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Dona Alice: a encantadora da fauna pantaneira

Redação Notícias
·5 minuto de leitura

Por Leandro Barbosa, do Projeto Solos

Gabriel Schlickmann/Projeto Solos
Gabriel Schlickmann/Projeto Solos

Há 22 anos, Alice Galvão do Nascimento, 68 anos, abriu a Pousada do Rio Mutum, em Barão do Melgaço, no Mato Grosso. Goiana de nascimento e mato-grossense de criação, Dona Alice fez uma escolha na vida: cuidar da fauna que a circunda no coração do Pantanal. E foi em uma área de sete hectares onde ela realizou seu sonho: criar um local onde fosse possível a convivência harmônica entre o ser humano e os animais.

Com cabelos um pouco abaixo dos ombros e um adereço azulado de penas caindo pelo seu ombro esquerdo, Alice recebeu a reportagem do Projeto Solos com sorriso no rosto, com fala tranquila, não demorou muito para rejeitar qualquer rótulo: “Não nasci para ser madame”. Dedicada a cuidar dos animais silvestres do bioma, diz com orgulho do chão que pisa. “Ajudei a colocar esse lugar no mapa, a ser reconhecido internacionalmente”.

Gabriel Schlickmann/Projeto Solos
Gabriel Schlickmann/Projeto Solos

A cantoria dos pássaros não cessa na pousada. São diversas espécies que se aproveitam das inúmeras árvores que ocupam o terreno do lugar. Além delas, passeiam por ali diversos animais como antas, veados e macacos. “A minha proposta foi a convivência harmônica no território deles. A vivência ao lado deles. E a gente conseguiu. Em contrapartida, eu ajudo na alimentação deles duas vezes por dia. É o meu ‘aluguel’ por estar na área deles. Eu estou retornando para a natureza tudo o que ela me dá. Cuido dos animais que chegam aqui, às vezes filhotes, cuido e depois faço a soltura. É uma relação de energia mesmo, é incrível”, afirma Alice.

Essa reportagem é uma parceria entre o Yahoo e o Projeto Solos. Para conhecer essa iniciativa de narrativas independentes acesse projetosolos.com

Leia mais sobre o Pantanal:

Devido a uma parceria feita com a Secretaria de Meio Ambiente do estado, a Sema, a pousada se tornou um ponto de apoio para soltura de animais silvestres resgatados do tráfico, acidentes de trânsito ou até mesmo devolvido por pessoas que os criavam clandestinamente. Essa situação que se intensificou com incêndios florestais que queimaram mais de quatro milhões de hectares do Pantanal, este ano.

Gabriel Schlickmann/Projeto Solos
Gabriel Schlickmann/Projeto Solos

Mesmo com o apoio logístico da secretaria, Alice destaca que o trabalho é feito sem apoio financeiro do governo. Mesmo assim, ela afirma que não liga, porque ama o que faz. Porém, a falta de ajuda a afligiu quando o fogo começou a consumir Barão de Melgaço — de acordo com o Instituto Centro de Vida - ICV, de julho a setembro, mais de 600 mil hectares queimaram na região, o que equivale a 56% de área do município.

Na mesma ocasião, ela foi diagnosticada com Covid-19. Foram três meses sem colocar os pés na pousada. Um período de medo que ela enfrentou sozinha, já que o marido e os dois filhos estavam fora do país. Quando pôde voltar, alguns dos bichos que ela chama de filhos já haviam partido. E a dúvida era se eles estavam bem ou não. A destruição ao redor a fez pensar se tudo que já havia feito até então, de fato, valia a pena.

Gabriel Schlickmann/Projeto Solos
Gabriel Schlickmann/Projeto Solos

Foi neste momento de dúvidas, que ela recebeu uma ligação da Sema falando sobre a possibilidade de receber uma equipe da Ampara Silvestre, organização que está atuando no resgate e cuidado dos animais feridos no Pantanal. “Foi uma surpresa muito boa. A gente recebeu muita ajuda, alimentos, se não fosse isso eu estaria sozinha. Agora, voltei a ser a Alice de antes”.

Amor de mãe

Alice afirma que nunca viu um incêndio e uma seca como tem ocorrido este ano no Pantanal: “é a primeira vez que vejo isso [o incêndio], mas também nunca vi 5 meses sem uma gota d'água. Os animais não tem como se defender. Até eu to com o pé queimado, imagina eles! Não tem como eles fugirem do fogo, foi muita queimada. E não foi só no Pantanal, foi no Mato Grosso todo”.

Gabriel Schlickmann/Projeto Solos
Gabriel Schlickmann/Projeto Solos

Para lidar com as consequências da estiagem e a falta de comida devido ao fogo, com apoio da Ampara Silvestre, tem sido distribuído frutas em pontos estratégicos e caminhões pipa abastecem lagoas e corixos que secaram na região. “O pantanal é um bioma muito especial. Não existe igual no mundo. É único. Por isso, é muito triste ver essa destruição. Cada hora que a gente sai, a gente vê animais famintos. Se não é a gente dar alimento, eles morrem mesmo!”.

Cuidar do meio ambiente é mais que uma missão da Alice. “É uma obrigação”, diz. Para ela, se preocupar com o futuro é respeitar o território que é dos bichos, mas que ela ocupa. “Aqui ninguém mais faz o que eu faço, não é barato! Tenho que prover remédios, alimentos, funcionários para limpeza e analisar como os animais estão de saúde. Cuidar deles é minha obrigação. Estou ocupando o lugar deles”.

Gabriel Schlickmann/Projeto Solos
Gabriel Schlickmann/Projeto Solos

O pós queimada é umas de suas maiores preocupações no momento. “O Brasil é assim, só faz base [apagam o fogo e vão embora]. Igual agora, a preocupação é cuidar dos animais, salvar os animais, mas e o pós-queimada? Esses animais não tem onde comer, acabou tudo. Acabou vegetação, acabou fruta, acabou tudo! Vamos pensar no pós, na população ribeirinha com esse monte de detrito em decomposição, esses animais mortos e carcaças caindo no rio depois da cheia. O que vai ser daqui pra frente?”.