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Debate CNN entre Covas e Boulos tem 1º round 'quente' e fim moderado

João Conrado Kneipp
·7 minuto de leitura
Debate CNN: mais propositivo, disputa entre Covas e Boulos teve 1º round quente e final em bom nível. (Foto: Reprodução/Youtube/CNN Brasil)
Debate CNN: mais propositivo, disputa entre Covas e Boulos teve 1º round quente e final em bom nível. (Foto: Reprodução/Youtube/CNN Brasil)

O primeiro debate do 2º turno em São Paulo entre os candidatos Bruno Covas (PSDB) e Guilherme Boulos (PSOL), realizado pela emissora CNN Brasil na noite desta segunda-feira (16), chamou a atenção por destoar do tom agressivo adotado nos anteriores, que reunia os demais aspirantes à prefeitura.

Diferentemente dos ataques pessoais que dominavam os embates até agora, Covas e Boulos optaram por oferecer aos eleitores suas propostas e suas visões de como podem governar São Paulo a partir de janeiro de 2021.

Mas a “mudança de chave” demorou a acontecer. O primeiro bloco, no qual os candidatos respondiam aos temas propostos pela âncora Monalisa Perrone, foi marcado pelos resquícios dos hábitos das investidas contra os rivais.

O “primeiro round” entre Covas e Boulos foi quente, com troca de acusações passivas-agressivas e alfinetadas. O ataque inicial veio do candidato do PSOL e logo na primeira pergunta.

GESTÃO DA PANDEMIA DA COVID-19

Questionados sobre a condução frente à pandemia da Covid-19 e sobre a possibilidade de lockdown caso sejam eleitos, Boulos foi para o confronto e lamentou a forma como o governo de Covas enfrentou a Covid-19.

Boulos disse que a prefeitura “falhou”, que a gestão “virou as costas para a periferia”, apontou que São Paulo é a 3ª cidade com mais mortos pelo novo coronavírus no mundo e criticou Covas por não utilizar estruturas já construídas de hospitais ao invés de levantar os quatro de campanha.

O contra-ataque do prefeito veio no flanco dito mais frágil de Boulos: a falta de experiência. “É muito fácil agora ser engenheiro de obra pronta. O difícil foi enfrentar o desafio de estar à frente da prefeitura nesse momento”, disse ele.

Confira na íntegra:

O mandatário destacou que São Paulo não teve cenas de pessoas mortas nas ruas ou que os médicos não tiveram de fazer “escolhas de Sofia” na necessidade de salvar algum paciente. Covas ainda tentou jogar Boulos contra os profissionais de saúde dizendo que as críticas seriam direcionadas a eles e tornou a pintar o candidato do PSOL como “radical”.

“O radicalismo sabe criticar, mas não sabe salvar vidas. Basta conhecer o mínimo de uma obra pública, de como funciona a Lei de Licitações para saber que não se termina obra em 15 dias”.

CABOS ELEITORAIS RUINS E ‘CHEFE’ DO MTST

O segundo tema do primeiro bloco, do apadrinhamento político das campanhas — Covas por João Doria e Boulos pelo ex-presidente Lula — colocou o atual prefeito nas cordas do ringue.

O tucano tentou se esquivar da rejeição a Doria dizendo que a eleição é para prefeito de São Paulo e não “de qual padrinho importa mais”, mas viu de Boulos uma insistência, que disse que Covas não poderia “fugir da origem política”.

Na tréplica, Covas tornou a ignorar a adesão ao governador, mas relembrou dos resultados da eleição de 2018 e disse ser normal “quem perdeu em 2018 sinta rancor”.

Ele ainda usou a ligação de Boulos com os movimentos sociais de luta por moradia para provocar seu adversário ao dizer que o “chefe dos movimentos” está “acostumado a mandar”.

“Ser prefeito é mais do que isso. É ouvir as pessoas, discutir com o parlamento municipal”, disse Covas. “Vejam a diferença que faz se ter experiência ou não”, destacou o tucano, por mais de uma vez durante suas falas.

2º BLOCO MORNO DE ATAQUES E COM MAIS PROPOSTAS

Do meio do segundo bloco em diante o clima tornou-se morno, com os ataques pessoais deixados de lado e dando lugar às propostas. Os candidatos apresentaram seus projetos para os temas de lixos e resíduos sólidos, moradores em situação de rua, Cracolândia e PPPs (Parcerias Público-Privadas).

Debate CNN:
Debate CNN:

O último movimento mais incisivo partiu de Boulos e justamente no tema em que se sente mais à vontade: habitação. Em sua última fala, o candidato do PSOL disparou contra Covas ao dizer que ele e Doria tinham “quase uma tara pelo mercado”.

“Sabe porque você insiste nisso de que o mercado vai resolver tudo, o mercado é o salvador de tudo. Você e o Doria tem quase uma tara”, afirmou Boulos. “Vocês não conhecem a vida das pessoas, não conhecem a realidade delas. De quem tem de escolher entre pagar o aluguel ou colocar comida na mesa (...). Eu conheço essas pessoas não por estatística, mas sim por nome e convivo com elas há 20 anos”, completou o candidato do PSOL.

Antes, Covas havia destacado que sua proposta seria estimular e fortalecer o implemento de habitação de interesse social juntamente com as PPPs (Parcerias Público Privadas), modelo de contratação em que serviços públicos são prestados em parceria com a iniciativa privada.

Apesar da tensão inicial e final, os dois fizeram questão de destacar o alto nível do debate tanto em suas considerações finais quanto nas entrevistas concedidas ao fim do embate.

COMO FOI DECIDIDO O 2º TURNO EM SÃO PAULO

A disputa entre Covas e Boulos no 2º turno das eleições municipais de São Paulo foi consolidada no domingo (15). A votação do 2º turno, o mais curto da história devido à pandemia do novo coronavírus, acontecerá no dia 29 de novembro e em 18 capitais.

O atual prefeito e candidato à reeleição ficou em primeiro lugar, com 32,85% dos votos válidos (1.747.938 votos), enquanto Boulos obteve 20,24% (1.0077.168 votos válidos). Covas ficou em primeiro lugar em todas as 58 zonas eleitorais da cidade. Especificamente na Zona Sul, o tucano obteve a vitória mais ampla e, ao mesmo tempo, conquista mais estreita em relação a Boulos.

Enquanto as urnas eram apuradas, ainda na noite de domingo, Covas e Boulos discursaram em comemoração aos respectivos desempenhos em primeiro turno.

A tônica adotada pelo tucano foi pintar Boulos como “radical”, enquanto tenta se colocar como um candidato mais moderado. “Nosso lado é o lado da tolerância”, “é o lado do respeito à lei e à ordem”, “São Paulo quer eleger um prefeito, São Paulo não quer eleger alguém que seja anti, totalitarista e radical” foram algumas falas feitas por Covas, sempre sem citar nominalmente Boulos.

O candidato do PSOL se pronunciou minutos depois e comparou as alegações de Covas ao bolsonarismo ao tentar acusá-lo de ser radical.

“Esse discurso de me chamar de extremista, de radical, é o discurso do bolsonarismo. É o discurso do ódio. O Bruno Covas aderir a isso por conveniência eleitoral só o diminui”, afirmou Boulos, que tem como mote de campanha “a esperança vai vencer o ódio”.

QUEM APOIA QUEM NO 2º TURNO EM SÃO PAULO

Nesta segunda-feira (16), Boulos já recebeu o apoio do Partido dos Trabalhadores. O candidato do PT, Jilmar Tatto, que teve 8% dos votos, anunciou que ligou para Boulos e mostrou apoio. O ex-prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, usou as redes sociais para parabenizar Boulos. Antes mesmo do resultado, o ex-presidente Lula já havia sinalizado que o PT apoiaria o candidato do PSOL em um eventual segundo turno.

Ao mesmo tempo, o apoio do PT a Boulos é visto pelo PSDB como uma arma para Covas tentar assegurar sua reeleição. Na avaliação dos líderes tucanos, o candidato do PSOL corre o risco de ser tachado de "marionete do Lula".

Já o governador João Doria (PSDB), padrinho político de Covas nessa disputa, disse ter convicção no bom desempenho do colega tucano e, ao ser perguntado sobre Boulos, disparou: “Somos bem diferentes. Felizmente. Nós não invadimos propriedades. Nós protegemos propriedades”.

As duas campanhas também contam com apoios financeiros distintos: se de um lado Covas conta com o apoio de empresários, do outro, Boulos tem financiamento coletivo e é apadrinhado pela classe artística como o cantor Caetano Veloso.