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Do sufrágio à tecnologia: ondas feministas moldam o mundo desde o século 21

Por que devemos todos ser feministas? (Foto: Getty Images)

Por Regina Piovan

Só em 1928, no Brasil, as mulheres conseguiram o direito ao voto. Ainda, era o direito ao voto em homens. Depois de mais de 30 anos, o primeiro anticoncepcional foi lançado, lá nos anos 1960. E, foi só em 2013, que homossexuais puderam oficializar a união no civil por aqui. 

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Todas essas conquistas, que hoje parecem direitos básicos de mulheres e pessoas LGBT, foram conquistados com muita luta: cada uma delas protagonizaram grandes movimentos sociais, esses chamados de ondas feministas –já foram três e, hoje, com a tecnologia, elas só crescem. 

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Segundo a doutoranda em Ciência Política pela Universidade de São Paulo, pesquisadora do Grupo de Estudos de Gênero e Política da USP e do Núcleo Democracia e Ação Coletiva do CEBRAP, Beatriz Rodrigues, as redes sociais aceleraram todo o processo, já que possibilitam a expansão das teorias e de organizações de mulheres em busca de direitos. 

As demandas de mulheres começaram no sufrágio, luta protagonizada por brancas de classe média na Europa e nos Estados Unidos; fizeram a revolução sexual, pediram legalização do aborto –e ainda pedem, em muitos lugares do mundo--, pediram igualdade salarial e de gênero. As mulheres lutam desde sempre. E não param. Nesta reportagem, Yahoo relembra as primeiras demandas femininas que movimentaram uma sociedade patriarcal; conta quem eram as protagonistas dessas lutas, o desenvolvimento delas de acordo com os anos e o pé em que, nós, mulheres, estamos, hoje, perante a sociedade. 

Primeira onda: o direito ao voto

Beatriz explica que a chamada primeira onda de movimentos feministas começa a partir das manifestações de mulheres que pediam o direito de votar e de serem votadas, no fim do século XIX e início do século XX. O movimento, segundo a mestre em Gênero Mídia e Cultura pela LSE, Coordenadora Pedagógica da Emancipa Mulher e fundadora da Casa da Mãe Joanna, Joanna Burigo, teve início na Europa e na América do Norte e englobava, principalmente, mulheres brancas de classe média --o que refletia o protagonismo de pessoas dentro da sociedade à época. 

Ao mesmo tempo em que as sufragistas iam às ruas, se reuniam em casas de pensadoras e pediam protagonismo, mulheres negras ainda lutavam pelo fim da escravidão, explica Beatriz. 

“Um aspecto importante para a explosão da primeira onda era a articulação internacional, ou seja, a comunicação entre movimentos feministas de vários países. Mulheres americanas e britânicas viajavam a outros países, entravam em contato com sufragistas estrangeiras para divulgar as demandas. O movimento sufragista brasileiro, por exemplo, teve inspiração no movimento que estava acontecendo nos EUA e na Inglaterra”, diz. 

A professora de Filosofia e escritora da Universidade Paris 8 Márcia Tiburi relembra que foram as mulheres sufragistas que assumiram o termo feminista, visto pela primeira vez em um livro médico. Ao mesmo tempo em que a luta pelo voto fervia as ruas europeias e americanas, as socialistas se negavam a se nomear feministas: para elas, não bastava pedir o direito ao voto, mas, sim, a ocupar o espaço da política: elas não queriam votar em homens, queriam ser votadas, estar inseridas no contexto político.

“O sufrágio era um movimento das mulheres burguesas, brancas. E as socialistas achavam isso ridículo porque elas não queriam votar nos homens, queriam fazer revoluções. Era outro tipo de luta. Hoje, estamos mais próximas das revolucionárias socialistas do que das sufragistas, já que estamos buscando cada vez mais nosso lugar dentro da política”, explica.

Em 1893, a Nova Zelândia se tornou o primeiro país a garantir o sufrágio feminino. No Brasil, a permissão ao voto foi concedida em 1928, muito embora a proibição não fosse pauta da Constituição Federal. No mesmo ano, a Inglaterra permitiu o voto das mulheres. A Arábia Saudita foi o último país a garantir o sufrágio feminino --mulheres votaram pela primeira vez no país em 2015. 

Segunda onda: a revolução sexual 

Demoraram, em média, 60 anos entre a primeira onda e a segunda. No meio dos dois grandes movimentos, Beatriz explica, houve a primeira e a segunda grandes guerras mundiais. No entanto, a produção feminista não estava parada: Simone de Beauvoir lança “O segundo sexo”, Bíblia do movimento feminista, em 1949. 

Beatriz explica que, na segunda onda, as mulheres buscavam a revolução sexual, enquanto Joanna adenda que a pauta do aborto se tornou central em discussões que pregavam o direito ao próprio corpo. “O movimento surgiu paralelamente a um contexto de grande efervescência política e cultural na França, protagonizado pelo maio de 1968, mês em que houve intensos protestos organizados pela juventude francesa contra o conservadorismo”, explica Beatriz. 

Márcia Tiburi relembra que, durante esses protestos intensos em Paris, os intelectuais se juntaram ao povo na rua. Beatriz conta como era esse mesmo período no Brasil:

“Nós vivíamos em um contexto de ditadura militar. Então, por aqui, os movimentos feministas se expressavam com maiores restrições. Muitas mulheres, inclusive, participaram da luta armada. Como lideranças do movimento, destacaria Simone de Beauvoir, Margaret Sanger (que lutou pela adoção da pílula anticoncepcional nos EUA) e Maria Amélia Teles, no Brasil”. 

A especialista continua: “Na época da ditadura, as mulheres tinham que se organizar, muitas vezes, de maneira clandestina, já que a repressão aos movimentos sociais de maneira geral era muito forte. Assim, elas faziam reuniões nas casas umas das outras para discutirem temas relacionados ao universo feminino”.

“Nessa época, elas também criaram jornais para discutir o que na época era chamado de "a questão da mulher", como, por exemplo o "Brasil Mulher", "Nós, Mulheres" e o "Mulherio". O livro da Maria Amélia Teles, "Breve História do Feminismo no Brasil", fala disso. Em um momento em que o acesso ao Estado estava praticamente bloqueado por causa da ditadura, as mulheres não deixaram de se organizar”.

Beatriz retifica a importância da articulação internacional para, também, a segunda onda. Os livros "O segundo sexo", de Simone de Beauvoir" e "A mística feminina", de Betty Friedan, foram traduzidos para diversos idiomas e tiveram importância fundamental para a desnaturalização das desigualdades de gênero.

Terceira onda: identidade de gênero e orientação sexual

Com início no começo da década de 1990 --e há quem diga que até os dias de hoje--, a terceira onda feminista é marcada por fortes questionamentos em torno da identidade de gênero, da raça e orientação sexual. 

“Isso não significa que as mulheres negras começaram a se mobilizar, apenas, na terceira onda”, explica Beatriz. “Elas sempre tiveram papel fundamental nas lutas feministas desde o início, como, por exemplo, a atuação da ativista abolicionista Sojourner Truth nos EUA e sua luta pelo fim da escravidão”, diz. 

Joanna explica que existe uma grande dificuldade, ainda, para as estudiosas dos movimentos das mulheres, de delimitar onde acaba a terceira onda --se é que acaba. “Com a tecnologia, tudo se acelera. Os avanços acabam vindo com mais rapidez porque a tecnologia permite a expansão de ideias mais facilmente”, explica. 

“Na terceira onda, a gente pensa em um feminismo que se organiza a partir das epistemologias de gênero. Década de 1990, globalização, pré-internet, mas já com bastante conexão a partir de outras mídias. Nas academias, há um amadurecimento das teorias. A interseccionalidade como perspectiva teórica aparece”, conta.

“Não sei dizer se existe uma quarta onda, mas essa perspectiva existe. De qualquer forma, eu acredito que este momento do feminismo, chamado de quarta onda ou não, vai ficar bastante caracterizado pela tecnologia de informação a partir da internet. No começo da década de 00, criou-se a blogosfera feminista. No Brasil, é a Lola Aronovich uma das pioneiras desse novo modelo de feminismo de internet com o “Escreva, Lola, Escreva”, explica Joanna. 

Ondas feministas refletem sociedade protagonizada por brancos de classe média

É importante destacar, segundo Joanna, que os movimentos que caracterizam as ondas não são as únicas manifestações de mulheres que acontecem no mundo. Assim como a hegemonia social às épocas --e como é até hoje--, as lutas evidenciadas foram as de mulheres brancas de classe média.

“Captar esses movimentos específicos era uma tendência de uma sociedade branca e de elite, que era quem tinha voz. Não é de se surpreender que o feminismo também seja contado sob essa perspectiva. Por isso, sou crítica de onda”, diz. 

“Não refuto que elas tenham existido, mas é preciso entender que são caracterizadas por movimentos específicos de mulheres e não de todas as mulheres. Movimentos feministas trabalham, operam, organizam suas agendas e pautas a partir de multiplicidades de temas e focos. No entanto, para contar histórias feministas a partir desse marco temporal chamado ondas, são histórias de hegemonia branca de classe média”.

Beatriz concorda: “Muitas das lutas protagonizadas pelas mulheres negras, como a luta pelo fim da escravidão, acabam sendo menosprezadas. As mulheres negras sempre ocuparam o espaço público, seja como comerciantes, feirantes etc. A narrativa que afirma que, apenas na segunda onda, as mulheres começaram a entrar no mercado de trabalho ignora isso”, explica. 

“Acredito que a nossa responsabilidade, enquanto acadêmicas e militantes feministas, é contribuir para a reconstrução dessa história, incluindo as perspectivas de mulheres que historicamente têm sido excluídas, como as mulheres negras, as mulheres rurais, as mulheres trans, as mulheres periféricas”, afirma. 

Beatriz destaca nomes importantes para a luta de mulheres negras no mundo: “As mulheres negras, como Dandara, no Brasil, fizeram parte dos movimentos de resistência à escravidão, contribuindo para a fuga de pessoas escravizadas e fazendo parte dos movimentos abolicionistas”, diz.

E exemplifica: “Maria Firmina dos Reis, escritora negra, escreveu o que é considerado o primeiro romance abolicionista no Brasil. Além disso, diversas mulheres negras como Angela Davis, Bell Hooks, Audre Lorde, Lélia Gonzalez, Beatriz Nascimento e Sueli Carneiro denunciaram o racismo do movimento feminista hegemônico e apontaram para o fato de que a categoria "mulher" não é universal, mas sim atravessa por outras dimensões como raça, classe e orientação sexual. No livro "Mulheres, raça e classe", por exemplo, Angela Davis mostra que o movimento sufragista defendeu o direito ao voto apenas das mulheres brancas, excluindo tanto homens negros quanto mulheres negras”. 

A apropriação do termo

Márcia conta que o termo “feminismo” foi encontrado, pela primeira vez, na obra de um médico. Segundo ela, “homens feministas” era o nome dado a homens com “anomalias físicas que os deixavam com características femininas”. 

“O escritor francês Alexandre Dumas, filho, se apropriou do termo pela primeira vez com o intuito de descrever homens que defendiam os direitos das mulheres. O termo era, inicialmente, masculino. E ele foi sendo ressignificado e apropriado pelas sufragistas”. 

“Hoje, as mulheres não têm vergonha de dizerem que são feministas. As lutas se movimentam quase que organicamente e mostram que é importante se declarar feminista para se reapropriar da própria identidade”, explica. 

“É interessante ver o papel da internet no feminismo. Não é um papel pequeno, há uma dimensão simbólica de que o que a gente produz nas redes sociais se difunde de forma incrivelmente rápida. A gente vê, hoje, grupos de leitura de mulheres, brasileiras na rua pedindo menos violência, as argentinas com seus lencinhos verdes pedindo a legalização do aborto, o #MeToo. Tudo acontece simultaneamente e intensamente. E a tendência é só aumentar”.