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Debates sobre negritude em novembro crescem 158% nas redes sociais e relatos pontuais de racismo predominam durante o ano

·6 min de leitura

RIO — Menções nas redes sociais à termos como racismo, movimento negro e igualdade racial cresceram 158% em novembro deste ano, quando comparadas à média dos outros dez meses. Sem incluir dados de fevereiro, momento em que os debates sobre raça foram impulsionados pelo programa Big Brother Brasil, a diferença sobe para 239%. O levantamento exclusivo realizado pelo sistema analítico Quaest, a pedido do GLOBO, aponta que pautas com recorte de raça se destacam na internet majoritariamente em casos que geram comoção nacional ou mundial, e em datas comemorativas, como o Dia da Consciência Negra.

De acordo com a análise feita até esta terça-feira, novembro teve cerca de 238 mil menções a hashtags e termos relacionados a questões de raça, o que já representa o maior volume de 2021. Ao todo, mais de 135 mil usuários compartilharam algo sobre o tema em redes sociais. A tendência é que o engajamento cresça ao longo da semana.

O segundo pico de menções aconteceu em fevereiro, quando foram registradas mais de 220 mil referências, impulsionadas pelo reality show Big Brother Brasil. As principais postagens foram sobre a participante Lumena, que causou polêmica por suas falas autoritárias e por “militar errado”, de acordo com internautas. O programa ainda fomentou discussões sobre racismo recreativo, liberdade capilar e estereótipos preconceituosos relacionados às mulheres negras, baseadas em acontecimentos envolvendo o professor João Luiz, a influenciadora digital Camilla de Lucas e a rapper Karol Conká.

A média anual de interações sobre as temáticas, sem contar o segundo e o penúltimo mês do ano, é de 70 mil menções apenas.

Já em 2020, o mês em que mais se falou sobre racismo nas redes foi junho, devido ao assassinado de George Floyd por um policial branco nos Estados Unidos, que mobilizou movimentos sociais em todo o mundo. No Brasil, a repercussão do caso lembrou também as vítimas de violência policial no país, como o adolescente João Pedro Mattos Pinto, de 14 anos, morto durante uma operação policial no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, no Rio de Janeiro. Neste período, foram registradas mais de 407 mil publicações sobre o assunto, feitas por aproximadamente 235 mil perfis diferentes.

No “novembro negro” do ano passado, menções à termos sobre raça aumentaram 192%, em relação à média dos outros meses. Excluindo dados de junho, a diferença sobe para 262%. Nos demais meses, a mobilização em torno de pautas sobre negritude não ultrapassou a marca de 111 mil referências. E, de novembro para dezembro, o debate despencou 76,5%.

Esse monitoramento coletou menções do Twitter, Facebook e Instagram, a partir de buscas por termos e hashtags como “consciência negra”, “resistência”, “empoderamento” e “racismo”. Os dados foram coletados via API própria da Quaest.

Para o consultor de comunicação André Mendes, os picos de debates acerca de um determinado assunto são gerados com frequência na internet, especialmente em comemorações como o Dia da Mulher, em março, e no Outubro Rosa, mês de conscientização contra o câncer de mama. Contudo, ele avalia que devido à história de discriminação de pessoas negras no Brasil, pautas raciais necessitam de um debate contínuo e intenso, visto que o racismo prejudica todos os dias o acesso a direitos básicos do grupo.

— Existe um pico no volume de pautas durante o mês de novembro, pois além dos criadores de conteúdo negros, outras pessoas passam a apoiar a nossa causa, além dos eventos, fóruns e exposições acontecendo e gerando mais publicações. Entendo que o momento é uma oportunidade que precisamos aproveitar para ecoar nossas necessidades e fazer com que mais pessoas ouçam, mas nossa lista de necessidades é extensa e as demandas da vida real são maiores do que as que estão na vida virtual — aponta.

Racismo é o termo mais mencionado nas redes

Ao contrário de 2020, este ano o termo “Movimento Negro” ganhou destaque em fevereiro e setembro, com registro de mais de 75 mil menções. Contudo, assuntos sobre racismo são predominam nos outros meses, perpetuando o debate pontual de casos de discriminação no país.

Menções à “Consciência Negra” só explodiram em novembro, com quase 125 mil registros, por conta da celebração em homenagem à Zumbi dos Palmares — um dos principais representantes da resistência negra à escravidão na época do Brasil Colonial. Nos outros períodos do ano, o termo não chegou nem a 10 mil publicações.

Em 11 meses do ano passado, excluindo novembro, o termo “racismo” foi o mais mencionado nas redes sociais. O pico aconteceu em junho, quando a palavra atingiu a marca de mais de 200 mil referências, ao lado da hashtag #BlackLivesMatter e #VidasNegrasImportam, em português. Durante o ano, menções ao “Movimento Negro” também se sobressaíram, mas não ultrapassou a média de 100 mil posts.

Na análise da historiadora Ana Flávia Magalhães Pinto, integrante da Rede de Historiadores Negros, é problemático expor nas redes sociais apenas o sofrimento de pessoas negras vítimas de racismo. Segundo ela, apesar de ser importante debater e denunciar os casos, ao repercutir apenas esse assunto cria-se uma fixação da tragédia sobre esse público, e se esquece de celebrar suas conquistas e culturas.

— A sociedade aprendeu a ver as pessoas negras na condição do sujeito cuja humanidade é incompleta. Então, falar de pessoas negras é falar da tragédia. Isso faz com que, diante desse esforço duplo do antirracismo, que tem sido denunciar o preconceito e exaltar as experiências positivas, a parte da vitória seja apagada — explica a historiadora, que complementa. — Não se trata de não falar das violencias, porque estamos diante de dados que apontam o genocidio das pessoas negras, mas de não reposicionar a vida de homens e mulheres negros como sujeitos indispensáveis pra propria existencia dessa sociedade.

Fenômeno se repete na imprensa

Uma pesquisa acadêmica divulgada este ano mostra que a imprensa também tem a tendência de pautar questões raciais majoritariamente em novembro, fenômeno conhecido como "novembrismo". Ao mapear o termo “racismo estrutural” constatou-se que a maior parte das reportagens falam do tema somente quando casos de discriminação flagrante tornam-se públicos, o que gera uma carência nas discussões relacionadas à vida social, como ecomonima e questões ambientais.

O levantamento foi feito com conteúdos publicados na internet entre 2010 e 2020. No primeiro ano da análise, apenas uma matéria sobre racismo foi encontrada. O jornalismo começa a dar destaque para o assunto em 2017, atingindo seu ápice no ano passado, quando cerca de 319 matérias foram divulgadas.

A análise foi feita pela cientista social Tainá Medeiros, a partir da coleta de 898 matérias de 193 veículos, pela plataforma Google Notícias. De acordo com ela, o resultado da pesquisa aponta um avanço importante na inclusão de pessoas negras no noticiário, mas ainda é preciso reflexão acerca de como elas são retratadas na mídia.

— Esse notável crescimento do número de matérias sobre o tema pode ser lido sim como um avanço, mas falta da própria mídia reflexão sobre seu papel na estrutura social e na reprodução do racismo. É fundamental pois o jornalismo tem poder de influência na compreensão que as pessoas constroem sobre os mais diversos temas — afirma.

Em complemento, a historiadora Ana Flávia defende que as redes sociais e a imprensa têm um grande potencial antirracista, mas que depende de mobilização ampla e contínua.

— Sempre que a sociedade é desafiada a se mexer e alterar o seu ponto de vista, alguma transformação acontece. Mas o que falta é uma capacidade de manter intenso o debate. Precisamos desenvolver análises que permitam conectar todos os acontecimentos cotidianos — concui.

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