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Dilema da Apple: o que fazer com tanto dinheiro acumulado?

Por Rob Lever
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A Apple, empresa americana com maior capitalização na bolsa de valores, apresentou nesta terça-feira resultados trimestrais 5% maiores que o esperado pelo mercado

É um sinal de sucesso, mas também um problema: a Apple acumulou a surpreendente cifra de 256,8 bilhões de dólares e agora se pergunta o que fazer com tanto dinheiro.

O relatório trimestral que a Apple publicou nesta terça-feira mostra que seu patrimônio em dinheiro - a grande maioria no exterior - saltou para uma quantia que supera o PIB do Chile, segundo os últimos dados disponíveis do Banco Mundial.

A companhia tem resistido a repatriar seus lucros porque a Receita americana cobraria impostos de até 35%.

As propostas do presidente Donald Trump e de legisladores poderão cortar impostos das receitas repatriadas; um incentivo para que a Apple e outras companhias coloquem seu dinheiro nos Estados Unidos.

Enquanto qualquer empresa gostaria de estar no lugar da Apple com seu tesouro em dinheiro, "há algo não muito saudável sobre isso", disse Roger Kay, analista da Endpoint Technologies Associates.

"Normalmente, você esperar ter dinheiro para financiar oportunidades de investimentos, mas obviamente a Apple não tem nenhum uso para tanto dinheiro", afirmou.

A Apple se tornou a empresa mais valiosa e rentável da atualidade. Mas há desafios únicos porque seus lucros vêm principalmente do iPhone, que enfrenta uma concorrência cada vez mais dura no saturado mercado de smartphones.

- Estratégia de longo prazo -

A Apple é pressionada periodicamente a devolver mais dinheiro aos acionistas com maiores dividendos e a recomprar mais ações. Já gastou cerca de 200 bilhões de dólares fazendo isso.

Patrick Moorhead, da Moor Insights & Strategy, argumentou que devolver todo o dinheiro aos acionistas "não ajuda os interesses estratégicos de ninguém" e que a Apple precisa encontrar formas de diversificar seu negócio.

Uma forma de fazer isso seria "tornar-se vertical", ou adquirir uma fabricante de chips, como a AMD, para usar em todos os dispositivos da Apple, disse Moorhead.

A Netflix, disse, poderia complementar o negócio da Apple, oferecendo conteúdo para seu ecossistema de dispositivos.

Moorhead disse que se a Apple, que tem permissão para testar seu sistema de veículos autônomos, leva esse mercado a sério "terá que comprar uma companhia de automóveis", como a Tesla.

Bob O'Donnell, de Technalysis Research, disse que a Apple tem uma quantidade espantosa de dinheiro com a qual pode "reescrever indústrias completamente".

"O desafio é cultural e de organização. Como integrar algo tão grande?", disse O'Donnell.

- Enigma tributário -

A situação da Apple ressalta as crescentes reservas de dinheiro no exterior das multinacionais americanas, estimadas entre 2,5 e 3 trilhões de dólares.

Lisa De Simone, professora da Universidade de Stanford especializada em impostos internacionais, disse que a norma atual cria "incentivos para que as empresas levem os lucros que puderem para o exterior".

Ela acrescentou, contudo, que uma suspensão temporária de impostos, como Washington tentou em 2004, só aumentaria os incentivos.

"Companhias como a Apple só aumentaram o envio de suas receitas com a expectativa de que podem obter outra suspensão mais adiante", disse.

O professor de Finanças da Universidade de Georgetown, Lee Pinkowitz, disse que as companhias com dineiro no exterior estão essencialmente retendo os fundos como reféns dos políticos americanos.

"O governo já revelou em 2004 que estavam dispostos a negociar com os sequestradores", disse. "O que se pode esperar é que façam mais reféns", acrescentou.

O governo de Trump está tentando estimular as empresas a trazer essas receitas para casa para investir e criar emprego nos Estados Unidos.

Mas Pinkowitz disse que um maior estímulo para repatriar ativos é improvável.

- Made in USA -

A Apple poderia usar parte do dinheiro para voltar a fabricar em grande escala nos Estados Unidos?

Jan Dawson, da Jackdaw Research, disse que isso é improvável devido ao processo de fabricação e abastecimento da Apple.

"Simplesmente não temos a força de trabalho para manter essa escala de fabricação", disse. "Nenhum corte tributário vai compensar isso completamente".

Kay, entretanto, afirmou que vê potencial da Apple para trazer as fábricas para casa se as condições forem certas.