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Deus está vendo? O reconhecimento facial chegou às igrejas

Rafael Arbulu

Já imaginou se a igreja evangélica que você frequenta fornecesse aos líderes religiosos informações suas, pertinentes a, por exemplo, a frequência com a qual você participa dos cultos, a hora em que você chega para eles, prováveis motivos de seu não comparecimento eventual, além de informações como nome, gênero e idade?

Essa é uma realidade que já faz parte da vida de algumas pessoas, segundo informações do jornal El País. O site da publicação esteve presente na ExpoCristã, uma feira dedicada ao consumidor evangélico e que oferecia, além de shows gospel, simulações virtuais de episódios da Bíblia e produtos variados, como livros de pastores e produtos de diversas igrejas.

Uma das ofertas, porém, chamou mais atenção: a empresa Kuzzma, que oferece tecnologia de reconhecimento facial capaz de informar todos os dados mencionados acima no início desta matéria. Além disso, o recurso consegue ainda aferir coisas como a necessidade de uma visita pastoral a um membro da igreja, caso o sistema identifique que ele precise. As palavras, aliás, são do CEO da empresa, Paulo Oliveira, que deu entrevista aos organizadores do evento.

Vale citar: nem Oliveira, nem ninguém da empresa quis dar entrevista à Agência Pública, presente no local.

(Imagem: Reprodução/El Pais)

Pelo site da empresa, a tecnologia funciona da seguinte forma: uma câmera panorâmica faz a captura em vídeo de todo o ambiente, informando aos seus gestores os dados dos fiéis presentes e elaborando relatórios estatísticos. A instalação em si não depende, porém, de apenas uma câmera, podendo ser adquirida em pacotes com várias delas, tudo a preço variado, claro. Uma única câmera, que a Kuzzma disse estar oferecendo desde outubro de 2019, mas sem citar parceiros, tem custo inicial de US$ 200 mensais (quase R$ 840).

Uma compnhia concorrente oferece um serviço similar, voltado ao reconhecimento de voz: chamada Igreja Mobile, a companhia usa software da empresa de segurança TecVoz, de forma customizada às necessidades das igrejas. Também há o serviço de reconhecimento facial, bem parecido com o da Kuzzma: uma câmera de alta resolução faz as capturas e coleta de informações dos fiéis, enviando tudo a um computador central para elaboração de relatórios.

“Nós conseguimos definir para o cliente a assiduidade do usuário, contagem de pessoas, humor do usuário, se ele está feliz, se está triste, se está angustiado, com medo. Nós conseguimos definir isso tudo”, explicou ao El País o diretor de desenvolvimento, Luís Henrique Sabatine.

A tecnologia de reconhecimento facial começa a ser adotada por igrejas, que buscam em empresas especializadas ofertas de valor acessível para monitoramento de dados em seus cultos

Questões como privacidade e consentimento na coleta de imagens são tocadas pelas igrejas que fazem uso da tecnologia. De acordo com Sabatine, o sistema precisa ser alimentado com os dados de cadastro dos fiéis, como fotos, nomes etc., e todos eles têm ciência da implementação e coleta ao assinarem, na entrada da igreja, um termo de permissão. “A gente leva os membros, eles registram a face no nosso software lá e assinam o termo dizendo que a igreja irá utilizar a imagem dele para o reconhecimento facial, porque o banco de dados não fica com a Igreja Mobile. Isso fica com o cliente”, ele disse ao El País.

Já outras clientes, como a Igreja da Restauração ou o Projeto Recomeçar, limitam-se a anunciar no início de cada culto sobre a captura, mas sem coletar assinaturas ou permissões individuais. Responsáveis pelo TI nas duas congregações defendem que o consentimento vem no momento em que os fiéis fazem o cadastro com foto no sistema.

A especialista no uso legal dos dados que foi ouvida pelo El Pais, Joana Varon, discorda da percepção: para ela, o simples cadastro não deve funcionar como uma ação permissiva, haja vista que fiéis podem se sentir coagidos a se cadastrarem para manterem a continuidade nos cultos. “As pessoas vão deixar de ir ao culto? Elas têm essa opção se elas já fazem parte da igreja? É preciso estar em uma posição em que seu consentimento ou não, não limite o seu acesso”.

O mercado de reconhecimento facial está previsto na Lei Geral de Proteção de Dados, mas as igrejas que adotam essa tecnologia não parecem seguir o que rege a legislação

Há ainda um outro problema: a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) rege que dados biométricos são informações sensíveis e, por isso, só podem ser utilizados, segundo enuncia a lei, com o consentimento prévio do usuário, de forma destacada e específica, para finalidades claras e detalhadas.

E você? É parte de alguma igreja que tenha adotado essa tecnologia? Se sim, como você se sente em relação a isso? Conte para nós a sua experiência nos comentários abaixo.

Fonte: Canaltech

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