidades em termos de sustentabilidade, conforto e bem-estar. A reforma desses espaços urbanos vai trazer crescimento extremamente importante para empresas como a Saint-Gobain, que propõem esse tipo de solução.

Qual o interesse do mercado brasileiro em construção mais sustentável? Há resistência à mudança do método tradicional?

JG - A construção é uma indústria muito tradicional, no Brasil e em todo lugar. A inovação precisa de longo tempo, mas creio que as condições aqui são muito boas para uma aceleração do uso do tipo de produto e serviço proposto pela Saint-Gobain, vejo que a classe média brasileira está esperando esse tipo de produto.

Creio que há duas tendências importantes: a primeira é uma necessidade de produtividade, a indústria precisa construir mais rápido e mais barato, e para isso precisamos pôr à disposição dela soluções mais fáceis em termos de instalação. A segunda é que, em termos de sustentabilidade, precisamos de soluções menos custosas na utilização de recursos e emissão de CO2.

A diferença com outros países é que no Brasil tudo depende da demanda dos clientes finais, porque, por enquanto, a legislação não define como necessária a utilização desse tipo de produto. Na França, você tem obrigação de construir prédios com baixa emissão de CO2, e no Brasil isso não existe. Mas creio que, com os países mais orientados a ser sustentáveis, essa legislação vai chegar.

O que te faz pensar isso?

JG - Por duas razões: a primeira é porque é o que quer a sociedade brasileira. As pessoas ficam preocupadas com a mudança climática, com o nível de conforto e bem-estar das suas casas, e vão demandar esse tipo de produto. A segunda é que as autoridades políticas do Brasil têm compromisso com outros países em termos de sustentabilidade.

Como é possível fazer essa redução de emissões?

JG - Com soluções em termos de isolamento térmico e solar. Se você isola um prédio e não há intercâmbio de temperatura entre o interior e exterior, não precisa de aquecimento nem de ar-condicionado. Hoje estamos em condições de isolar completamente um prédio. Mas é um investimento em termos de redução de gasto de energia e de emissão de CO2. Se você olhar o que está acontecendo nos Estados Unidos e na Europa, isso é tendência.

*

Raio-X

Javier Gimeno, 56

Formado em economia pela Universidade de Navarra (Espanha), com MBA pela IE Business School, de Madri, ingressou na Saint-Gobain em 1990. Já ocupou os cargos de vice-presidente de marketing e vendas da Saint-Gobain Sekurit Internacional, presidente da Saint-Gobain Glass Solutions da França, presidente da Saint-Gobain Sekurit Ásia-Pacifico, diretor-executivo e vice-presidente do grupo Saint-Gobain para Ásia-Pacífico.

Raio-x da Saint-Gobain

Ano de fundação: 1665, na França (início de operações no Brasil em 1937)

Funcionários: 180 mil no mundo, sendo 12 mil no Brasil

Áreas de atuação: Construção civil, indústria e varejo

Receita: Estimativa de R$ 12,1 bilhões em 2021, no Brasil

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