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Decisão de transformar UPPs do Alemão e Penha em batalhões não sai do papel há três anos

Carolina Heringer e Diego Amorim
·5 minuto de leitura

Evidente pelos relatos de policiais e moradores e pelos registros de confrontos e ataques às UPPs, o fracasso do projeto de pacificação dos Complexos do Alemão e Penha tornou-se oficial na Polícia Militar há três anos. Na época, uma comissão formada na corporação constatou a necessidade de transformar as sete unidades da região em dois batalhões, um em cada conjunto de favelas. Entretanto, a complexidade da situação na região fez com que o projeto nunca tenha sido implementado. No cenário atual, também não há perspectiva de mudança. O futuro incerto das UPPs nos complexos é o que o EXTRA mostra no último dia da série “Alemão, 10 anos depois”.

A comissão constatou, no fim de 2017, que o conceito de policia de proximidade no Alemão e Penha havia se perdido. O tráfico havia se fortalecido e retomado boa parte do território. A solução sugerida foi abandonar a ideia de proximidade da população e manter apenas a ocupação territorial.

As medidas sugeridas pela comissão não foram colocadas em prática logo que elaboradas e acabaram levadas à discussão já durante a intervenção federal na Segurança Pública, no início de 2018. As propostas sugeridas começaram a ser executadas logo em seguida, sendo as duas primeiras a transformação das UPPs Vila Kennedy e Batan em companhias destacadas. Na ocasião, não houve consenso sobre a sugestão de transformar o Alemão e Penha em batalhões. Pela complexidade, optou-se por adiar a decisão.

Atual secretário da PM, o coronel Rogério Figueredo conhece de perto a situação das UPPs. Ele estava à frente da Coordenadoria de Polícia Pacificadora (CPP) durante a intervenção e participou das discussões sobre as mudanças sugeridas pela comissão. Logo que assumiu o cargo de secretário, o coronel se colocou a favor da manutenção das UPPs.

O governador em exercício, Cláudio Castro, vem sinalizando que pretende retomar a ocupação de favelas do Rio. No entanto, fontes do governo e da polícia afirmam que ainda não há nenhum projeto definido. Castro encomendou estudos às polícias Civil e Militar para serem entregues no início de 2021. Uma das possibilidades aventadas pelo governador é de fortalecer projetos sociais no Alemão. A aposta no governo, entretanto, é de que Castro não faça grandes intervenções, já que lhe restam pouco mais de dois anos no cargo.

PMs que trabalham ou trabalharam nas UPPs da região são uníssonos e defendem a permanência das UPPs nas favelas.

— Ainda que não seja o ideal, pelo menos o Estado está presente. E, estando ali dentro, fica muito mais fácil fazer uma operação ou até pensar em uma reocupação. Se sairmos, para voltar será necessária outra megaoperação — diz um deles.

Uma moradora do Alemão, de 38 anos, fala do futuro com poucas esperanças:

— Eu coloco minha cabeça no travesseiro com medo de perder meus dois filhos para o tráfico. E mãe nenhuma deveria passar por isso. Me desanima pensar no nosso futuro, sabia? Não acredito mais na paz prometida, pelo menos não aqui dentro. Vejo a descrença como reflexo desses últimos anos. Não imaginei, lá em 2010, que hoje eu teria de conviver com a violência dos fuzis aqui na minha porta.

Para a diretora de programas do Instituto Igarapé, Melina Risso, apenas a presença policial não é suficiente para mudar o atual cenário de desesperança e frustração de moradores dentro dos complexos.

— A crise fiscal e a ausência de uma proposta clara a curto, médio e longo prazo para a segurança pública fizeram com que a violência voltasse a crescer e o quadro se deteriorasse — pondera.

Ela afirma que segurança não se faz só com polícia:

— Não há solução mágica, mas os caminhos são conhecidos e passam, primeiro, pela mudança da lógica da política de segurança. As pessoas precisam estar no centro da política, com planejamento, coordenação e integração. O eixo social das UPP nunca chegou com o volume necessário.

Sem respostas

Na última quinta-feira, foram encaminhadas perguntas à assessoria de imprensa da Polícia Militar sobre a situação das UPPs da Penha e Alemão. Nenhuma delas foi respondida. Ontem, alguns questionamentos foram refeitos, mas não houve manifestações.

Teleférico

A Secretaria estadual de Transportes informou que o projeto de recuperação das estações de energia do teleférico, elaborado em conjunto com a Empresa de Obras Públicas do Estado (Emop), já está pronto. O próximo passo, segundo a pasta, será licitar e contratar as obras. A secretaria não informou os custos da recuperação ou a data de retomada do serviço. Hoje, as estações têm sido utilizadas como alojamento por policiais.

Novo cinema

O CineCarioca Nova Brasília deverá ser reaberto em 2021. Após o fim do contrato com o último exibidor, em 2019, e as obras de melhoria, o edital de contratação da nova empresa foi publicado no mês passado. Segundo a RioFilme e a Secretaria municipal de Cultura, o vencedor deverá estar definido até o fim deste ano.

Paes

Candidato à Prefeitura do Rio, Eduardo Paes (DEM) destacou que projeta a retomada do programa Favela-Bairro, com obras de saneamento para melhorar o abastecimento de água e a coleta de esgoto. Também prometeu reformar unidades de saúde e escolas, ampliar vagas nas creches, qualificar jovens para o mercado e trabalho e estimular a inserção de crianças no esporte. Paes afirmou ainda que vai trazer de voltar os programas Guardiões dos Rios, Agente Comunitário de Saúde e Garis Comunitários para geração de empregos.

Crivella

Também procurado no último dia 18, Marcelo Crivella (Republicanos), prefeito e candidato à reeleição, não respondeu sobre as propostas para a região. A assessoria voltou a ser questionada ontem, mas não enviou os projetos.