Mercado fechado

Com decreto, vizinhos encrenqueiros se tornarão milícia armada

Matheus Pichonelli
·3 minuto de leitura
Brazilian President Jair Bolsonaro gestures during the Launch of the
O presidente Jair Bolsonaro, o maior incentivador da ampliação do acesso às armas no país. Foto: Evaristo Sá/AFP (via Getty Images)

Se você não está preocupado com as notícias ou você está mal informado ou está prestes a ganhar um rio de dinheiro abrindo uma lojinha de armas em algum estande do shopping da sua cidade. Aquele onde antes reinava uma paleteria.

Nos próximos dias, se o Congresso der o aval para os decretos que flexibilizam a compra e o uso de armas de fogo no país, estará fadada à extinção, além da fauna brasileira, uma frase que todo mundo já ouviu em algum momento da vida: “já pensou se estivesse armado?”

A frase geralmente vem à tona ao fim de uma discussão mais ríspida entre motoristas no trânsito ou nas confusões generalizadas na saída da balada, quando os convidados pegam a correr e as garrafas começam a voar. Numa dessas confusões um caco de vidro feriu gravemente uma amiga. “Já pensou se fosse uma bala?”.

Pois é.

Enquanto começam a faltar vacinas na rede pública, e algumas cidades do país apertam os cintos das restrições de circulação devido ao avanço das novas cepas do coronavírus, Bolsonaro aposta alto na emergência da figura do caçador e do colecionador de armas como os agentes indutores do crescimento econômico.

Não conheço muitos, mas não deve ser difícil reconhecer algum caçador, desses que carregam marfim ou ursos-polares nas costas ao fim de uma incursão nas florestas de um país onde 84% da população vive em área urbana.

Se prevalecer a vontade do presidente, uma obsessão só comparável ao desejo de fechar jornais ou transformar o país num polo produtor de nióbio e cloroquina, os brasileirinhos da paz poderão adquirir até seis armas de fogo desde que preencham alguns poucos requisitos --além da grana, claro. Duas dessas armas poderão circular com o portador.

Se antes era preciso comprovar aptidão psicológica fornecida por um profissional da Polícia Federal, agora qualquer laudo de qualquer psicólogo com registro está valendo. Vai ser como pedir atestado com aquele médico camarada para gazetear a aula ou o serviço.

Além de armas, os portadores poderão comprar até 2 mil cartuchos de armas de uso restrito por ano --com permissão do Exército, o número pode até duplicar. Se a moda pegar, dá para extinguir toda a fauna brasileira em algumas semanas.

A novidade é que projéteis de munição para armas de porte até calibre 12,7 mm não precisariam mais ser controlados pelo Exército.

Ah, a brincadeira já não será programa apenas para adultos. Jovens entre 14 e 18 anos poderão praticar tiros com alguma arma emprestada dos amigos, e não só dos pais.

Dias atrás, uma festa perto de casa precisou ser interrompida aos gritos após um bate-boca entre vizinhos.

A festa passava das 22h e um morador da casa da frente, que bebia desde as 11h, ameaçava invadir o quintal alheio e encerrar o aniversário na paulada. O pai da aniversariante prometia receber o penetra na porrada.

Depois de alguns xingamentos e empurra-empurra, a turma do deixa disso precisou correr porque o vizinho bêbado e incomodado entrou em casa correndo prometendo acabar de vez com a conversa. Voltou com a mangueira de água em riste e disse que dispararia os gotejos a esmo caso o som não fosse reduzido a um nível civilizatório.

A polícia, que a partir dos decretos ganhará concorrência e poderá ser recebida à bala ao se dirigir para resolver conflitos nas casas das melhores famílias, precisou ser acionada. Só então os brigões foram para casa.

No dia seguinte, os adultos, sóbrios, fizeram as pazes.

Já pensou se estivessem armados?