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Deuses da astronomia | Como incas interpretavam os astros

Nathan Vieira
·6 minutos de leitura

Na antiguidade, a humanidade justificava praticamente tudo com base nos deuses, algo que também acabava englobando o que observavam no céu. Foi por isso que criamos a série "Deuses da Astronomia", justamente para entender de que maneira os astros eram justificados pelas antigas civilizações. Nesta sétima e última parte da série, abordamos a civilização inca!

Valdecir Ferreira, filósofo e teólogo, professor de Antropologia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), explica que os incas, assim como os astecas, foram uma importante civilização que nas Américas conseguiram se destacar pelos profundos desenvolvimentos religiosos, sociais e comunitários. Foram protagonistas na complexa construção de estradas e viveram por territórios que hoje correspondem da Colômbia ao Chile.

"O sistema de governos era a Teocracia, ou seja, tinham uma forte influência da religião. Como constituíram o povo por meio de diversas conquistas, os incas chegaram a ter mais de 30 idiomas entre seus habitantes. Num determinado período do ano, eram convocados pelo imperador para serviços do Império. Todos os anos se repetia essa prática. Com a fragmentação populacional, vivenciaram o enfraquecimento interno e, com isso, foram dizimados pela colonização hispânica", diz o professor.

Questionado sobre a relação deles com astronomia, o especialista destaca que os incas se destacaram pela agricultura, pela astronomia e conhecimentos sobre a natureza, e que mesmo não tendo a escrita própria do povo, os conhecimentos foram registrados com a chegada dos espanhóis. Para marcar suas festividades religiosas e de agricultura, criaram um calendário lunar com 365 dias e 12 meses.

Chegaram a construir, na cidade de Machu Picchu, um relógio do sol, para verificar os dias, as estações e as festividades religiosas. O conhecimento era regido pelas constelações. Acreditavam que agricultura, religião e astronomia estavam interligadas. Já em relação às crenças, os incas eram um povo de constituição politeísta e acreditavam em vários deuses. "A vida e a fé estavam ligadas com as forças da natureza. Sol, Lua, Trovão e Vento eram considerados deuses, sendo o Sol o deus regente. A cidade de Machu Picchu era o centro das peregrinações religiosas e rituais".

Céu

O céu da mitologia inca era representado principalmente por Pacha Camac, um deus invisível e cheio de complexidades e reviravoltas em sua lenda (Imagem: Reprodução/Nicolas DEBRAY/Pixabay)
O céu da mitologia inca era representado principalmente por Pacha Camac, um deus invisível e cheio de complexidades e reviravoltas em sua lenda (Imagem: Reprodução/Nicolas DEBRAY/Pixabay)

O céu é sempre representado de uma maneira muito importante nas mitologias em geral, e com a inca isso não é diferente. Tudo começa com Viracocha, o deus da criação, que foi o primordial que criou o céu, a terra, o oceano, o sol, a lua e a primeira raça que habitou o lago Titicaca. O deus enviou uma inundação que matou todos, menos dois, um homem e uma mulher, fundadores da civilização inca. Outra versão da criação dos homens diz que Viracocha tentou uma segunda vez fazê-los lama. Depois de dar luz e ordem ao mundo, ele os deixou emergir das cavernas para expandir sua civilização.

Agora que já sabemos sobre a criação, vamos falar do céu em si: ele é representado por Pacha Camac. Trata-se de uma divindade invisível que controla o elemento do ar e concede milagres ao povo. Na mitologia em questão, ele governou as artes, profissões e oráculos. Era também o irmão de Manco Capac, o fundador da raça Inca. Pacha Camac queria muito criar uma raça humana, mas acabou falhando nisso. Sua raça viveu muito pouco porque se esqueceu de lhes fornecer comida e sofreu a eterna rejeição das pessoas.

Enquanto isso, o tempo (não o cronológico, o tempo meteorológico mesmo) é representado por Ilyapa. Ele era o deus dos fenômenos meteorológicos, especialmente tempestades. Ele foi retratado como um homem em roupas brilhantes, segurando com uma mão uma jarra cheia de água, onde estava a Via Láctea, e com a outra uma tipoia. Ilyapa controlava os elementos climáticos que disparavam uma pedra com sua tipoia dentro da jarra. O zumbido do fundo era um trovão, o projétil no céu era relâmpago e a água derramada do jarro era a chuva.

Sol

Basicamente, o deus Sol era o mais importante da mitologia inca, sendo representado por Inti (Imagem: Reprodução/Ira Gorelick/Pixabay)
Basicamente, o deus Sol era o mais importante da mitologia inca, sendo representado por Inti (Imagem: Reprodução/Ira Gorelick/Pixabay)

O Sol também sempre acaba tendo um espaço de destaque nessas mitologias. No caso da mitologia inca, o astro é representado por Inti. Basicamente, ele era o deus mais importante de sua religião, o deus Sol. Inti teve pena dos homens que viviam como bárbaros nus em cavernas subterrâneas, e com isso em mente ensinou as artes, a agricultura, religião, fabricação têxtil e organização na sociedade. Sua veneração se estendeu por todo o império e a cidade de Cuzco foi seu principal centro de culto (Já assistiu a aquele filme "A Nova Onda do Imperador", da Disney? É inspirado nessa cultura!). O ouro era considerado o suor do sol, razão pela qual as paredes de seu templo eram banhadas por esse material.

O deus em questão também dominava diretamente as plantações, especialmente o milho para o qual os festivais eram celebrados. A mitologia também justificava os eclipses solares. Acontece que, segundo as crenças, foram atribuídos à ira de Inti. E vamos de menção honrosa? Vale falar de Chuichu, o arco-íris. Ele era o deus do arco-íris que ajudou Inti e Mama Kilya (a Lua, vamos falar melhor dela já já) com o plantio da cidade. Como os incas dependiam do sol e da chuva para ter boas e abundantes colheitas, Chuichu apareceu quando as duas divindades foram unificadas para o benefício dos incas.

Lua

Onde tem Sol, tem Lua, nas mitologias. Quando se trata da inca, a mesma coisa: a deusa era a esposa de Inti, a divindade do Sol (Imagem: Reprodução/JEFF HUAN/Pixabay)
Onde tem Sol, tem Lua, nas mitologias. Quando se trata da inca, a mesma coisa: a deusa era a esposa de Inti, a divindade do Sol (Imagem: Reprodução/JEFF HUAN/Pixabay)

Se você acompanhou os outros episódios dessa série, percebeu que nas mitologias é muito comum que o Sol e a Lua tenham alguma relação. Senão uma relação de amor ou de parentesco, algo de oposição intensa. De qualquer forma, na mitologia inca, isso também acontece: o Sol e a Lua são pombinhos! Mama Kilya, a lua, é filha de Viracocha e esposa de Inti.

Além de personificar o satélite natural da Terra, a divindade também estava associada à chuva. Por suas fases lunares, ela era a deusa representativa da passagem do tempo também, então governava o calendário e os feriados religiosos. Val ressaltar também que essa divindade era considerada a protetora das mulheres, dos votos de casamento e da fertilidade. É muito comum que a Lua seja retratada como uma figura associada ao feminino. Isso acontece em várias mitologias.

Vênus

Apesar de o nome Vênus ser associado a uma deusa romana, os incas tinham uma personificação para esse planeta, chamada Chasca (Imagem: Reprodução/NASA)
Apesar de o nome Vênus ser associado a uma deusa romana, os incas tinham uma personificação para esse planeta, chamada Chasca (Imagem: Reprodução/NASA)

Olha que interessante: os incas tinham a própria "Vênus". Trata-se de Chasca, a personificação do planeta. o primeiro a sair e o último a desaparecer. Ela é considerada também a deusa do amanhecer e do pôr-do-sol, sendo representada como uma mulher linda e adorável que gosta muito de flores. Diferente da Vênus romana (que era a deusa do amor, da beleza e tudo o mais), essa "Vênus inca" é também a protetora das princesas e das virgens. A divindade também é associada à primavera e, justamente por ter o domínio do amanhecer e do pôr-do-sol, também é apontada como a deusa da renovação.

Fonte: Canaltech

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