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Digimon Survive | Não compre antes de ler

Sinestesia é como chamamos a figura de linguagem que descreve percepções em diferentes órgãos do sentido. Dito isso, Digimon Survive cheira soa e arde como um episódio de anime.

Jogar a aventura inédita publicada pela Bandai Namco e desenvolvida pelo estúdio japonês HYDE (Disney Tsum Tsum Festival, Haunted Dungeons: Hyakki Castle) é sentir-se parte de um episódio de Digimon Adventure, a primeira temporada da animação da franquia produzida no Japão.

Em Survive, o jogador controla Takuma Momozuka, um protagonista que é transportado para o Digimundo ao lado de amigos da escola enquanto visita um santuário antigo. Takuma precisa guiar o grupo de colegas pelos perigos da dimensão digital, em direção ao mundo real.

Para cumprir esse objetivo, a jogabilidade é baseada em escolhas de diálogos que determinam o curso da história. Apesar de contar com combates táticos e elementos de RPG nas batalhas, a experiência de Digimon Survive é majoritariamente narrativa, como em Life is Strange e As Dusk Falls.

Quem jogou as entradas mais recentes da franquia, como Digimon Story: Cyber Sleuth & Hacker's Memory, além de Digimon World DS, vai reconhecer a importância que a série entrega para os diálogos e a narrativa. Com a diferença que Survive não permite o livre deslocamento do jogador pelo mapa, como os antecessores.

O jogador vai passar mais tempo pensando e tomando decisões de diálogos durante a jogatina, do que batalhando contra inimigos e evoluindo monstros. Se você detesta jogos narrativos, é difícil imaginar um mundo em que Digimon Survive seja para você.

Para todos os outros casos, os combates e diálogos no jogo equilibram-se perfeitamente para a criação de uma experiência envolvente e imersiva que fazem de Survive, o melhor jogo de Digimon já lançado.

Gosto de infância

Para quem assistiu Digimon Adventure na televisão, com a abertura cantada por Angélica, e rodou no chão da sala para digievoluir junto com Tai, Agumon e seus amigos, Survive é sinestésico: tem gosto de infância!

As escolhas de diálogos, como toda a trama, captam perfeitamente a essência das primeiras temporadas da animação. O objetivo do grupo de crianças lideradas por Takuma é entender o Digimundo e tentar escapar da desconhecida dimensão digital cheia de perigos e inimigos.

A narrativa consegue dar o peso certo à gravidade da história, inclusive não economizando coragem para matar protagonistas, apresentar fantasmas de crianças menos sortudas que Takai e introduzindo vilões cruéis, que brincam com os menores perdidos.

Entre os elementos familiares às animações também estão os Digimon, que "involuem" após uma batalha e desbloqueiam uma nova evolução frente a um perigo e uma conexão estabelecida com a dupla humana. Algumas crianças se adaptam bem aos companheiros monstrinhos, enquanto outras rejeitam e tem medo das criaturas, expondo as diferentes e únicas personalidades de cada um dos personagens que estão na tela.

Personagens e digimons têm diferentes personalidades em Survive. (Imagem: Captura de Tela/Canaltech. Lucas Arraz).
Personagens e digimons têm diferentes personalidades em Survive. (Imagem: Captura de Tela/Canaltech. Lucas Arraz).

A personalidade do jogador também tem peso, uma vez que as escolhas de diálogos determinam maior afinidade com peças do grupo e ajudam a chegar em finais distintos, o que forma um sistema de moralidade.

Os vilões querem aniquilar as crianças e são muito mais poderosos. Parte da experiência de Digimon Survive é afeiçoar-se aos monstros digitais e pensar em como você, como líder de Digiescolhidos, poderia fazer todo um grupo diferente de pessoas sobreviver a uma dimensão desconhecida e extremamente inóspita. Nem sempre o objetivo será possível.

Trama diversa e sombria

Como um jogo narrativo, é fundamental que Digimon Survive conte uma boa história, capaz de manter o jogador imerso naquela experiência. O objetivo é alcançado. A boa imersão é resultado do ótimo trabalho da HYDE em capturar a essência da franquia. Além das fragilidades da relação de crianças com monstros digitais, Survive passa por cenários distintos, sem abandonar a tensão.

A escola abandonada dos primeiros capítulos é um lugar totalmente baseado no terror, com fantasmas, aranhas e momentos de jump scare. Do segundo ao quarto capítulo, adentramos pelas florestas do Digimundo e a jornada vira-se do terror de sobrevivência para a aventura. O quinto capítulo tem como cenário inicial um parque de diversões e tramas que envolvem comédia.

A mistura de diferentes gêneros de história, do terror à comédia, é bastante similar ao que faz a animação. Ninguém nunca morreu na tela dos desenhos, mas o tom sombrio de Survive só dá mais peso para uma história que, mais do que ser jogada, precisa ser sentida.

Terror, aventura e comédia são gêneros usados para contar história. (Imagem: Captura de Tela/Canaltech. Lucas Arraz).
Terror, aventura e comédia são gêneros usados para contar história. (Imagem: Captura de Tela/Canaltech. Lucas Arraz).

Combates

As lutas aparecem em menor proporção em Digimon Survive do que em jogos antecessores da franquia, mas são parte essencial da experiência e contém soluções muito criativas para o sub gênero dos RPGs de colecionadores de monstros, como Pokémon e Dragon Quest.

Além de deslocar Digimons pelo campo de batalha, abusando da estratégia, diferentes relevos e poderes, o jogador pode controlar evoluções e equipar itens, e também conversar com outros personagens e criaturas durante as lutas para alterar um status. A experiência mais divertida nos combates é, certamente, tentar recrutar um Digimon para a equipe do jogador. Nada de Pokébolas ou forçar o monstrinho.

Em Survive, atrair aliados digitais envolve falta de papas na língua. O jogador precisa conversar com o monstro digital selvagem e convencê-lo a se juntar ao time, por meio de diálogos de múltipla escolha. Digimons selvagens só aceitam ajudar humanos quando encontram pontos em comum com o jogador que está oferecendo as respostas.

Vença Digimon no papo para conquistar novos aliados. (Imagem: Captura de Tela/Canaltech. Lucas Arraz).
Vença Digimon no papo para conquistar novos aliados. (Imagem: Captura de Tela/Canaltech. Lucas Arraz).

Para completar a “Pokédex” de Survive, o jogador não carrega bolas de captura, mas deve entender exatamente qual é a personalidade daquele monstro, a fim de responder certamente a quatro diferentes questionamentos. E as personalidades não são rasas. Gotsumon adora trapaças, mas é medroso. Já Piyomon gosta de inteligência, mas é extremamente autoconfiante.

Por fim, os combates ficariam um pouco melhores se a HYDE tivesse incluído atalhos para as ações, para economizar cliques na realização de tarefas simples, como passar um turno.

Digimon Survive vale a pena?

Como fã de Digimon e de jogos narrativos que sou, Survive serve como um belo banquete. A espera pelo primeiro jogo da franquia em cinco anos valeu a pena por contar uma história empolgante, imersiva e que me remeteu diretamente para as aventuras clássicas que vi na televisão.

Se a sensação de aventurar-se por diálogos em um jogo não parece boa, Digimon Survive impõe uma barreira clara de jogabilidade para você. Na minha experiência, de quem gosta muito desse tipo de RPG para colecionar monstrinhos e aventuras narrativas, consegui equilibrar os momentos de diálogos com lutas. Parti em uma jornada pessoal para convencer todo e qualquer Digimon a fazer parte do meu time na área de lutas livres, empreendendo muito tempo também nos combates.

Digimon Survive, aventura narrativa com elementos de RPG tático da Bandai Namco, está disponível para PlayStation 4, Xbox One, Nintendo Switch e PC (via Steam). O jogo conta com legendas em português do Brasil.

Fonte: Canaltech

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