Mercado abrirá em 2 mins

O que explica a gritaria contra a indicação de "Democracia em Vertigem" ao Oscar?

Cena do documentário indicado ao Oscar "Democracia em Vertigem", de Petra Costa. Foto: Reprodução


A indicação do filme “Democracia em Vertigem” ao Oscar 2020 de melhor documentário promete transformar em campo de batalha qualquer boteco onde um ou mais interessados se reúnem para discutir política.

Disponível na Netflix, a versão de Petra Costa da história já desperta o interesse de meio mundo que nessa época do ano corre para conferir os destaques da maior premiação do cinema.

O filme sobre o impeachment de Dilma Rousseff assume um lado. Mais que isso: um lugar, de onde a diretora entrecorta sua história pessoal com um pedaço da história do país.

Como parte de sua família, Petra foi militante do PT por anos. Como tantos, se decepcionou também com a legenda.

Seu relato é o relato de como a esperança com a eleição do primeiro operário à Presidência do Brasil tomou outros rumos que levaram até o impeachment - ou golpe.

Há formas e formas de contar a história que levou à derrocada do governo petista após 13 anos. Seus arquitetos juram que Dilma caiu por causa das pedaladas fiscais, razão da perda de confiança do Congresso que votou sua saída com a estreita observância do Supremo Tribunal Federal.

Leia mais no blog do Matheus Pichonelli

Romero Jucá, ministro do Planejamento do governo que emergiu, tem outra versão para a mesma história: tudo não passou de um grande pacto nacional, com Supremo, com tudo, para “estancar a sangria” produzida pela Lava Jato. No auge da tempestade perfeita da crise política com a crise econômica, a solução “mais fácil”, segundo ele, era colocar Michel Temer na Presidência.

O próprio Temer, vira e mexe, se refere ao processo como “golpe”.

O resto é história: Eduardo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados que abriu o impeachment, foi pego pela Lava Jato pouco depois.

Janaina Paschoal, jurista que assinou o documento e no Plenário trocou gentilezas com os articuladores do impeachment, como Aécio Neves (PSDB), entrou no mundo da política, assim como os líderes das manifestações.

E Jair Bolsonaro, deputado obscuro que o documentário fez questão de ouvir após ele dedicar seu voto pelo impeachment ao homem que torturou Dilma na ditadura, foi eleito presidente.

Há quem tenha no impeachment um filme próprio na cabeça em que os vilões se dão mal e o bem triunfa.

Meses atrás, os líderes do MBL (Movimento Brasil Livre) lançaram um documentário com sua versão da história.

Petra Costa fez a sua, assim como Maria Augusta Ramos (“O Processo”) e Douglas Duarte (“Excelentíssimos”). Sua vantagem é ter o filme ainda disponível na gigante de streaming.

Um filme não tem nem deve ter a pretensão de servir como a versão definitiva de uma história. Ainda assim, ele acaba se tornando um território de disputas, como deu para perceber nos primeiros minutos após o anúncio da indicação.

O PSDB, cujo ex-futuro-presidente foi, como previa Jucá, o primeiro a ser engolido após o impeachment, chamou o filme indicado de obra de ficção e fantasia.

Secretário da Cultura, Roberto Alvim, que meses atrás chamou Fernanda Montenegro de “sórdida”, também adotou linha parecida: “se fosse na categoria ficção, estaria correta a indicação”.

Não deve ser à toa que tanta gente no entorno do poder tenha manifestado tanto interesse em trabalhar como crítico de cinema após chegar ao topo. Damares Alves (Direitos Humanos) já mostrou seu talento ao analisar o filme “Frozen”.

Jair Bolsonaro já questionou há quanto tempo não se produz um bom filme brasileiro por aqui.

Até Sergio Moro, personagem central do doc, já usou sua conta no Twitter para cobrar mais filmes com histórias sobre os soldados que lutaram na Segunda Guerra.

Nenhum deles está feliz com a indicação de um produto nacional na festa de Hollywood.

Até a cerimônia de entrega do Oscar, o mundo (ao menos no Brasil) será fatalmente dividido entre quem considera e quem não considera o documentário uma ofensa.

Dos novos críticos do cinema nacional, ainda aguardo algum comentário com mais de 180 caracteres que explique em que momento o documentário enveredou na ficção e o que tanto temem que seja mostrado mundo afora.

Com exceção do enfrentamento diário do governo contra jornalistas, produtores culturais, ambientalistas, do flerte de pessoas-chave com um novo AI-5, o dispositivo que fechou o Congresso, perseguiu e cassou quem pensava diferente, das ameaças em tirar concessão de emissoras que não dobrem a espinha à versão oficial da história, da criação de um partido em referência a um revólver, das homenagens construídas com bala, ofensas a ex-aliados e nomeações sob o critério técnico dos que se alinham ideologicamente ao chefe, sem margem para discordâncias, inclusive o homem que prendeu seu algoz, por que um fã de cinema estrangeiro concluiria que a democracia brasileira encontra-se em estado de vertigem?