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Desemprego recua para 8,7% e atinge 9,5 milhões no Brasil

RIO DE JANEIRO, RJ (UOL/FOLHAPRESS) - A taxa de desemprego no Brasil voltou a recuar e atingiu 8,7% no terceiro trimestre deste ano, informou nesta quinta-feira (27) o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). É o menor patamar desde o segundo trimestre de 2015 (8,4%).

O resultado veio em linha com as expectativas do mercado financeiro. Analistas consultados pela agência Bloomberg projetavam taxa de 8,7%.

A desocupação marcava 9,3% no segundo trimestre, o mais recente da série histórica comparável da Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua). No trimestre até agosto, que integra outra série da Pnad, a taxa já estava em 8,9%.

O número de desempregados, por sua vez, recuou para 9,5 milhões até setembro. É o menor nível desde dezembro de 2015 (9,2 milhões). O contingente somava 10,1 milhões no segundo trimestre deste ano.

"Estamos em um processo de normalização, voltando para o cenário de antes da pandemia", afirma Alex Agostini, economista-chefe da agência de classificação de risco Austin Rating.

"O mercado de trabalho é uma das últimas variáveis a se recuperar de uma crise. O Brasil está entrando em um nível de desemprego mais comparável a sua realidade, mas que ainda é elevado em relação a outros países", acrescenta.

Nas estatísticas oficiais, a população desempregada envolve pessoas de 14 anos ou mais que estão sem trabalho e seguem à procura de novas vagas. Quem não tem emprego e não está buscando oportunidades não entra nesse cálculo.

A Pnad retrata tanto o mercado de trabalho formal quanto o informal. Ou seja, abrange desde os empregos com carteira assinada e CNPJ até os populares bicos.

A população ocupada com algum tipo de trabalho voltou a bater recorde na série histórica, iniciada em 2012. No terceiro trimestre, chegou a 99,3 milhões de pessoas, uma alta de 1% (mais 1 milhão) frente aos três meses imediatamente anteriores.

"A taxa de desocupação segue a trajetória de queda que vem sendo observada nos últimos trimestres. A retração dessa taxa é influenciada pela manutenção do crescimento da população ocupada", disse Adriana Beringuy, coordenadora da Pnad.

O número de empregados com carteira assinada no setor privado alcançou 36,3 milhões até setembro. A alta foi de 1,3% em relação ao trimestre anterior (35,8 milhões), o que significa 482 mil pessoas a mais.

O contingente, contudo, ainda está abaixo do recorde. O pico foi verificado no segundo trimestre de 2014 (37,8 milhões).

Já o número de empregados sem carteira no setor privado alcançou 13,2 milhões. É o maior da série. O dado representa uma leve variação de 1,3% (mais 169 mil) ante o trimestre até junho e um avanço de 13% (mais 1,5 milhão) na comparação anual.

"Embora positiva, a queda no desemprego veio acompanhada de um forte crescimento no número de trabalhadores sem carteira assinada, algo que no longo prazo pode acabar sendo prejudicial para o país, tendo em vista a não arrecadação de impostos que está atrelada a esta modalidade de trabalho", indicou relatório da CM Capital assinado pelo economista Matheus Pizzani.

O IBGE também destacou que o número de empregados no setor público alcançou a máxima de 12,2 milhões. Cresceu 2,5% (mais 291 mil) no trimestre.

Dentro do setor público, o número de empregados sem carteira atingiu 3,1 milhões, outro recorde na série. A alta foi de 11,6% (mais 317 mil) frente a junho.

"Temos observado um ritmo acelerado no setor público nos últimos três trimestres, em função, principalmente, da recuperação do segmento de educação e saúde", afirmou Beringuy.

A pesquisadora do IBGE lembrou que a área de ensino foi bastante prejudicada pela pandemia, e agora há uma recomposição de vagas.

Ela ainda relatou que o Censo Demográfico, a contagem da população realizada pelo IBGE desde agosto, também favoreceu as contratações no setor público.

"Os indicadores que a gente tem disponíveis mostram, sinalizam, esse processo de recuperação", afirmou Beringuy.

O número total de informais, que também envolve os trabalhadores por conta própria sem CNPJ, por exemplo, foi estimado em 39,1 milhões no terceiro trimestre.

O contingente até ficou menor, mas ainda está próximo do recorde de 39,3 milhões, registrado no segundo trimestre deste ano.

De julho a setembro, o número de trabalhadores por conta própria sem CNPJ recuou 1,4% (menos 275 mil) frente aos três meses anteriores, para 19 milhões. No sentido contrário, o grupo por conta própria com CNPJ (formalizado) aumentou 3,8% (mais 245 mil), para 6,7 milhões.

RENDA SOBE APÓS QUEDA NA PANDEMIA

A queda do desemprego, a partir do ano passado, foi acompanhada pela criação de vagas de trabalho com salários mais baixos. A renda média despencou em um contexto de inflação elevada.

Agora, com a recente trégua dos preços e a reação do setor formal, o indicador esboça alguma retomada. No terceiro trimestre, o rendimento real alcançou R$ 2.737 em média.

Conforme o IBGE, é a primeira vez desde junho de 2020 que a renda cresce tanto na comparação trimestral (3,7%) quanto na anual (2,5%). O rendimento estava em R$ 2.640 até junho deste ano e em R$ 2.670 até setembro do ano passado.

O mercado de trabalho foi beneficiado pela vacinação contra a Covid-19. A imunização permitiu a reabertura dos negócios e a volta da circulação de pessoas.

Pressionado às vésperas das eleições, o governo Jair Bolsonaro (PL) também buscou aquecer a economia com liberação de recursos, cortes de impostos e ampliação do Auxílio Brasil.

Bolsonaro aparece em segundo lugar nas pesquisas de intenção de voto, atrás do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O segundo turno das eleições está marcado para o próximo domingo (30).

Os dados do IBGE ainda mostram que a população fora da força de trabalho foi estimada em 64,7 milhões no terceiro trimestre. Esse grupo é formado por quem não está ocupado nem desempregado (à procura de vaga).

A população fora da força ainda é 6,1% maior do que em igual período de 2019 (julho a setembro), antes da pandemia (61 milhões). Com as restrições na crise, trabalhadores interromperam a busca por oportunidades. Isso também deixa a taxa de desemprego menos pressionada.

PERDA DE RITMO EM 2023

De acordo com economistas, a taxa de desocupação deve ficar mais próxima de 8% até dezembro. A reta final do ano costuma ser marcada pelas contratações temporárias com a demanda sazonal em setores como o comércio.

O varejo deve admitir 109,4 mil trabalhadores temporários para o Natal de 2022, conforme projeção da CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo). Seria o maior número em nove anos –desde 2013.

A retomada do mercado de trabalho, contudo, tende a perder ímpeto em 2023. Há projeções que indicam aceleração moderada da taxa de desemprego no próximo ano.

Pesa nessa avaliação mais negativa o efeito dos juros elevados sobre a atividade econômica. Também há o impacto do freio na economia global e do cenário político de incertezas no Brasil pós-eleições.

"O cenário para a taxa de desemprego em 2023 é de uma certa estabilidade. Pode ter alguma alta no ano que vem, mas nada comparado ao que ocorreu na pandemia", aponta o economista Rodolpho Tobler, do FGV Ibre (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas).

Na visão do pesquisador, um dos principais desafios é a recuperação consistente da renda. "O rendimento se aproxima do nível pré-pandemia, mas ainda é baixo."