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Passagem de Weintraub pelo MEC foi constrangedora até na última cena

O agora ex-ministro da Educação Abraham Weintraub. Foto: Andre Borges/NurPhoto (via Getty Images)

Jair Bolsonaro não faria reparos na fala de Abraham Weintraub na célebre reunião de 22 de abril. Não só não faria como não fez.

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Na ocasião, o ministro da Educação manifestou o desejo de colocar “vagabundos” na cadeia, a começar pelos ministros do Supremo Tribunal Federal. Também revelou seu ódio a termos como “povos indígenas” e “povos ciganos”.

O presidente assinaria embaixo. O mestre, Olavo Carvalho, também.

Ainda assim, a fala selou o destino de Weintraub no governo Bolsonaro.

Em pouco mais de um ano no cargo, o olavete mostrou o que acontece quando se dá a um personagem de rede social alguma responsabilidade entre adultos no mundo real. Na melhor das hipóteses, nada. Na pior, um estrago.

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Weintraub conseguiu o feito de figurar como um dos alvos do inquérito das fake news aberto do STF. Ele também é protagonista dos insultos que ele e os investigados pelos atos antidemocráticos em Brasília, da qual participou no último domingo (14), chamam de “liberdade de expressão”. Os ministros da corte entenderam que ele poderia e deveria ser responsabilizado por atos e palavras. E quem passou a correr risco de ser preso foi o próprio.

De sua passagem pelo MEC, todos se lembram das pauladas na língua portuguesa desferidas nas redes sociais, do puxa-saquismo explícito ao presidente e sua família, do quase nude para justificar as notas vergonhosamente baixas de seus tempos na faculdade, da cena ridícula do guarda-chuva, das ofensas a todo mundo que o criticava em sua página, inclusive a mãe de um seguidor, e do princípio de crise diplomática após debochar da comunidade chinesa e acusar o parceiro comercial de se beneficiar da pandemia para obter vantagens geopolíticas.

Em outras palavras, Weintraub era o tio da pochete que bebe demais na festa dos sobrinhos e constrange os convidados enquanto dança ao som de “Evidências” com a gravata na testa. Só que com a caneta de ministro — um ministério estratégico, no caso.

Em seu último dia no posto, não está certo ainda o que foi mais vergonhoso, se a cena de despedida diante de um presidente constrangido após ver um auxiliar de longa data ser detido poucas horas antes, ou se a nota do ministério com os feitos de Weintraub.

“Weintraub deixa MEC com gestão limpa e amplo legado”, comunicava a assessoria da pasta, que em três parágrafos não informava um índice sequer sobre legado algum. Os redadores devem ter se esquecido dos erros na divulgação das notas no Enem — só o evento mais importante do ministério de Weintraub em 2019.

Sobre a “gestão limpa”, vale lembrar o que escreveu Elio Gaspari em sua coluna na Folha e em O Globo em 24 de maio:

“Em menos de dois anos do governo de Bolsonaro, esse fundo (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação) já teve três presidentes e vida acidentada. Com pouco mais de uma semana, em janeiro de 2019, descobriu-se que uma mão invisível havia mudado um edital, permitindo a inclusão de publicidade nos livros didáticos. A burocracia explicou-se dizendo que ‘houve um erro operacional no versionamento”. O que é isso, não se sabe. Em agosto passado o FNDE publicou um edital para a compra de 1,3 milhão de computadores, notebooks e laptops para a rede pública de ensino. Coisa de R$ 3 bilhões. A Controladoria Geral da União sentiu cheiro de queimado. E não era para menos, 355 escolas receberiam mais laptops que seu número de alunos. Uma delas, em Itabirito (MG) receberia 30.030 laptops. Como tinha 255 alunos, disso resultaria que cada um deles receberia 117 pequenos computadores”.

Já sob risco de ser preso, Weintraub quis brincar de interventor imperial com uma medida provisória que lhe conferia poderes para nomear reitores durante a pandemia (um atentado à autonomia universitária prevista na Constituição). Viu a sugestão, inconstitucional, ser devolvida ainda no pacote pelo Congresso.

No apagar das luzes de sua gestão, teve tempo para uma última maldade contra parte dos povos que ele dizia sentir ódio: revogou uma portaria do próprio MEC que incentivava a adoção de políticas de cotas para negros em programas de pós-graduação.

Nas palavras do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), era “uma pena para o Brasil ter um ministro desqualificado” como o titular da Educação.

Bolsonaro discordava, mas não resistiu à pressão — isso um dia depois de afirmar que esperava apenas as presas se aproximarem para colocar as coisas nos seus devidos lugares. A decisão mostra que Bolsonaro não tem bala nem para proteger das críticas nem para bancar um de seus ministros favoritos.

Quando o país mais precisa de foco, Bolsonaro perdeu por mérito próprio seu quarto ministro em três meses de pandemia — isso sem contar a secretária da Cultura, Regina Duarte. A pandemia nunca foi prioridade.

Aos otimistas, cabe cautela diante das chances de o presidente, em sua terceira tentativa, nomear um ministro minimamente qualificado para o posto. Abraham “Imprecionante” Weintraub conseguiu o feito de representar um retrocesso em relação ao seu antecessor, Velez-Rodriguez, uma nulidade cujo maior projeto era fazer os alunos cantarem o hino nacional antes das aulas.

Cabe esperar, ao menos, que o sucessor da dupla saiba pelo menos escrever.