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Desligar o PC a força pode danificar meu computador?

Rafael Arbulu

Quando o seu computador dá aquela “travadinha” básica, uma das tentações mais óbvias é forçar o desligamento de forma manual, efetivamente eliminando os processos que estão na fila e religando-o sem tarefas pendentes. Fazer isso é fácil: basta segurar o botão de desligar/ligar a máquina até que a tela se apague (um processo conhecido pelo jargão hard reset). Cômodo e simples, como a tecnologia promete ser. Mas há quem diga que abusar desse recurso pode danificar seriamente o computador, tanto na parte do hardware como no software. Mas será que isso é verdade?

A primeira coisa a ser discutida é a definição de “desligamento” de um PC: resumidamente, as máquinas antigas funcionavam mais ou menos como o interruptor de luz da sua sala, ou seja, uma via permitia a entrada de energia, outra via a negava. Diferente de hoje, com máquinas que possuem modos de hibernação ou vários outros modos de cessão de operação, computadores antigos eram bem mais simples nesse quesito. Assim sendo, o ato de “desligar” um computador, quando feito corretamente, é simplesmente um comando enviado pelo botão correspondente para o sistema operacional, que fechará todas as aplicações antes de ordenar o “corte” na oferta de energia.

O desligamento forçado de uma máquina é uma saída viável, como um último recurso a ser tentado quando tudo mais falhar, mas isso requer alguma atenção... (Imagem: Reprodução/Windows Report)

Verdade ou mentira? Bom, um pouco dos dois...

É importante ressaltar que o desligamento forçado é uma ação válida. Segundo o engenheiro de computação Levi Rodrigues da Silva, porém, ela é uma que deve ser usada com cuidado: “A prática de hard shutdown ['desligamento forçado', na tradução contextualizada do jargão] deve ser vista como um último recurso. As máquinas de hoje usam fontes chaveadas, ou seja, significa que temos circuitos de controle e proteções diversas nas fontes, que antes não tinham, mas problemas eletromecânicos ainda podem ser causados pela súbita interrupção de energia”, explica em entrevista ao Canaltech.

A primeira situação que vem à mente com esse assunto é o HD. O consenso generalizado é o de que a agulha do disco rígido poderia danificar seus pratos fisicamente. Rodrigues indica que há uma certa veracidade nisso, porém não é tão grave quanto as pessoas fazem parecer. Veja: um disco rígido funciona “escrevendo” dados de arquivos em seu prato. Isso é, de uma forma bem resumida, o que “salva” um arquivo. Se no meio desse processo o computador for desligado, o que é mais provável ocorrer é que o arquivo em questão fique corrompido.

Entender o funcionamento de seu computador de forma plena vai ajudá-lo a decidir se e quando usar o desligamento forçado sem causar danos aos seus arquivos e componentes (Imagem: Reprodução/Shutterstock) 

“As máquinas antigas usavam muito o HD para realizar suas tarefas, mas hoje em dia isso é bem diminuído porque existem outros recursos embarcados, onde grandes quantidades de memórias RAM que armazenam dados não precisam mais buscar informações nos discos: muitos recursos de cache aliviam o estresse do HD, que fica mais rápido no processamento. Então podemos dizer que os recursos das máquinas novas aliviam e aumentam a vida útil dos HDs, porém a situação de ambos ainda continua igual e pode trazer os mesmos problemas. Então as interrupções que antes poderiam causar problemas no HD hoje em dia provocam os mesmos sintomas, mas com vida útil maior da peça”.

Rodrigues ainda ressalta que o mercado está mudando novamente de paradigma, adotando o disco de estado sólido (SSD) como padrão de armazenamento nas máquinas lançadas recentemente. “Como o SSD não usa mídia magnética como o HD, as vantagens são ainda mais numerosas e seguras”, pontua.

Outra situação é quando o computador é desligado a força, porém não pela vontade do usuário. É o caso de quedas de energia na residência, por exemplo. Esse tipo de tensão também poderia causar problemas em máquinas mais antigas, com uma configuração diferente de hardware. Rodrigues explica que, nesses casos, existiam até mesmo riscos de incêndio devido à súbita mudança na energia.

“Aqui é onde a tecnologia de hardware teve a maior evolução — e onde entra o assunto da fonte chaveada que mencionei antes. Antes, elas não eram usadas devido ao alto custo. Hoje, todas as fontes são chaveadas, o que significa que temos circuitos de controle e proteções diversas nas fontes, que antes não existiam. Hoje em dia existe o fato de poder ligar uma máquina em voltagens de 100V a 240V sem grandes preocupações, pois a fonte se ajusta ao valor de entrada. Tudo isso faz com que o circuito dos computadores novos sejam muito melhor que os antigos”.

Computadores mais novos trazem maior proteção contra quedas súbitas e picos de energia inesperados, oferecendo maior resistência ao desligamento forçado do que se via em máquinas mais antigas

No que tange ao software, Rodrigues diz ser um caso que depende de maior atenção. Conforme detalhamos no funcionamento de um HD, é possível que a súbita queda de energia faça com que arquivos se corrompam. A questão é: quais arquivos? Nisso o especialista é sucinto: “todos”.

“O software tende a ser mais protegido. Se o HD apresentar problemas, isso não significa que é algo no software, porém partes dele podem ser interrompidas e perdidas, especialmente em programas que se ligam a outros: esse ‘caminho’ se perde e o computador não faz a busca por completo. É o caso, por exemplo, de uma pasta que não está acessível, mas outras na mesma área de gravação são lidas normalmente”.

Um segundo caso, este mais grave, é a corrupção de um software armazenado em um componente próprio: “geralmente, esse caso é referente ao armazenamento em um componente de gravação conhecido como ‘SPI’, onde fica a BIOS da máquina. Esse tipo de software é o responsável por efetivamente ligar a máquina e fazer a interface com outros programas. Se ele for corrompido, é possível recuperar as informações de fábrica ou com uma ação de hardware durante o processo de boot, mas isso é usado por um profissional, que terá de abrir o seu computador e acessar a sua placa-mãe”.

O método do desligamento forçado também pode ser aplicado em smartphones, porém seu uso é mais raro para dispositivos móveis, que tendem a ter uma recuperação mais rápida

Falamos muito sobre computadores pessoais, mas Rodrigues também diz que é importante considerar os smartphones nessa equação. Pela lógica, esses telefones são, a grosso modo, computadores de bolso: eles possuem memória, processador, placa-mãe, sistema de armazenamento, sistema operacional de base e capacidade de instalação de aplicativos. Assim como o seu laptop ou desktop, o desligamento forçado também é possível no aparelho por onde você deve estar lendo isso agora — e isso também requer atenção.

“Seja Android, iOS, Windows, Linux ou macOS, tudo isso são apenas nomes diferentes que representam hardware e software operando de forma integrada. Por isso, às vezes, temos que resetar ou formatar um smartphone com as configurações de fábrica, geralmente após o sobrecarregarmos com apps demais ou arquivos demais. Porém, os universos de hardware entre as plataformas são diferentes. Portanto, o desligamento forçado é mais raro em dispositivos móveis. Neles, o caso mais potencialmente danoso é o de abrir o aparelho e remover a bateria, pois isso poderia danificar circuitos internos. Em outras palavras, há problemas parecidos, mas também há problemas exclusivos de cada tecnologia”.

Quando o dano pode ser extenso

É comum em sistemas operacionais como o Windows oferecerem avisos bem notáveis de quando estão rodando processos sistêmicos ou mais sensíveis. Nessas ocasiões, sempre há algum popup ou alerta pedindo que o usuário mantenha a máquina em funcionamento.

Tais processos incluem as atualizações de sistema, instalações de drivers ou manipulação de arquivos essenciais ao sistema. Como Rodrigues pontuou, há casos em que o desligamento súbito pode ocorrer dentro de algum desses processos, que são extremamente importantes para, bom, religar a máquina.

O consenso da comunidade de TI é justamente o de evitar o desligamento forçado, por qualquer razão, durante ações de instalação de uma forma geral: quando você baixa um programa e o instala, por exemplo, vários de seus componentes são alocados em diversas pastas do sistema operacional, o que pode levar ao mau-funcionamento não apenas do que foi baixado, mas também de onde se pretende instalar algo.

E como evitar tudo isso?

Por sorte, os sistemas atuais contam com mecanismos de proteção pré-instalados desde a saída da fábrica. Atualizações de sistema, por exemplo, exigem um nível mínimo de carga na bateria de um laptop. Desobedecida essa recomendação, o processo de update sequer será iniciado.

O engenheiro de computação diz que mesmo usuários mais leigos saberão especular o tipo de problema, o que pode ser útil em uma recuperação: “Se o computador liga, os indicadores LED acendem, o display exibe mensagens, mas o sistema não ‘dá o boot’, como dizem, então o problema está no HD. Trocá-lo pode resolver sem grandes dores de cabeça”.

Casos mais graves podem remeter a falhas mais intensas. Nessas situações, a recomendação é imediatamente procurar um técnico especializado para avaliar o dano e as possibilidades de recuperação: “geralmente, casos assim podem ocorrer quando se corrompe algo ligado à firmware de algum equipamento, ou na gestão de energia. Aqui, a manutenção especializada é o melhor caminho, pois se o técnico detectar que se trata de uma SPI corrompida, por exemplo, pode ser que a recuperação valha à pena mesmo pagando a mão de obra. Entretanto, é bom manter outras opções em mente, pois se o custo de recuperação passar de 30% do valor da máquina — e ela própria já tiver mais de dois anos de uso —, talvez seja a hora de comprar um PC novo”.


Fonte: Canaltech

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