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Na pandemia, homenagear professores é respeitar seus limites

Matheus Pichonelli
·5 minutos de leitura
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Getty Comercial

Toda vez que chamo algum amigo professor para conversar, sinto que estou dialogando com alguém submerso. São poucos segundos para respirar fora da água antes de voltar ao fluxo da correnteza.

As respostas são quase sempre curtas, às vezes monossilábicas. Não é difícil entender o porquê.

Se tem um elo em que a corda estourou durante a pandemia, este elo são os profissionais que nesta quinta-feira, 15 de outubro, deveriam celebrar o Dia do Professor.

Celebrar o quê? Como?

Desde que nos confinamos, sobrou para eles a tarefa de mediar o conhecimento relacionado a um mundo que desaparecia à medida que nos distanciamos e outro que se abria.

Boa parte desses profissionais teve de lidar, de um dia para o outro, com operadoras e problemas de conexões de quem funciona para vender pacote e nunca para resolver problemas técnicos.

Conexão virou licença poética. Nunca estivemos tão desconectados longe do ambiente escolar.

No caso dos professores e professoras, não tem nada mais irritante do que ouvir que o Brasil não pode parar ou perguntas sobre quando é que vamos voltar ao trabalho. Eles NUNCA deixaram de trabalhar. Eles estão no limite de tanto trabalhar.

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Disponíveis online, professores e professoras passaram a lidar com demandas novas que não têm hora para chegar. Nem hora para terminar.

Uma amiga professora de história no interior resume a situação. Uma das principais dificuldades é explicar aos pais e gestores escolares que trabalhar em casa não é trabalhar o dia todo.

Quer homenagear o professor da sua escola? Que tal, então, respeitar o horário, em vez de entupir as caixas de WhatsApp com mensagens a todo instante? "É como se você tivesse que estar disponível o tempo todo", queixa-se minha amiga, que pede para não ser identificada por razões óbvias.

Quando não está dando aula, em um ritmo diferente da cadência e do controle da sala de aula, ela está preparando as atividades ou fazendo algum curso exigido pela direção. "Querem nos transformar em professores 4.0 em uma escala econômica-administrativa que não tem nada a ver com pedagogia", resume.

Com a rotina esfacelada, ela conta, séria, que anda deprimida, ansiosa e que perdeu a vontade de fazer qualquer coisa nos raros momentos de descanso. Tudo isso sem contar o alvoroço de pais pautados pro grupos políticos desorientados que confundem exercício crítico e pensamento com doutrinação.

Vantagens?

"Bom, hoje pelo menos está chovendo e vou poder ficar em casa", celebra, como se estivesse diante de uma vitória de Pirro.

A alegria dura pouco. Minutos depois da mensagem, ela conta ter recebido uma chamada da coordenação dizendo que se tem alguém com problema de conexão por causa da tempestade, a escola está aberta para fazer as atividades por lá.

Isso não seria um problema, segundo ela, se os mesmos gestores e profissionais responsáveis pela tecnologia na escola não tivessem passado o fim de semana postando fotos em festas e churrascos, como se a covid, razão para ela e os alunos estarem em casa, não existisse.

"O pior ainda não passou", ela sentencia. "O que vemos é uma falta de consciência e cidadania. Estamos assistindo à segunda onda de doença na Europa e sem ter saído da primeira...", lamenta.

Ao fim da mensagem, ela pede desculpas pelo tom de desabafo e o pessimismo. Hoje você pode tudo, eu respondo.

E tem como ser diferente?

Do meu quarto, ouço a tentativa desesperada de uma professora do ensino primário tentando organizar minimamente o conteúdo a ser transmitido para crianças de sete anos. É o caos. Em vez de levantar as mãos, as crianças passam horas clicando em botões para poder falar. Levam às telas, em vez da sala de aula, toda a ansiedade dos dias confinados sem hora para acabar -- voltarão em 2020? Só em 2021?

No corredor, enquanto brigamos com nosso filho para ele não dispersar pela milésima vez, vejo uma estante com os livros que, como na música, nos formaram e estão a nos formar.

Lembro de cada professor que montou esta estante como se fosse uma casa sólida de tijolos.

O maior desses professores/construtores já não está mais aqui. Professor de literatura no cursinho, ele morreu num acidente no ano em que entrei na faculdade. Não pode escrever o prefácio do livro de estreia do escritor que ele um dia jurou ver em mim.

Nunca vou esquecer da volúpia com que falava de Machado de Assis, Guimarães Rosa, Clarice Lispector. Era como se cada parágrafo, cada verso e cada estrofe fossem parte de um banquete do qual ele se deleitava e se lambia, deixando uma sala com cem estudantes esfomeados a poucos metros de uma biblioteca que se tornou pequena desde sua chegada. Que falta você faz, professor.

Fico pensando em quantas misérias literárias ele não teria me ajudado a escapar durante a vida adulta se estivéssemos ainda em contato. O que diria do que dissemos agora longe das páginas impressas, em ambientes virtuais, toscos, polarizados e embrutecidos.

Podemos respeitar o horário de trabalho do professores, mas eles estão condenados, no bom sentido, a serem nossos professores por toda a vida.

Eu, pelo menos, não sei encontrar qualquer um deles na rua sem chamar de professor ou professora. Mesmo que alguns, da faculdade de jornalismo ou cursos de suas áreas, sejam antes de tudo jornalistas e profissionais da sua área.

Com alguns tive a sorte de trabalhar na mesma empresa, anos depois da faculdade. E manter contato pelas redes. Acho que nunca vou conseguir chamá-los pelo nome ou sobrenome. Serão sempre os nossos professores.