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Estratégia para se humanizar? Vaza Jato mostra que Lula está condenado também a não ser gente

Matheus Pichonelli
Acusação usa Power Point para provar culpa do ex-presidente Lula. Reprodução
Acusação usa Power Point para provar culpa do ex-presidente Lula. Reprodução

Os integrantes da força-tarefa da Lava Jato, em Curitiba (PR), devem ter seus motivos para acreditar que o ex-presidente Lula tenha tido um julgamento justo no caso do tríplex.

Podem acreditar que acelerar os ritos legais para que ele fosse encarcerado antes da eleição tenha contido um mal maior.

Que nunca antes na história do país tantos males foram impetrados contra uma nação até então pura, hoje corrompida, pelo cajado de seu investigado.

Com provas ou não, seus procuradores podem ter as convicções que quiserem a respeito das responsabilidades do ex-mandatário durante seu governo no rombo à Petrobras e aos cofres públicos.

Podem tentar demostrar, em Power Point, que todos os males se convertem em um único nome, com quatro letras.

Leia mais no blog do Matheus Pichonelli

Podem quase tudo, inclusive escolher quem é ou não digno de pena no sistema carcerário brasileiro.

Só não podem, ou ao menos não deveriam, duvidar de que em uma cela da Polícia Federal em Curitiba tenha uma pessoa. Isso não tem (só) a ver com empatia, afinidade política, flexibilização afetiva diante dos ossos do ofício de quem está lá para acusar. Trata-se de reconhecer a condição humana como um fato, e não como um slide a ser apresentado ao público.

Essa condição empresta ao sujeito algumas noções básicas de...humanidade. Vale para o ex-presidente, vale para seus antecessores, vale para qualquer um que o tenha sucedido.

Vale para mim, vale para você: enquanto o mundo não for gerido por máquinas, a humanidade de quem quer que seja é algo inerente à condição de quem respira e, nesta condição, agir, sentir, pensar, construir uma história, vínculos, valores, memórias, conflitos, dores, limitações, contradições, medos e alegrias.

“O diabo não há! É o que eu digo, se for… Existe é homem humano”, ensinava Guimarães Rosa.

Quando perdeu o neto de sete anos, em março, Lula pediu para ir ao enterro. O pedido, segundo reportagem do portal UOL a partir de mensagens de um chat privado obtido pelo The Intercept Brasil com uma fonte anônima, rendeu intensos debates no grupo de procuradores do Paraná.

Eles não discutiram apenas a logística do transporte e a dificuldade em evitar a comoção com a presenta do ex-presidente no local.

Como haviam feito, segundo a mesma reportagem, após a morte da ex-primeira-dama Marisa Letícia, eles fizeram troça e lançaram dúvidas não apenas sobre o direito de uma pessoa detida acompanhar o enterro de um familiar, mas sobre um drama pessoal.

De uma pessoa não se espera outra reação se não o choro diante da perda de um neto, mas para o procurador Roberson Pozzobon tudo não passava de “estratégia para se 'humanizar', como se isso fosse possível no caso dele rsrs".

A fala mostra que o procurador não se limitava a definir quem poderia ou não circular em liberdade pelas ruas; ele ousou definir quem tem direito ou não ao luto, ao pranto e outras reações que não se aplicam a máquinas, mas a humanos, goste-se deles ou não. Em outras palavras: eles discutiram no grupo quem tinha ou não direito a ser gente.

Quando da morte da companheira do ex-presidente, a procuradora Laura Tessler – de quem Sergio Moro desconfiava da capacidade profissional e orientou/determinou que não participasse dos interrogatórios da acusação – alertou aos colegas que tivessem paciência com a “sessão de vitimização” e o mimimi durante as audiências com o investigado.

Sobre a solicitação feita por Lula para comparecer ao enterro do irmão, Vavá, em janeiro, ela comemorou o fato de o noticiário estar focado no desastre da barragem de Brumadinho, em Minas Gerais, e não no “mimimi” de quem pedia para se despedir de um familiar.

“O safado só queria passear”, julgou o procurador Januário Paludo.

Orlando Martello, ao comentar a dificuldade da logística, chegou a lamentar os perigos na decisão de quem insistia “em fazer cumprir a lei”, como se ela valesse para uns e não para outros.

Justiça seja feita, coube a Carlos Fernando dos Santos Lima lembrar aos colegas que “ninguém ganha falando contra quem morre ou contra a família”.

Na troca de mensagens, Deltan Dallagnol, o procurador que selecionava os alvos da investigação e queria montar uma empresa em nome de laranjas para lucrar com palestras sobre a operação, aparentemente se esqueceu dos ensinamentos do livro sagrado que carrega em suas apresentações ao demonstrar desprezo pela fala do ex-presidente durante o enterro da companheira.

Tomando fôlego para ler a troca de mensagens, me pergunto desde quando chorar a morte de familiares é “vitimização”. Ou desde quando gostar ou não gostar desta ou daquela figura política, e acreditar em seu envolvimento nesta ou naquela ação, dá o direito de determinar se ela pode ou não ter direito a agir como gente diante da perda.

Afinal, que diabos seria “estratégia de humanização” para quem acabou de perder um neto? Por acaso o suspeito, acusado, julgado, condenado e condenado é um robô? Ou uma barata, que só projeta em humanos o sentido da eliminação?

Até aqui as mensagens da Lava Jato lançavam dúvidas sobre a lisura dos processos, os abusos e sobreposições dos papeis de juiz e acusação; a partir de agora elas levantam dúvidas sobre o caráter de seus agentes.

Pela troca de mensagens, nota-se que faltou, sobretudo, grandeza para quem tinha planos tão ambiciosos de mudar o Brasil para melhor.

Se essa é a noção de justiça que pauta os responsáveis pela vigilância das leis do país estamos todos, acusadores e acusados, condenados em um âmbito maior; estamos condenamos como humanidade.

Em tempo: em tempos de partidarização exacerbada e humanidade em frangalhos, reitero tudo o que escrevi acima se, em vez de Lula, o centro dessa história fosse qualquer personagem do atual governo, e dos anteriores, concorde ou não com suas ideias e postura. O contexto atual nos leva diariamente a atualizar uma velha sentença: "Posso não concordar com o que você diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-lo”. O Brasil de 2019 exige que se troque o “direito de dizê-lo” por “direito a existir”.