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Decisão de juiz que retira 'Porta dos Fundos' do ar tem um nome: censura

Especial do Porta dos Fundos é retirado do ar (Foto: Reprodução/Netflix)

Por Thiago Ney

A sociedade brasileira é “majoritariamente cristã” e é preciso “recorrer à cautela”, “acalmar os ânimos”. Esses são os “argumentos” utilizados por um juiz para determinar que o especial ‘A Primeira Tentação de Cristo', do 'Porta dos Fundos', seja retirado do cardápio da Netflix.

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Resumindo: o juiz quer censurar o especial.

A notícia foi divulgada pelo colunista Ancelmo Gois no jornal ‘O Globo' na tarde desta quarta-feira (8).

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A decisão foi assinada pelo desembargador Benedicto Abicair, da 6ª Câmara Cível, em um pedido feito pela Associação Centro Dom Bosco de Fé e Cultura.

A conclusão do voto do desembargador: “Por todo o exposto, se me aparenta, portanto, mais adequado e benéfico, não só para a comunidade cristã, mas para a sociedade brasileira, majoritariamente cristã, até que se julgue o mérito do Agravo, recorrer-se à cautela, para acalmar ânimos, pelo que concedo a liminar na forma requerida.

‘A Primeira Tentação de Cristo' entrou no ar em dezembro de 2019. Segue a linha do 'Porta dos Fundos’ de criar especiais de final de ano que brincam com figuras religiosas.

No roteiro deste mais recente, os três reis magos e José e Maria organizam uma festa surpresa para comemorar os 30 anos de Jesus. Interpretado por Gregório Duvivier, Cristo aparece na festa com um “amigo”. É uma insinuação mais do que clara que Jesus Cristo teve a primeira relação sexual com um homem e que seria gay. Há, ainda, um Deus que quer transar com Maria para ter outro filho.

O especial tem 45 minutos de duração e é recheado de piadas mais ou menos grosseiras, algumas bem feitas, outras sem nenhuma graça.

Mas o que está em jogo não é a avaliação crítica do especial, mas a escolha de cada um de decidir se gosta ou não do especial. Muitos católicos, evangélicos e religiosos assistiram (ou disseram ter assistido ao especial) e estão desde dezembro reclamando contra a Netflix e o Porta dos Fundos. 

Circulam pela internet petições que pedem que o especial seja retirado da plataforma. O deputado Eduardo Bolsonaro chegou a dizer que o especial “ataca a fé de 86% da população brasileira”.

O episódio mais absurdo ocorreu em 24 de dezembro, quando a sede do ‘Porta dos Fundos', no Rio de Janeiro, foi atacada por um grupo que arremessou coquetéis molotov no local. Um dos acusados, Eduardo Fauzi, fugiu e está na Rússia.

A decisão do desembargador é uma deferência a essas vozes intolerantes. Para acalmá-las, como o juiz escreveu na decisão, é preciso retirar o especial do ar. Ou seja: a intolerância venceu. 

O menos triste disso tudo é que a decisão certamente será revertida em tribunal superior. Mas é mais um sintoma dos tempos atuais, em que intolerantes que se dizem guardiões dos bons costumes e da família brasileira se impõem com gritaria e truculência.