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Dia da Consciência Negra: 10 expressões do português que geram controvérsia sobre racismo

·10 min de leitura
grupo de pessoas
No dia a dia, é possível que você esteja utilizando, sem saber, palavras que se originaram da discriminação a negros ou que remetem à escravidão

Esta reportagem foi atualizada para refletir contestações sobre a origem de algumas palavras. Veja abaixo a versão completa:

O histórico de escravidão e discriminação a negros no Brasil deixou marcas que se estendem para a linguagem que utilizamos no dia a dia.

Em muitos casos, a associação da cor preta a algo negativo fica evidente em frases como: você está na minha "lista negra", ela comprou o computador no "mercado negro" ou sou a "ovelha negra" da família.

Mas certas expressões de possível origem racista são muito menos óbvias.

Para gerar conscientização e sugerir que sejam abolidas do cotidiano, a Defensoria Pública da Bahia lançou para o Dia da Consciência Negra - celebrado em 20 de novembro - uma espécie de dicionário do que considera serem expressões racistas.

"Nosso idioma foi construído sob forte influência do período de escravização e muitas destas expressões seguem sendo usadas até hoje, ainda que de forma inconsciente ou não intencional. Precisamos repensar o uso de palavras e expressões que são frutos de uma construção racista", diz o texto de introdução da cartilha, chamada "Expressões Racistas do Cotidiano".

Vale destacar, porém, que algumas expressões são alvo de discussão entre pesquisadores e etimologistas da língua portuguesa - ou seja, em muitos casos, há mais de uma interpretação para a origem das expressões.

Mas, para além da origem das palavras em si, o mais importante é a conotação racista que elas foram ganhando no uso cotidiano, argumenta a professora Maristela Gripp, doutora em Estudos Linguísticos e professora do curso de Letras da Uninter.

"Palavras não são boas nem ruins. O problema é quem as fala, para quem as fala e em qual situação", diz à BBC News Brasil. "Veja a palavra macaco e como ela é usada nos campos de futebol para ferir (jogadores negros)."

Conheça dez expressões de possível origem racista citadas nesse dicionário que ainda integram o vocabulário de muitos brasileiros:

1. Da cor do pecado

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Cartilha da Defensoria Pública destaca que uso de expressões de origem racista podem significar microagressões a pessoas negras

A cartilha da Defensoria Pública da Bahia explica que a expressão "da cor do pecado", muitas vezes usada como "elogio" por pessoas brancas, carrega a cultura racista de "hipersexualização dos corpos negros, estigmatizados no período colonial, quando os 'senhores' violentavam sexualmente mulheres negras e encaravam isso como um momento de diversão".

Outras expressões citadas na cartilha também remetem a essa sexualização das pessoas negras, principalmente das mulheres. A publicação destaca que essa objetificação abre caminho para violência sexual e discriminações.

"A expressão 'mulata tipo exportação', por exemplo, muitas vezes dita como forma de elogio, reforça o estereótipo hipersexualizado que recai sobre mulheres negras, que vem desde a época em que as escravas eram objetificadas e erotizadas, e são vistas até hoje como mulheres que supostamente não servem para casar", diz o documento.

"É uma expressão muito ruim para meninas e mulheres negras - é como se seus corpos tivessem de estar à disposição", agrega Maristela Gripp.

2. A dar com pau

A expressão "dar com pau", usada hoje em dia para expressar "abundância" ou "grande quantidade", também remete à violência da escravidão.

"Expressão originada nos navios negreiros. Muitos dos capturados preferiam morrer a serem escravizados e faziam greve de fome na travessia entre o continente africano e o Brasil. Para obrigá-los a se alimentar, um 'pau de comer' foi criado para jogar angú, sopa e outros alimentos pela boca", diz o dicionário da Defensoria Pública da Bahia.

Por isso, a publicação sugere que, em vez de dizer, por exemplo: "tinha gente a dar com pau", as pessoas digam "tinha muita gente" ou "bastante gente".

Outra variação da expressão com origem na escravidão, também muito usada hoje em dia, é: "nem a pau". Nesse caso, ela pode ser substituída por: "de jeito nenhum".

3. Nas coxas

A expressão "nas coxas" costuma ser usada para se referir a algo malfeito. E uma antiga interpretação reforçada pela cartilha da Defensoria Pública da Bahia é de que ela tem origem na "época da escravidão brasileira, quando as telhas eram feitas de argila, moldadas nas coxas de pessoas escravizadas. Como tamanho e formato variavam, a expressão remete a algo mal feito".

Mas essa teoria foi colocada em xeque. O arquiteto restaurador José La Pastina Filho, superintendente regional do Instituto Nacional do Patrimônio Histórico (Iphan), relata, em artigo de 2006, que essa ideia é inconsistente com "as medidas da coxa de um homem de 1,80 m de altura" que fosse usada como um molde para telhas.

"Sem maiores preocupações com aspectos de anatomia humana, se estabelecermos uma simples regra de três, poderemos verificar que, para fabricar uma telha de 77cm, precisaríamos contar com um escravo (a) de 3,85m de altura", argumenta Pastina.

Novamente, independentemente de qual seja a origem da expressão, ela acabou associando o trabalho negro a coisas malfeitas, pondera Maristela Gripp.

4. Denegrir

Essa palavra, usada para dizer que alguém está "manchando" a imagem ou reputação de alguém, vem do latim denigrāre, que significa "enegrecer".

"Possui na raiz o significado de 'tornar negro'. Utilizado como sinônimo de difamar ou caluniar, reforça, mais uma vez, ser negro como negativo, ofensivo", diz o "dicionário" da Defensoria Pública da Bahia.

5. Disputar a nega

Essa expressão, usada para se referir a "desempatar um jogo", tem base tanto na escravidão quanto na misoginia e no desprezo à mulher, segundo a cartilha.

"Àquela época, era comum ver os senhores de escravos colocando como prêmio em jogos ou apostas uma mulher negra escravizada", diz a publicação da defensoria, que recomenda que não utilizemos mais essa expressão. Em 2019, a China respondia por mais de 65% de todo o saldo comercial brasileiro (na tela: fonte - Indicador de Comércio Exterior da FGV/IBRE).

6. Meia tigela

Assim como "nas coxas", meia tigela é expressão usada frequentemente para se referir a algo medíocre ou mal feito. Mais uma vez, há quem argumente que o termo tem origem na escravidão.

"Os negros que trabalhavam à força nas minas de ouro nem sempre conseguiam alcançar suas metas. Quando isso acontecia, recebiam como punição apenas metade da tigela de comida e ganhavam o apelido de 'meia tigela', que hoje significa algo sem valor e medíocre", diz o dicionário de Expressões Racistas do Cotidiano.

Mas existe a possibilidade de que o termo tivesse um uso mais amplo, não relacionado aos escravos. O Grande Dicionário Houaiss aponta que, no livro A Casa de Mãe Joana, o autor Reinaldo Pimenta (uma obra que discute a origem de palavras e expressões da língua) dizia que "criados, oficiais etc que não moravam no palácio real eram alimentados 'com as rações prescritas da Cozinha Del Rei e a porção de cada um variava conforme a importância do serviço prestado. E assim havia gente de tigela inteira e gente de meia tigela".

7. Macumba

A palavra originalmente era usada como nome de um instrumento de percussão de origem africana, semelhante a um instrumento de reco-reco, diz a cartilha.

Mas, no Brasil, passou a ser utilizada de maneira pejorativa para se referir às oferendas a orixás nas religiões de matriz africana. A defensoria destaca que cada religião de matriz africana tem nome próprio para se referir a oferendas e sugere que os termos corretos sejam adotados no cotidiano, sem atribuir conotação negativa a um rito que deve ser respeitado como parte de uma religião.

Segundo a cartilha, no candomblé e na umbanda, fala-se em "ebó" ou "despacho" para tratar de oferendas a orixás ou entidades espirituais. "Vamos deixar de estereotipar religiões de matriz africana e cada um seguir com sua fé", sugere a publicação da defensoria.

8. Mulato/a

A cartilha destaca que o termo "mulato", na língua espanhola, se referia ao filhote macho do cruzamento do cavalo com a jumenta ou da égua com o jumento- o que em português chamamos de mula.

O termo, que define o animal mestiço, passou a ser usado, segundo o dicionário Houaiss, a partir do século 16 como analogia para se referir a filhos de mãe branca e pai negro ou vice-versa. Ou seja, compara-se um animal mestiço com um ser humano que descende de brancos e negros.

No entanto, existe outra teoria a respeito da etimologia do termo, descrita por exemplo no livro do pesquisador americano Jack D Forbes, que sugere que a palavra mulato veio, na verdade, da palavra árabe "muwallad", usada (muito antes da escravidão colonial europeia) para descrever "árabes estrangeirizados", ou seja, de origem étnica mista.

Isso, segundo essa teoria, teria sido incorporado pelas línguas portuguesa e espanhola e passado a descrever pessoas de origem mista, como explicou Forbes no livro Africans and Native Americans.

Para além da origem etimológica, no entanto, alguns ativistas e especialistas em linguagem argumentam que a palavra acabou ganhando conotação racista em seu uso cotidiano - fosse para diferenciar negros pela gradação de sua cor da pele, fosse para hipersexualizar mulheres negras.

"A enorme carga pejorativa é ainda maior quando se diz 'mulata tipo exportação', reiterando a visão racista do corpo da mulher negra como mercadoria", diz o dicionário de Expressões Racistas do Cotidiano.

É mais um caso de palavra que, independentemente de sua origem, passou a ser associada ao racismo, diz a professora Maristela Gripp. "Não haveria nenhum problema com a palavra se não vivêssemos em um contexto racista. Ela passou a ser empregada com um sentido pejorativo", argumenta.

9. Escravo

Uma discussão cada vez mais em voga diz respeito ao uso da palavra escravizado no lugar de "escravo", para se referir aos africanos trazidos à força ao Brasil durante a colonização portuguesa.

O dicionário da Defensoria Pública da Bahia explica qual o argumento por trás disso: "Usar a palavra 'escravo' sugere que seja uma característica e condição inerente à pessoa, sendo que foi algo imposto ao povo africano, que foi sequestrado e torturado pela escravidão. A palavra sugere desumanização, esquecendo a história e o legado desses povos para a história mundial."

Apesar dessas expressões nem sempre serem usadas com a "intenção" de ofender ou discriminar, a publicação da defensoria sugere que as pessoas voluntariamente abram mão delas, porque elas reforçam uma cultura de subjulgar, sexualizar e inferiorizar os negros.

"O racismo se revela de diversas formas em nossa sociedade. Estas microagressões, além de reproduzirem um discurso racista, ao identificarem a negritude como marcador de inferioridade social, afetam o bem estar de pessoas negras", diz a Defensoria Pública da Bahia.

10. Criado-mudo

A origem do termo criado-mudo é alvo de diferentes teorias, e muitas iniciativas tentam incluí-lo na lista de expressões que deveriam ser abolidas.

Essas iniciativas partem da teoria de que o termo faz referência "aos criados, geralmente pessoas escravizadas, que deveriam segurar objetos para seus senhores e eram proibidos de falar".

Por causa disso, o dicionário da Defensoria Pública recomenda que a palavra "criado-mudo" seja substituída no dia a dia das pessoas por "mesa de cabeceira".

No entanto, quem questiona essa teoria argumenta que o termo "criado" não era usado, na época, para descrever escravos (e sim pessoas criadas dentro de uma determinada família, por exemplo adotadas) e que a expressão criado-mudo provavelmente é mais antiga, sendo derivada do inglês "dumbwaiter".

O dicionário Oxford define "dumbwaiter" (literalmente, 'servente burro') tanto como um elevador de transporte de refeições em restaurantes ou residências privadas quanto como "uma mesa auxiliar" de serviço.

A Associação Histórica da Casa Branca descreve como Thomas Jefferson (um dos fundadores dos EUA e autor da Declaração de Independência americana) dispunha desses "dumbwaiters" em cerimônias informais na sede do governo americano, para acomodar comida e talheres que eram oferecidos aos convidados.

"Os serventes traziam a comida quente, mas não permaneciam no aposento durante a refeição. A conversa fluía livremente, sem a possibilidade de que trabalhadores pudessem ouvir informações sensíveis e repeti-las fora da Casa Branca", diz a associação, citando como referência o livro The President's House, de William Seale.

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