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Desemprego vai a 12,9% no trimestre até maio e afeta 12,7 milhões, diz IBGE

Bruno Villas Bôas

Período foi marcado por dispensa recorde de pessoal Com dispensas recordes durante a pandemia, a taxa de desemprego nacional foi de 12,9% no trimestre móvel encerrado em maio, acima dos 11,6% registrados nos três meses anteriores, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) divulgada nesta terça-feira pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O resultado ficou ligeiramente abaixo da mediana das projeções de analistas de consultorias e instituições financeiras ouvidos pelo Valor Data, que apontava para uma taxa de 13% no período. O intervalo das projeções ia de 12,4% a 14,8%.

O período foi marcado por dispensa recorde de pessoal.

A população ocupada — empregados, empregadores, trabalhadores por conta própria, servidores etc. — somava 85,936 milhões de pessoas, queda de 8,3% na comparação ao trimestre móvel até fevereiro (redução de 7,774 milhões) e baixa de 7,5% frente a igual período de 2019 (menos 7 milhões).

Desta forma, o número de desempregados — pessoas que procuraram emprego, sem conseguir — somou 12,71 milhões de março a maio, 3% acima do trimestre móvel anterior (mais 368 mil pessoas) e 2,1% menor do que no mesmo período de 2019 (273 mil pessoas a menos).

O desemprego não cresceu ainda mais porque parte da população que perdeu a ocupação decidiu não procurar emprego, diante da dificuldade de circulação pelas grandes cidades e a falta de oportunidades. A população fora da força de trabalho — pessoas desempregadas e que não buscavam trabalho — aumentou 13,7% frente ao trimestre até fevereiro, alta de 9 milhões por essa comparação.

Marcelo Camargo/Agência Brasil

Dispensas

As dispensas de pessoal foram disseminadas no trimestre móvel de março a maio deste ano, alcançando nove de dez atividades acompanhadas pela pesquisa do IBGE.

Em meio aos impactos do isolamento social sobre a economia, o país perdeu 7,774 milhões de ocupações (postos formais ou informais) no trimestre móvel de março a abril, frente aos três meses anteriores. A queda de 8,3% foi a maior da série histórica, iniciada em 2012.

O principal destaque foi a perda de 1,983 milhão de ocupações no comércio no trimestre até maio, o que representa uma redução de 11,1% frente aos três meses anteriores. Mas outras atividades também tiveram perdas expressivas ao longo do período, segundo a pesquisa.

Houve perdas relevantes de ocupação na indústria (-1,230 milhão de postos), alojamento e alimentação (-1,240 milhão de postos), na construção (-1,083 milhão de postos), serviços domésticos (-1,170 milhão de postos) e outros serviços (-675 mil vagas). Este último inclui trabalhadores dedicados a serviços às famílias como manicures, cabeleireiros, entre outras ocupações.

De acordo com o IBGE, apenas o serviço público não reduziu o número de ocupados - houve a contratação de 748 mil pessoas no trimestre até abril, frente ao trimestre móvel anterior. Esse movimento tem refletido nos últimos meses a contratação de professores para as escolas públicas municipais.

Desalento

O país tinha 5,411 milhões de pessoas em desalento no trimestre encerrado em maio, 718 mil pessoas a mais na comparação ao trimestre móvel anterior, o correspondente a uma alta de 15,3%.

A quantidade de trabalhadores em desalento é um recorde da série histórica da pesquisa, iniciada em 2012, conforme o IBGE.

Desalentada é a pessoa que está fora da força de trabalho — ou seja, não está empregada nem tomou providências para conseguir emprego, mas aceitaria uma vaga se alguém oferecesse. São pessoas desiludidas com o mercado de trabalho.

Quando comparado ao mesmo período de 2019, o desalento cresce 10,3% no trimestre até maio, o correspondente a 506 mil pessoas a mais nessa condição.

Segundo analistas, o desalento é um dos fatores por atrás do avanço relativamente lento da taxa de desemprego durante a pandemia. Quem não procura trabalho não é contado como desempregado pelo IBGE, que segue metodologia internacional.

A pesquisa mostrou também que o número de trabalhadores subutilizados — como é chamada a mão de obra “desperdiçada” no país — cresceu 13,4% no trimestre até maio, frente aos três meses imediatamente anteriores, para 30,4 milhões de pessoas.

O conceito de subutilização soma três grupos de trabalhadores: os desalentados, os desempregados e os subocupados por insuficiência de horas (empregados que gostariam de trabalhar mais horas).

Segundo o IBGE, a taxa de subutilização era de 27,5% no trimestre móvel até maio, acima da taxa de 23,5% do trimestre móvel encerrado em fevereiro deste ano.

Renda

A renda média dos trabalhadores cresceu no período de março a maio deste ano. A renda média dos trabalhadores brasileiros foi de R$ 2.460 no período, 3,6% acima dos três meses encerrados em fevereiro (R$ 2.374) e 4,9% acima do apurado no mesmo período do calendário anterior (R$ 2.344).

O aumento da renda num período de pandemia é explicado pela dispensa concentrada de trabalhadores com menores salários. Dessa forma, a média do rendimento acaba “puxada” para cima. É um chamado efeito composição.

Tanto que a massa de rendimento real habitualmente recebida por pessoas ocupadas (em todos os trabalhos) somou R$ 206,623 bilhões de março a maio deste ano, 5% abaixo do trimestre móvel anterior e 2,8% inferior ao mesmo período findo em 2019.