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Diferença entre inflação de pobres e ricos só deve cair em 2022, diz Ipea

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RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - A diferença entre a inflação dos mais pobres e a dos mais ricos deve ser encurtada apenas em 2022. É o que indica uma nova projeção do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada).

Na pandemia, as famílias com menos recursos sentiram um avanço mais forte dos preços, com a pressão de itens básicos, incluindo alimentos, energia elétrica e gás de botijão.

No acumulado de 12 meses, até outubro, a inflação para a faixa de renda considerada muito baixa disparou 11,39%, conforme o Ipea.

É a variação mais acentuada entre as seis camadas da população analisadas pelo instituto. A faixa de renda muito baixa reúne as famílias com rendimento domiciliar inferior a R$ 1.808,79 por mês.

Na outra ponta, estão as famílias com renda considerada alta (superior a R$ 17.764,49). Até outubro, elas acumularam inflação menor em 12 meses, de 9,32%.

Ou seja, a diferença em relação à dos mais pobres foi de 2,07 pontos percentuais.

O Ipea esperava que essa distância ficasse menor neste final do ano, devido a fatores como a desaceleração dos preços dos alimentos.

As despesas com comida, em termos proporcionais, pesam mais no bolso dos mais pobres do que no orçamento dos mais ricos.

Essa desaceleração, contudo, ficou aquém da esperada, explica Maria Andreia Parente Lameiras, técnica de planejamento e pesquisa do Ipea.

Segundo ela, itens como ovos e aves ainda exercem grande pressão sobre a inflação, bem como tomate e batata, prejudicados pelo clima adverso em parte do país.

Além disso, o bolso dos mais pobres seguiu impactado pelas despesas com o gás de botijão, que subiu com a disparada dos preços dos combustíveis no Brasil.

"Matematicamente, estávamos esperando que, em 12 meses, o acumulado dos mais ricos estivesse mais ou menos estável e que o dos mais pobres estivesse em desaceleração, de maneira que as curvas começassem a se juntar", relata Maria Andreia.

"Não é isso que a gente está vendo. Os dois estão acelerando. Esse gap [lacuna] está se mantendo."

Como o orçamento dos mais pobres é bem mais restrito, o dinheiro é direcionado especialmente a despesas básicas para a sobrevivência. Essa lista contempla alimentação em casa, energia elétrica, gás de cozinha, transporte público e aluguel.

O consumo dos mais ricos costuma ir além e envolve ainda serviços diversos.

O setor de serviços foi atingido em cheio pelas restrições para frear a Covid-19, porque reúne uma ampla variedade de negócios que dependem da circulação de clientes. Bares, hotéis, restaurantes e salões de beleza são exemplos dessas empresas.

Com o avanço da vacinação contra o coronavírus, e o menor nível de restrições a atividades, a demanda mais aquecida por serviços tende a pressionar a inflação para os mais ricos nos próximos meses, aponta Maria Andreia.

Em tese, esse movimento também encurtaria a distância para os mais pobres.

"A gente espera essa convergência para o ano que vem, com desaceleração tanto para os mais pobres quanto para os mais ricos. A desaceleração para os mais pobres tende a ser mais intensa, porque o cenário para alimentos está melhor, as projeções de safra estão boas. A gente também estará saindo da bandeira de escassez hídrica, vai ter um alívio na conta [de luz]", indica a técnica.

"A inflação dos mais ricos também desacelera [em 2022], mas, por conta da pressão de bens industriais e serviços, não vai desacelerar tanto. Então, a gente deve ter uma convergência, mas só mais para o final de 2022."

Em outubro, a inflação na faixa de renda muito baixa alcançou 1,35%. Pelo sétimo mês consecutivo, a variação dos preços foi mais acentuada para essas famílias.

O grupo de renda mais alta, por sua vez, teve inflação de 1,20%. A menor marca da pesquisa (1,10%) foi registrada pelas famílias de renda média-alta --entre R$ 8.956,26 e R$ 17.764,49 por mês.

A escalada da inflação preocupa economistas no país, sobretudo porque as camadas mais pobres da população têm menos condições financeiras para lidar com a carestia de itens básicos.

Durante a pandemia, o avanço dos preços e as dificuldades no mercado de trabalho espalharam cenas de pessoas em busca de doações e até de restos de comida no Brasil.

Em Fortaleza (CE), por exemplo, um vídeo recente mostra um grupo à procura de alimentos em um caminhão de lixo.

Outros casos que ficaram conhecidos foram registrados no Rio de Janeiro, onde um caminhão distribuía restos de carne, e em Cuiabá (MT), que teve filas em busca de doações de ossos de boi.

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