Mercado fechado

De olho em 2022, Lula tenta liderar oposição ao governo Bolsonaro e testa influência nas municipais

Ana Paula Ramos
·5 minutos de leitura
Ex-presidente Lula (Photo by SERGIO LIMA/AFP via Getty Images)
Ex-presidente Lula (Photo by SERGIO LIMA/AFP via Getty Images)

O PT apresentou nesta semana o Plano de Reconstrução e Transformação do País e deixou claro que pretende ocupar o papel de protagonista na oposição ao governo do presidente Jair Bolsonaro.

Além disso, indica que não desistiu de voltar ao Palácio do Planalto.

Mas o que chama a atenção é que essas articulações continuam em torno do nome do ex-presidente Lula. Apesar de garantir que está aberto a apoiar qualquer candidato que possa derrotar Bolsonaro nas eleições de 2022, o petista ainda alimenta esperanças de ser o candidato do PT à Presidência da República, assim como alguns de seus correligionários.

Leia também:

CABO ELEITORAL

Uma notícia considerada boa pelo PT foi a pesquisa Ibope divulgada nesta semana que mostrou que o apoio de Lula a um candidato a prefeito de São Paulo garante mais votos do que o apoio de Bolsonaro.

Pela sondagem, o candidato do PT, Jilmar Tatto, tem apenas 1% das intenções de voto, mas o partido espera que a participação o ex-presidente na campanha possa melhorar o resultado.

"Com a presença do Lula o PT cresce. O tempo de TV vai nos ajudar. Não temos dúvida que o Lula vai entrar nos programas de TV e na campanha", disse o deputado estadual Ênio Tatto (PT), que integra a coordenação da campanha de seu irmão.

Apoiadores de Lula dizem que ele pretende se envolver também nas disputas da esquerda nas capitais e em outros grandes centros urbanos. As eleições municipais seriam uma forma de testar sua influência.

Ele já começou a gravar vídeos para os candidatos do PT, que terá candidaturas próprias em 20 capitais e 6 em coligação com outros partidos. Ao todo, serão cerca de 1.600 candidatos a prefeito da legenda.

REDES SOCIAIS

Com a pandemia do coronavírus e os eventos virtuais, Lula também aproveita para expandir sua influência pelas redes sociais, uma área até então dominada por bolsonaristas.

O ex-presidente aproveita para fortalecer a polarização com o presidente Jair Bolsonaro.

Por ocasião do 7 de setembro, ele divulgou um vídeo nas redes sociais dizendo que Bolsonaro transformou o coronavírus em uma “arma de destruição em massa” e criticou a política armamentista do atual governo.

"O povo não quer comprar revólver nem cartucho de carabina. O povo quer comprar comida", afirmou.

Na terça-feira (25), apresentou como seria seu discurso na abertura da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), citando número de mortes no Brasil durante a pandemia e sugerindo medidas contra o desmatamento, além das medidas indicadas no Plano de Reconstrução e Transformação do Brasil.

Em relação às críticas e denúncias de corrupção, o petista tem adotado um discurso no qual considera que os casos de corrupção contra ele foram politicamente motivados e de que não há necessidade de um mea culpa pelas irregularidades cometidas por seu partido.

"Autocrítica pedem ao PT as pessoas que não têm crítica ao PT, para eles terem um motivo para criticar o PT", afirmou.

PESQUISA ELEITORAL

A divulgação de uma pesquisa de opinião do site Poder 360 deu fôlego a Lula, ao apontar que ele empataria com o presidente Jair Bolsonaro em um eventual segundo turno nas eleições de 2022.

Para concorrer, o ex-presidente aposta que o Supremo Tribunal Federal (STF) vá declarar suspeito o comportamento do ex-juiz Sérgio Moro no processo que condenou o petista pela compra do triplex do Guarujá. Mas a expectativa nos bastidores do Judiciário é de que os ministros da Corte neguem o pedido da defesa de Lula.

Atualmente ele está inelegível pela Lei da Ficha Limpa. O ex-presidente foi condenado em dois processos na Lava Jato e tenta na Justiça recuperar seus direitos políticos. Se Moro vier a ser considerado parcial pelo STF, a sentença de Lula no caso do triplex poderia ser anulada na mesma decisão.

Além de duas condenações (nos casos triplex do Guarujá e sítio de Atibaia), o petista enfrenta ainda duas denúncias da Lava Jato em Curitiba, quatro ações na Justiça Federal do Distrito Federal e uma na Justiça Federal de São Paulo.

Mas analistas alertam que uma eventual candidatura do ex-presidente é “especulação pura e simples”.

“A esquerda segue cometendo erros se apoiando somente no nome dele. Se em pesquisas aparece o nome dele é consequência de um trabalho da esquerda que não soube colocar outro nome na disputa”, critica Deysi Cioccari, cientista política e pós-doutora em Comunicação.

PROPOSTAS CONCRETAS

O Plano de Reconstrução e Transformação do país, divulgado em um evento virtual com os principais nomes do partido, é uma espécie de plano de governo e propostas legislativas para um período pós governo Bolsonaro e surge como uma tentativa de o PT voltar a ocupar um espaço claro de oposição, com propostas concretas.

"Vamos ser claros: nós não reagimos prontamente à destruição das políticas sociais que ele (Bolsonaro) fez, de todo um conjunto de conquistas sociais que foram feitas", disse Lula em sua fala na apresentação do documento. "A ideia de criar um programa de reconstrução e transformação é uma arma poderosa na mão das pessoas."

Entre as propostas, estão a revogação da Lei de Segurança Nacional e a criação de uma Lei de Proteção do Estado Democrático e a ampliação do Bolsa Família, com a instituição do Mais Bolsa Família, que manteria o auxílio emergencial de R$ 600 às famílias vulneráveis.