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Diante do coronavírus: nem histeria nem banalização

Por Paul RICARD
Os países e territórios com casos confirmados do novo coronavírus

Diante do coronavírus, é aconselhável evitar a psicose, mas também a sua banalização: na maioria dos casos, o COVID-19 é uma doença benigna, mas também tira vidas entre os mais frágeis e pode acabar saturando hospitais, com consequências dramáticas.

Quem está mais exposto?

A mortalidade claramente aumenta com a idade: isso é o que demonstra uma ampla análise publicada em 24 de fevereiro por pesquisadores chineses na revista médica americana "Jama".

Dos quase 45.000 casos confirmados, a taxa média de mortalidade foi de 2,3%, sem mortes entre crianças menores de 10 anos. Até 39 anos, a taxa é muito baixa, 0,2%. Aumenta para 0,4% entre os quadragenários, 1,3% entre 50-59 anos, 3,6% entre 60-69 anos e 8% entre 70-79 anos.

Pessoas com mais de 80 anos são as mais expostas, com uma taxa de mortalidade de 14,8%.

Outro fator de risco é o fato de sofrer uma doença crônica, como insuficiência respiratória, doença cardíaca, câncer, histórico de AVC...

Um estudo chinês publicado na segunda-feira pela revista “The Lancet”, envolvendo 191 pacientes, estudou fatores associados ao risco de mortalidade.

“Uma idade avançada, o fato de apresentar sinais de sepse (ou septicemia, infecção generalizada) ao chegar no hospital e doenças subjacentes como hipertensão e diabetes foram fatores importantes associados à morte dos pacientes”, afirmou um dos autores, o doutor Zhïbo Liu.

Mas as pessoas mais expostas ao novo coronavírus não devem entrar em pânico.

“Quando uma pessoa infectada morre aos 85 anos, o coronavírus não é o que a mata”, mas muitas vezes “as complicações sofridas por seus órgãos que não estavam mais funcionando adequadamente”, afirma Michel Cymes, médico e figura televisiva na França.

O mesmo vale para pacientes com doenças crônicas.

Para o professor francês Jean-Christophe Lucet, o risco diz respeito principalmente a pacientes que sofrem de formas severas dessas doenças. “Devemos ser extremamente claros” sobre este ponto, enfatiza à AFP.

Quantas pessoas podem morrer?

Segundo o estudo de 24 de fevereiro, a doença é benigna em 80,9% dos casos, grave em 13,8% e crítica em 4,7%.

Do número total de casos confirmados no mundo, o COVID-19 matou cerca de 3,5% dos pacientes, com disparidades entre os países. O último número oficial de mortos é superior a 5.000.

Mas essa taxa não é confiável, já que se ignora o número de pessoas realmente infectadas. Como muitos pacientes quase não apresentam sintomas ou são assintomáticos, o número de infectados é provavelmente muito maior do que o detectado e, portanto, a taxa é certamente mais baixa.

Se considerarmos uma estimativa que inclui casos não detectados, “a taxa de mortalidade é de cerca de 1%”, afirmou Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Doenças Infecciosas dos EUA, na quarta-feira.

No entanto, o perigo de uma doença depende não apenas de sua letalidade, mas também de sua capacidade de expansão.

Mesmo com uma taxa de mortalidade de 1%, “esse número pode ser consistente se 30 ou 60% da população estiver infectada”, diz Simon Cauchemez, do Instituto Pasteur de Paris.

Por outro lado, entre os 130.000 casos registrados desde o início da pandemia no mundo, mais da metade já foi curada, segundo a Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos.

Quais as diferenças com a gripe?

Apesar de compartilhar sintomas como febre e tosse, o coronavírus não é como uma “simples” gripe.

Em primeiro lugar, parece mais letal, já que a gripe tem “uma mortalidade de 0,1% e esta doença é 10 vezes mais mortal”, segundo Fauci. A OMS estima que a gripe deixa a cada ano entre 290.000 e 650.000 mortes em todo o mundo.

Além disso, os especialistas temem que formas graves do COVID-19 possam afetar uma parte maior da população do que a gripe.

O COVID-19 “não é uma simples gripe, pode se manifestar seriamente em pessoas não tão velhas”, enfatiza o número dois do ministério da Saúde da França, Jérôme Salomon.

De acordo com um estudo chinês – em um pequeno número de pacientes, de 1.099 – 41% dos casos graves tinham entre 15 e 49 anos e 31% entre 50 e 64 anos (em comparação com 0,6% para menores de 14 anos e 27% para os maiores de 65 anos).

Além disso, diferentemente da gripe, “não estamos protegidos” contra o COVID-19, Salomon lembra: “Não há vacinas, não há tratamento” e o ser humano não é naturalmente imunizado contra esse novo vírus.

Os vírus da gripe e do COVID-19 têm em comum que sua propagação é combatida da mesma maneira em nível individual.

Essas são as medidas de precaução: evitar apertar as mãos, beijar, lavar as mãos com frequência, tossir e espirrar na cavidade do cotovelo ou em um lenço descartável, usar máscara quando estiver doente...

Os hospitais ficarão saturados?

É o principal perigo da pandemia: um aumento brusco dos casos, o que levaria a um fluxo maciço de pacientes nos hospitais, causando a superlotação.

Isso não apenas complicaria a hospitalização de pacientes críticos com COVID-19, mas também de todos os outros. A situação pioraria se a equipe médica começasse a ser infectada, deixando de cuidar dos pacientes.

“Devido a esse duplo fator – uma sobrecarga de trabalho com menos funcionários –, os pacientes com patologias urgentes não poderiam ser tratados a tempo e correriam o risco de morrer”, explica à AFP o médico belga Philippe Devos, especialista em reanimação.

Nas redes sociais, muitos médicos alertam para o risco de saturação dos hospitais.

Esses especialistas lembram aos usuários da internet a importância de cada um aplicar as medidas para combater o coronavírus, com alertas no Twitter.

A comunidade médica procura, dessa forma, chamar a atenção para a responsabilidade de cada um, a fim de frear a epidemia prolongando-a ao longo do tempo. Desse modo, o "boom" será menos abrupto e o volume de pacientes simultâneos não sobrecarregará o sistema hospitalar.

- E os animais de estimação?

O caso de um cão diagnosticado “um pouco positivo” em Hong Kong com um dono infectado levantou a questão de possíveis contágios entre o ser humano e os animais.

Mas os cientistas insistem no fato de que este é um caso isolado e que não serve para tirar conclusões.

“À luz do conhecimento científico disponível, não há evidências de que animais de estimação ou de gado tenham um papel importante na disseminação do vírus SARS-CoV-2”, estimou a agência francesa de segurança sanitária ANSES na quarta-feira.

Segundo seus especialistas, a detecção do vírus nas cavidades nasais e orais do cachorro de Hong Kong não é prova de infecção do animal. Em vez disso, estão considerando a possibilidade de um “contágio passivo” (sobrevivência do vírus sobre uma mucosa sem que se reproduza), apesar de exigir estudos complementares.