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De onde veio o novo Coronavírus?

Passageiros usando máscaras nas Filipinas como medida de monitoramento e checagens no embarque e desembarque por conta do Coronavírus. (Foto: AP Photo/Aaron Favila)

por Alexandra Thompson, do Yahoo UK

Um misterioso surto de Coronavírus, oriundo da China, está provocando pânico global, com 17 mortes confirmadas até agora. Inédita há pouco mais de um mês, a nova cepa do vírus já atingiu mais de 500 pessoas, tanto na China quanto fora dela, chegando aos Estados Unidos no início desta semana.

Especialistas temem que o número de pacientes chegue a 9,7 mil na cidade de Wuhan, capital da província de Hubei, onde tudo começou. A cepa do vírus provoca sintomas semelhantes aos da gripe, incluindo falta de ar e febre. Nos casos mais graves, as vítimas morrem de pneumonia.

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A maioria das pessoas “enfrenta” um Coronavírus em sua forma leve em algum momento da vida, quando, por exemplo, é acometida por um resfriado comum, já que os vírus das duas doenças são patógenos.

No entanto, o Coronavírus também pode desencadear epidemias com altos índices de mortalidade, como o surto de SARS (Síndrome Respiratória Aguda Grave) que matou 774 pessoas em dezenas de países no início dos anos 2000.

Mas de onde veio o novo Coronavírus?

A cepa do novo Coronavírus - batizado como 2019-nCoV - provavelmente se originou em um mercado de frutos do mar em Wuhan. O mercado também comercializa uma variedade de carnes processadas e vivas, incluindo burros, aves, camelos, raposas, texugos, ouriços e ratos.

A maioria dos que apresentaram os primeiros sintomas da doença trabalhava ou visitava o mercado.

“[2019-nCoV é] um vírus de RNA, que sofre mutação o tempo todo”, afirma o professor Neil Ferguson, do Imperial College de Londres. Em termos simples, o RNA é uma forma "precursora" e anterior ao DNA. Os vírus em constante evolução - como o Coronavírus - podem desenvolver a capacidade de infectar novas espécies mais facilmente.

Foi o que ocorreu com a gripe aviária, que “surge naturalmente entre aves aquáticas selvagens e pode infectar aves domésticas e outras espécies de aves e animais", segundo o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC).

Cientistas da Universidade de Pequim localizaram amostras do 2019-nCoV em cobras e compararam o DNA do vírus ao de outros patógenos de vários lugares e presentes em outras espécies. Os resultados sugerem 2019-nCoV é uma “combinação de um coronavírus encontrado em morcegos e outro coronavírus de origem desconhecida”.

Há a possibilidade de que o vírus contenha uma mistura de proteínas que se conectam aos receptores nas células, permitindo que ele entre e desencadeie a doença.

A equipe de pesquisadores descobriu que as cobras provavelmente são o “hospedeiro intermediário” entre morcegos e humanos, com a mistura de proteínas facilitando o “salto” da espécie. As cobras costumam caçar morcegos na natureza e foram vendidas no mercado de Wuhan, segundo o The Conversation.

Não está claro como o vírus pode sobreviver tanto em espécies de sangue frio quanto de quente.

No entanto, nem todos os especialistas estão convencidos dessa explicação. “Ainda não se sabe com certeza e pode nunca ser provado definitivamente”, disse o professor Paul Hunter, da Universidade de East Anglia.

“Existem relatos iniciais de que o vírus já foi detectado em morcegos e cobras, e as cepas de morcegos e cobras são semelhantes entre si e com as de casos humanos. Ainda há muito a descobrir sobre o vírus e existe uma possibilidade real de que a origem exata não seja encontrada. A grande questão não é mais de onde veio, mas como e onde está se espalhando nas populações humanas”, afirma Hunter.

Fotografia tirada em janeiro de 2020 de uma barraca comercializando carne bovina no mercado de Wuhan. (Foto: Nicolas Asfouri/AFP/Getty Images)

Assim como SARS, a MERS (Síndrome Respiratória do Oriente Médio) é outra cepa de Coronavírus. Cientistas acreditam que ambas tenham se originado em morcegos e transmitidas aos seres humanos. O Civeta Mascarado de Palma, um mamífero nativo do subcontinente indiano e do sudeste da Ásia, era um dos hospedeiros intermediários da SARS entre morcegos e humanos. Já camelos foram os “anfitriões intermediários” da MERS.

A falta de diversidade genética em amostras virais de diferentes pacientes sugere que o 2019-nCoV passou de animais para seres humanos no mês passado. O mercado de Wuhan, fechado no início do ano, "realizou transações ilegais de animais selvagens" e comercializava algo próximo de 112 espécies, informou a BBC.

O Dr. Ben Cowling, da Universidade de Hong Kong, afirma que rastrear outros casos no mercado pode ajudar a identificar o animal por trás do surto. Recipientes e gaiolas usados no transporte também podem ser testados para localizar o DNA do vírus, acrescentou.

No entanto, a desinfecção da área dificulta o rastreamento do vírus, informou o The Conversation. “Não conhecemos a fonte animal”, disse o professor Ferguson. “Os mercados de animais vivos são um risco, enquanto compramos carne embalada no supermercado”.

O que há de novo no Coronavírus?

Como outras cepas de Coronavírus, o 2019-nCoV geralmente começa com sintomas semelhantes aos da gripe, incluindo febre, tosse, falta de ar e dificuldades respiratórias. Sabe-se que seis Coronavírus infectam pessoas, com 2019-nCoV sendo o sétimo descoberto.

Em casos raros, o Coronavírus pode levar a infecções do trato respiratório inferior, como pneumonia ou bronquite. As mazelas tendem a ocorrer em bebês, idosos ou pessoas com sistema imunológico fraco.

As mortes em decorrência do 2019-nCoV estão ocorrendo como resultado de uma pneumonia. Isso ocorre quando uma infecção respiratória faz com que os alvéolos nos pulmões fiquem inflamados e cheios de líquido ou pus, de acordo com a American Lung Association.

Os pulmões então se esforçam para aspirar o ar e enviam uma quantidade cada vez menor de oxigênio na corrente sanguínea.

“Sem tratamento, o fim é inevitável”, relatou a instituição de caridade Medecins San Frontiers. “As mortes ocorrem por causa de asfixia."

A Comissão Nacional de Saúde da China confirmou na segunda-feira que pode ser transmitida de pessoa para pessoa, como outros Coronavírus, e facilmente espalhado através da tosse, espirro, aperto de mãos ou toque em um objeto contaminado.

O vírus entra no corpo se as mãos contaminadas tocarem nos olhos, nariz ou boca. Em casos raros, a contaminação por fezes pode ser responsável.

Não há tratamento específico para os Coronavírus, de acordo com o CDC. Se a infecção desencadeia pneumonia, os médicos trabalham para combater a complicação. Quando um vírus é o culpado - como o 2019-nCoV - a pneumonia deve ser tratada através de medicamentos antivirais, de acordo com a American Lung Association.

As autoridades de saúde dos Estados Unidos estão trabalhando em uma vacina contra 2019-nCoV, no entanto, provavelmente levará meses antes que a primeira etapa dos ensaios esteja em andamento e mais de um ano antes de estar disponível ao público, informou a CNN.

Por enquanto, a OMS (Organização Mundial da Saúde) aconselha as pessoas a evitar o contato “desprotegido” com animais vivos, cozinhar completamente a carne e os ovos e ficar longe daqueles com sintomas de gripe.