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Vamos voltar a falar de rentabilidade a partir do 4º trimestre, diz Gol

Cibelle Bouças

Presidente da companhia diz que a recuperação dependerá do ritmo de relaxamento das medidas de isolamento social e da economia A Gol fez o seu planejamento operacional para o terceiro trimestre tendo como principal foco a preservação do seu caixa.

“Desde o início da pandemia a nossa gestão está sendo feita em função de caixa e liquidez. Não há foco em rentabilidade neste momento. Nosso foco é casar as entradas e saídas de recursos”, afirmou o vice-presidente financeiro da Gol, Richard Lark. O executivo acrescentou que a partir do quarto trimestre será possível voltar a falar de rentabilidade, quando a companhia espera uma demanda mais aquecida.

O presidente da Gol, Paulo Kakinoff, acrescentou que a fase mais aguda da crise do setor aéreo já passou. E, à medida que houver uma recuperação da demanda, as empresas poderiam em tese estabelecer novos preços de passagens, o que poderia proporcionar uma recuperação da rentabilidade. “Mas não é uma projeção”, reforçou o executivo.

Paulo Kakinoff, presidente da Gol: “As pessoas não estão deixando de voar por medo de contaminação, é mais reflexo da economia”

Valor

Como parte das medidas de controle da liquidez, Lark disse que a empresa rolou cerca de 10% das dívidas de capital de giro. A Gol também renegociou prazos com empresas de arrendamento. A companhia espera atingir R$ 2 bilhões em valores renegociados no trimestre.

Com essas iniciativas, a Gol espera fechar o terceiro trimestre com caixa e equivalentes de caixa de R$ 2,9 bilhões ante R$ 3,3 bilhões no segundo trimestre.

Kakinoff disse que essa projeção já inclui a amortização de uma dívida com garantia da Delta no valor de US$ 300 milhões que vence em agosto. A companhia afirmou que uma alternativa seria renegociar o prazo de vencimento, mas para isso precisaria do apoio da Delta. A Gol não quis dizer se discute o tema com a Delta.

Lark também disse que não tem planos de renegociar prazos de títulos conversíveis em ações (‘bonds’) que vencem em 2024 e 2025. O executivo disse que a companhia pagou neste mês juros semestrais relativos a essas emissões.

Questionado se a Gol pediria recuperação judicial, seguindo a tendência adotada por outras companhias áreas internacionais e pela Latam, Kakinoff foi assertivo: “Não existe essa alternativa no radar da Gol”.

Na avaliação dele, a queda na demanda de passageiros no setor aéreo em relação a 2019 está mais relacionada à paralisação da economia do que a um possível medo de contaminação por covid-19 durante os voos.

“As pessoas não estão deixando de voar por medo de contaminação, é mais reflexo da economia. Muitos hotéis estão fechados, muitas companhias ainda estão mantendo as pessoas trabalhando em casa”, afirmou o executivo.

Ele afirma que a retomada da demanda vai depender de como evoluirá a economia brasileira daqui para frente e do ritmo de relaxamento das medidas de distanciamento social nos diferentes Estados.

Pandemia

A avaliação do executivo é que os números de casos de covid-19 estejam se estabilizando no Brasil. “Acredito que estamos hoje na transição da primeira fase da pandemia para a segunda. A primeira fase dura desde o primeiro caso confirmado até uma inflexão na curva de casos. Quando a maioria dos Estados apresentar redução no número diário de novos casos, entramos em uma segunda fase, que é quando a demanda por voos volta a crescer”, disse Kakinoff.

A terceira fase seria o momento em que a pandemia está controlada e a oferta e demanda por voos no país se normalizam. Kakinoff disse que a Gol não considera em suas projeções anunciadas hoje uma segunda onda de contaminação da covid-19.

O executivo também disse que uma recuperação mais rápida da demanda por voos vai depender de como se dará a recuperação do turismo de negócios. Por enquanto, a companhia vê uma recuperação gradual, ganhando força a partir de outubro.

Kakinoff disse que, por enquanto, a demanda é principalmente de pessoas que viajam por necessidade, havendo pouca procura ainda por voos para turismo de lazer. O executivo acrescentou que tem ampliado a oferta de voos usando como critério a demanda para cada destino. Em julho, a empresa mais que dobrou a oferta de voos, para cerca de 200 decolagens diárias.

Até dezembro, a Gol espera atingir 80% da oferta de voos nacionais que operava antes da pandemia, quando sua oferta chega a 800 voos por dia. Considerando o total de voos — nacionais e internacionais — que a Gol oferecia antes da pandemia, a empresa fechará o ano com 70% da oferta.

Lark observou que a Gol suspendeu todos os voos internacionais por causa da pandemia e não tem previsão de quando retomará essas rotas.

“Quando a Gol voltar a fazer voos internacionais, parte da oferta será para Argentina e Chile e parte para os Estados Unidos”, afirmou.

O executivo acrescentou que a retomada dos voos internacionais vai depender da liberação de voos com o modelo Boeing 737 Max, que é mais econômico em relação a outros aviões da frota da Gol.

Kakinoff disse que espera uma competição racional no mercado de aviação comercial no segundo semestre. Segundo ele, a Gol mantinha uma participação no mercado aéreo doméstico próxima de 37% antes da pandemia e, no segundo trimestre do ano subiu para cerca de 40%. O aumento deve-se principalmente à redução da oferta de voos da Latam Brasil, espaço que foi ocupado pela Gol e pela Azul.

“Acredito que há oportunidade de manter participação nesse patamar. Mas essa não é nossa prioridade no momento”, afirmou Kakinoff.

Projeções

A Gol informou em comunicado ao mercado que prevê elevar a sua capacidade de voos em 300% no terceiro trimestre em relação ao segundo trimestre. Para o terceiro trimestre, a empresa terá voos para 120 destinos, o que corresponde a 75% dos destinos atendidos antes da pandemia.

A receita deve cair em torno de 73% em relação ao terceiro trimestre de 2019, atingindo R$ 1 bilhão. As despesas, por sua vez, devem diminuir em cerca de 70%, segundo a companhia. A Gol informou ainda que espera fechar o terceiro trimestre com uma dívida líquida ajustada de R$ 13,8 bilhões.

As projeções apresentadas não incluem o financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). A companhia negocia com o banco um empréstimo de R$ 2 bilhões, feito com um grupo de bancos privados. O empréstimo será feito com uma emissão de debêntures, com prazo de pagamento de cinco anos.

“É mais provável que a empresa obtenha o financiamento em setembro do que em agosto. Se for aprovado pelo conselho de administração, será incorporado às nossas projeções”, disse Lark.