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Diretor da PF decide trocar delegado que pediu investigação contra Salles

CAMILA MATTOSO
·5 minuto de leitura

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O recém-nomeado diretor-geral da Polícia Federal, Paulo Gustavo Maiurino, vai trocar o chefe da corporação no Amazonas, delegado Alexandre Saraiva. A decisão foi revelada nesta quinta-feira (15) pelo jornal Folha de S.Paulo e confirmada no início da noite pela assessoria de imprensa do órgão, que passou por troca recente de comando no governo Jair Bolsonaro (sem partido). A mudança ocorre em meio a um atrito entre Saraiva e o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, por causa de uma operação que resultou na maior apreensão de madeira do Brasil, como mostraram reportagens do jornal Folha de S.Paulo nos últimos dias. Na noite da última quarta-feira (14), o delegado enviou uma notícia-crime ao STF (Supremo Tribunal Federal) pedindo que o ministro fosse investigado sob suspeita de advocacia administrativa e de atrapalhar a fiscalização ambiental. Oito líderes de oposição na Câmara dos Deputados enviaram uma representação ao Ministério Público Federal pedindo apuração sobre a demissão de Saraiva. Há apenas dez dias no cargo, o novo diretor-geral da Polícia Federal imediatamente deu início a uma série de mudanças na corporação. Além do Amazonas, Maiurino promoveu trocas de chefia nas superintendências de São Paulo, da Bahia, de Santa Catarina e de Roraima (esta última estava sem ninguém no posto desde o começo do ano). Maiurino também mexeu em um setor sensível da polícia, o de combate à corrupção. O novo diretor da área, Luiz Flávio Zampronha, mudou o coordenador-geral e o chefe do grupo responsável por investigações de políticos com foro especial. Algumas das trocas causaram surpresa e têm gerado críticas internas. Integrantes da cúpula, por outro lado, têm defendido o diretor-geral com o argumento de que ele precisa ter pessoas de confiança ao seu lado. O conflito entre Alexandre Saraiva e o ministro do Meio Ambiente começou após uma visita de Ricardo Salles ao local da apreensão, no Pará, para uma espécie de verificação da operação. Saraiva criticou a atitude, dizendo ser a primeira vez que viu um titular da pasta se posicionar contra uma ação de preservação da floresta amazônica. "Na Polícia Federal não vai passar boiada", disse Saraiva em entrevista à Folha de S.Paulo, adotando um termo utilizado por Salles em reunião ministerial do ano passado que teve o vídeo divulgado por decisão de Celso de Mello (STF). O delegado afirmou que tudo que foi apreendido desde dezembro do ano passado, mais de 200 mil metros cúbicos de madeira, é produto de ação criminosa. Há mais de dez anos ocupando cargos de superintendente na PF (em Roraima, no Maranhão e no Amazonas, agora), Saraiva declarou que as investigadas na ação não podem nem sequer ser chamadas de empresas. "Trata-se de uma organização criminosa." O ministro apontou falhas na apreensão e defende que os madeireiros tenham oportunidade de se manifestar. Também em entrevista à Folha de S.Paulo Salles disse que uma "demonização" indevida do setor vai contribuir para aumentar o desmatamento ilegal. A PF afirmou em uma nota que a decisão foi comunicada a Saraiva na tarde da última quarta-feira (14), portanto antes de o documento de pedido de apuração da conduta do ministro ser enviado ao Supremo. O delegado afirmou, porém, que soube da notícia pela imprensa e que o diretor-geral não o telefonou em nenhum momento para tratar do assunto. Saraiva relatou ter sido procurado por um integrante da nova cúpula que falou informalmente sobre a possibilidade de ele assumir um posto no exterior, mas que não teria dito nem quando nem onde. Na entrevista, ele também fez uma provocação indireta ao novo diretor. "Eu sou um soldado, cumpro missão. Nunca pedi pra ser chefe de nada. Nunca neguei missão na Polícia Federal e nunca tive missão fácil. E toda minha carreira, quero deixar isso claro, toda minha carreira foi totalmente dentro da Polícia Federal. Nunca fui cedido a órgão nenhum", disse o delegado. Maiurino ficou fora da Polícia Federal nos últimos anos ocupando cargos políticos em estados e depois no Supremo e no STJ (Superior Tribunal de Justiça). O delegado Leandro Almada foi o escolhido para assumir o Amazonas. O policial foi o número 2 da gestão de Saraiva e comandou o grupo de investigações ambientais na superintendência. Quarto diretor-geral nomeado desde o início do mandato de Jair Bolsonaro, Maiurino chegou ao cargo sob a desconfiança deixada ainda na saída de Sergio Moro. O ex-ministro pediu demissão atirando contra o governo e acusando uma tentativa de interferência do presidente da República na Polícia Federal, que tem investigações no entorno de aliados e familiares de Bolsonaro. As acusações deram origem a uma investigação contra Bolsonaro. O inquérito até hoje não foi finalizado e aguarda decisão do Supremo sobre como poderá ser o depoimento do presidente, se por escrito ou pessoalmente. Além do Amazonas, outra mudança que gerou polêmica foi a de São Paulo. A escolha do novo chefe da Polícia Federal de São Paulo fugiu de um padrão que vinha sendo respeitado dentro do órgão nos últimos anos. Diferentemente dos cinco antecessores, o delegado Rodrigo Bartolamei não chegou a ocupar cargos relevantes de chefia na PF antes de ser alçado a um dos maiores postos da instituição. A superintendência de SP é a maior do Brasil. Bartolamei estava lotado atualmente no GSI (Gabinete de Segurança Institucional), levado pelo ministro Augusto Heleno. A Polícia Federal de São Paulo estava com novo comando desde março. Ou seja, será a segunda troca em menos de um mês. Bartolamei foi chefe da Interpol e atuou como coordenador de segurança dos Jogos Olímpicos do Rio. Nunca foi superintendente de nenhum outro local, nem ocupou cargos nas cúpulas das superintendências ou de coordenação na sede, como seus antecessores.