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Decisões do governo geram crise na base aliada: Confira quem permanece fiel e quem já “abandonou o barco”

Ana Paula Ramos
·6 minutos de leitura
Bolsonaro disse que está "chateado" com as críticas dos apoiadores (Photo by SERGIO LIMA/AFP via Getty Images)
Bolsonaro disse que está "chateado" com as críticas dos apoiadores (Photo by SERGIO LIMA/AFP via Getty Images)

Desde a semana passada, a insatisfação de parte dos tradicionais apoiadores do presidente Jair Bolsonaro vem crescendo. A indicação do desembargador Kassio Nunes Marques para a vaga do ministro Celso de Mello no Supremo Tribunal Federal (STF) caiu como uma bomba entre os bolsonaristas.

A visita, na noite de sábado (3), à casa do ministro Dias Toffoli, do STF, onde também estavam presentes o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), e o desembargador Kassio Marques agravou a situação.

Mas os eleitores fieis continuam na base de sustentação do governo, mesmo com ameaças e pressões nas redes sociais.

Apesar das críticas abertas, a ala ideológica garante que continua apoiando o presidente.

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O blogueiro Allan dos Santos ressaltou que “criticar sempre, abandonar jamais”.

Sobre a indicação de Kassio para o STF, disse: “Kassio Nunes NÃO. Você sabe que pode impedir essa nomeação. Isso não significa ser CONTRA @jairbolsonaro”, citando o presidente.

A base ideológica no Congresso também está descontente com o nome de Kassio Marques, entre eles os deputados Luiz Phillipe de Orleans e Bragança (PSL-SP) e Caroline de Toni (PSL-SC).

“Sinto pela nomeação do novo ministro do STF. Temos poucas chances para criar pilares importantes de mudança e arriscamos apostar em dúvidas”, lamentou Orleans e Bragança.

Uma de suas aliadas de primeira hora, a deputada federal Carla Zambelli (PSL-SP) afirmou que deu um “voto de confiança” ao presidente pela indicação de desembargador Kassio Marques para assumir a vaga de ministro do STF.

Na semana passada, Zambelli foi retirada do posto de vice-líder do governo na Câmara dos Deputados. A mudança teve como objetivo abrigar parlamentares do Centrão. Mesmo assim, ela declarou que permanece na base aliada e que, tanto ela como os outros deputados que saíram da vice-liderança, “continuamos sendo soldados do Bolsonaro”.

O presidente também havia retirado a deputada Bia Kicis (PSL-DF) da vice-liderança do governo no Congresso, após a parlamentar ter votado contra a renovação do Fundeb (Fundo de Desenvolvimento da Educação Básica), em julho. Bia Kicis é uma das principais aliadas de Bolsonaro na Câmara.

A deputada afirmou que “tinha ficado chateada” com a forma como aconteceu, já que ela soube pela imprensa que perdeu o cargo, mas que “isso foi completamente superado”.

AMEAÇAS DE DESEMBARQUE

Empresários como Winston Ling, um dos maiores defensores de Bolsonaro no setor produtivo, chegou a pregar o desembarque do governo: “Hora de desembarcar. Acabou. Um erro desta envergadura não se faz por acaso”, postou sobre a indicação do presidente ao STF.

O encontro de Bolsonaro na casa de Toffolli aumentou o tom das críticas. O movimento Vem pra Rua, que liderou manifestações pelo impeachment da ex-presidente Dilma Roussef (PT), passou a defender a saída de Bolsonaro e decretou “luto” do Brasil com o governo.

“Na campanha, Bolsonaro prometeu enfrentar o sistema. No poder, Bolsonaro negociou a indicação de Kassio Nunes com Gilmar, Toffoli e Davi Alcolumbre. Existe traição maior que essa?”, questiona o movimento em post publicado nas redes.

O Vem pra Rua começou a entoar a palavra de ordem “Fora, Bolsonaro”. “Falando sério. Precisamos pensar numa forma de acolher quem desembarca dessa canoa furada do bolsonarismo”, diz outra mensagem.

Sobre a indicação de Kassio Marques para o Supremo, o pastor Silas Malafaia postou: “O PT, toda esquerda, o Centrão, os corruptos e todos os que são contra a Lava Jato agradecem a nomeação de Bolsonaro para o STF”.

Os apoiadores evangélicos queriam alguém “terrivelmente evangélico” no lugar de Celso de Mello.

PRESIDENTE “CHATEADO”

Bolsonaro disse estar “chateado” com a insatisfação.

"Estou chateado, sim. O pessoal que me apoia virando as costas, (dizem que) não votam mais", admitiu Bolsonaro. "Essa autoridade do Rio de Janeiro queria que indicasse o dele. Fez vários vídeos, uma autoridade que diz que tem Deus no coração”, reclamou o presidente em relação ao pastor Malafaia, sem citar o nome dele.

“Vocês confiam ou não em mim?”, perguntou Bolsonaro, na semana passada, a um grupo de militantes, na entrada do Palácio da Alvorada.

O presidente defendeu também na segunda (5) seus encontro com autoridades do Legislativo e do Judiciário, criticadas por parte dos seus apoiadores. “Preciso governar. Converso com todos em Brasília”, escreveu em uma rede social.

PORTARIA

Outro motivo de insatisfação entre bolsonaristas nas últimas semanas foi uma nova portaria que estabelece procedimentos a serem adotados em casos de abortos permitidos por lei, como a gravidez advinda do estupro. O ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello retirou a obrigatoriedade de médico acionar polícia após o acolhimento de vítimas de estupro.

O blogueiro Allan dos Santos chamou o ministro de “canalha” e ameaçou romper relações com Bolsonaro.

Olavo de Carvalho, guru ideológico do bolsonarismo, também usou as redes sociais para fazer críticas e chamou Bolsonaro de “ingrato”.

INVEJA

Durante o fim de semana, a extremista de direita Sara Giromini usou as redes sociais para desabafar e reclamar da falta de apoio do governo Bolsonaro. “Que inveja eu tenho do Toffoli. Ele pelo menos ganhou um abraço do Bolsonaro”, disse Sara, em mensagem nas redes. “Não reconheço Bolsonaro. Não sei mais quem ele é. O homem que eu decidi entregar meu destino e vida para proteger um legado conservador”.

QUEM JÁ DESEMBARCOU

A saída do ex-ministro da Justiça Sergio Moro abalou a base bolsonarista e causou algumas dissidências entre aqueles que defendiam a Lava Jato e o discurso de combate à corrupção.

Em abril deste ano, Moro deixou a pasta acusando o presidente de tentar interferir na Polícia Federal. Ao se aliar ao Centrão, o governo tomou ainda medidas para “desaparelhar” órgãos de investigação.

Grupos de apoio a Moro tentaram na última semana vincular Bolsonaro ao PT e lançaram a hashtag BolsonaroPetista, pela ligação de Kassio Marques com políticos petistas do Piauí, além do Centrão.

Já o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta, desde o início da pandemia do coronavírus, começou a ser tratado como opositor pelo chamado “gabinete do ódio”.

Na lista de aliados que viraram inimigos, também está o general Carlos Albertos dos Santos Cruz, demitido da Secretaria de Governo por causa de uma rede de intrigas criada contra ele pelo guru Olavo de Carvalho e pelo filho 02 do presidente, Carlos Bolsonaro.

Além dele, Gustavo Bebianno foi dispensado da Secretaria-Geral da Presidência com menos de dois meses de governo, por influência também do vereador Carlos Bolsonaro.

No Congresso, deputados como Joice Hasselmann - que foi líder do governo no Congresso e hoje é candidata do PSL à Prefeitura de São Paulo - e Alexandre Frota (atualmente no PSDB) e o senador Major Olímpio (PSL-SP) abandonaram a base bolsonarista.

A deputada estadual Janaina Paschoal (PSL-SP), também ex-apoiadora de Jair Bolsonaro, hoje é crítica ao presidente e a seus filhos. “Bolsonaro prometeu pôr o Brasil acima de tudo, mas põe os filhos”, disparou.