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Dilma defende polarização política e prega luta contra 'o neoliberalismo e a desigualdade'

Former President of Brazil Dilma Rousseff speaks during the opening of the Grupo de Puebla meeting at the Hotel Emperador, in Buenos Aires, Argentina, November 9, 2019. REUTERS/Agustin Marcarian

Com a perspectiva de repetição do antagonismo visto na eleição de 2018 entre Jair Bolsonaro e Lula, agora solto, a ex-presidente Dilma Rousseff (PT) afirmou nesta sexta-feira (22) haver uma demonização da polarização política no país. 

O objetivo, segundo ela, é viabilizar o centro como única opção, uma vez que o centro político é a favor de uma economia liberal --responsável pela desigualdade do país, na visão dela. 

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Dilma falou em palestra que antecedeu o 7º Congresso Nacional do PT, em São Paulo. O ato de abertura terá a presença de Lula na Casa de Portugal, que abriga o evento petista até domingo (24). No congresso, Gleisi Hoffmann deve ser reeleita presidente da sigla para um novo mandato de quatro anos. 

A fala de Dilma girou em torno do ataque ao neoliberalismo. "A política que defende que há só o consenso de centro e não há posições diferentes no cenário político é eminentemente uma política liberal. Porque o centro defende que um país com desigualdade brutal não pode ter politicas de contraposição", afirmou.

"A polarização nós não inventamos como país. O próprio IBGE diz que tem uma concentração de renda em que pobre ganha só 0,8% da renda nacional, enquanto os 10% mais ricos ganham 43%. Como que não tem polarização? Aonde que não tem polarização? Se você está excluído da riqueza do seu país", completou, arrancando aplausos da plateia. 

"Como não polarizar diante do fato de que querem cobrar imposto dos desempregados?", questionou, antes de mencionar que também há polarização na questão da Petrobras e da proteção da Amazônia. 

Dilma afirmou ainda que o país não é "polarizado porque alguém quer", em referência aos embates entre Lula e Bolsonaro. "É polarizado porque, infelizmente, é a herança de uma elite cega, oligárquica, que sempre defendeu só seus interesses."

Lula, em suas falas desde que deixou a prisão, no último dia 8, tem dito que o PT deve polarizar. "O PT tem que polarizar mesmo, tem que disputar para valer", afirmou em entrevista na quarta (20). 

Dilma também afirmou que, para que houvesse uma hegemonia neoliberal, foi preciso enfraquecer os partidos, o que permitiu o surgimento da extrema-direita. "Nós somos diferentes do resto do mundo numa coisa, aqui o neofascismo tomou o governo, aqui ele teve uma vitória", afirmou. 

"O que mostra o verdadeiro caráter do neoliberalismo, que é excludente, concentrador de renda, antissocial, antipopular, mas sobretudo no caso do Brasil. [...] Nossa luta democrática pela eleição não é só uma luta contra o neofascismo, é uma luta contra o neoliberalismo e a desigualdade."

Dilma falou em palestra que tinha como foco a América Latina e da qual participaram Gleisi, Fernando Haddad, Celso Amorim, ex-ministro das Relações Exteriores, e José Luis Rodrigues Zapatero, ex-primeiro-ministro da Espanha, entre outros.

A ex-presidente afirmou que vivemos a volta dos golpes de Estado tradicionais ao comentar a situação da Bolívia com a renúncia de Evo Morales. Para a petista, há interferência dos EUA e uma tentativa de reenquadrar a América Latina como seu quintal. 

Após a palestra de Dilma, os cerca de 800 delegados do congresso, além de militantes e convidados, aguardavam pelo discurso de Lula na Casa de Portugal. 

Após decisão do Supremo Tribunal Federal contra a prisão de condenados antes do trânsito em julgado (fim dos recursos) e que permitiu a soltura de Lula, a presença do ex-presidente fez com que o congresso do partido tivesse que ser repensado. A direção do PT tentou mover às pressas a abertura para a praça da República, mas problemas de logística e chuva impediram.

Petistas da cúpula do partido esperam que o discurso de Lula seja mais elaborado e pensado do que os anteriores, considerados um desabafo de quem esteve 580 dias preso. A ideia, dizem, é olhar mais para frente do que para trás e oferecer uma alternativa ao país, com foco em economia, soberania e democracia.

Há ainda uma preocupação de que Lula não faça ataques diretos a Bolsonaro, o que faria o presidente crescer em sua base.

O congresso do PT discutirá, entre outros assuntos, as alianças para a eleição de 2020 e a oposição a Bolsonaro.

Lula já enfatizou a necessidade de que o partido tenha candidaturas próprias no maior número de cidades e lance seus melhores quadros. A estratégia é usar as campanhas petistas e o tempo de TV em 2020 para fazer uma defesa do partido, do seu legado e dele próprio em meio aos processos da Lava Jato.

A forma de organizar a oposição ao governo federal também será tema do congresso. Ao final, o PT apresenta uma resolução que guia os rumos do partido. O documento terá como base a tese defendida pela corrente majoritária do PT, a CNB (Construindo um Novo Brasil).

Líderes da corrente dizem que pedir impeachment será palavra vazia, pois não há crime de responsabilidade nem mobilização social ou maioria parlamentar para dar sustentação a isso. 

A tese da CNB, que será debatida pelos petistas e pode receber alterações, fala em buscar o centro numa ampla frente contra Bolsonaro. 

Gleisi afirmou que as prioridades do partido serão "fazer a mais firme oposição ao governo Bolsonaro, que está destruindo o país; apresentar propostas para superar a grave crise que faz o povo sofrer e fortalecer o partido nas eleições municipais".

***Por Carolina Linhares, da Folhapress