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Datafolha em SP mostra que rejeição será, de novo, fator determinante para eleição

Matheus Pichonelli
·4 minutos de leitura
Sao Paulo state Governor Joao Doria (L) and Sao Paulo city Mayor Bruno Covas (R) visit a field hospital set up for coronavirus patients at Pacaembu stadium, in Sao Paulo, Brazil on March 27, 2020. - Brazil's top football clubs are handing over their stadiums to allow health authorities to turn them into field hospitals and clinics to fight the coronavirus pandemic. (Photo by NELSON ALMEIDA / AFP) (Photo by NELSON ALMEIDA/AFP via Getty Images)
O governador Joao Doria e o prefeito Bruno Covas. Foto: Nelson Almeida/AFP (via Getty Images)

Às vésperas das eleições presidenciais de 2018, Jair Bolsonaro (PSL) tinha 44% de rejeição, contra 52% de Fernando Haddad (PT), seu adversário no segundo turno.

Ganhasse quem ganhasse, o futuro presidente já assumiria sob desconfiança de cerca de metade dos eleitores.

Venceu o menos rejeitado -- e isso explica as tantas vezes que você ouviu “votei nele porque não tinha opção” nas conversas entre amigos e familiares de lá pra cá.

Dois anos depois, quem receber o apoio tanto do atual presidente herdará também a sua rejeição em algumas disputas das eleições municipais.

Em São Paulo, a maior cidade do país, o quadro da sucessão tem tudo para replicar alguns aspectos da presidencial de 2018: muitos candidatos, pouca unanimidade. Algo que deve se repetir também no Rio, a segunda maior cidade, e outro laboratório das pretensões para 2022.

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A pulverização pode levar um postulante ao segundo turno com cerca de 20% dos votos.

É aí que, mais pra frente, a coisa engrossa.

Se no primeiro turno vale a preferência do eleitor, no segundo pesa mais a rejeição.

Hoje candidato mais identificado com o bolsonarismo na capital paulista, Celso Russomano (Republicanos) largou na frente na pesquisa Datafolha divulgada nesta quinta-feira 24. Possui 29% das intenções de voto.

Que ninguém se surpreenda. Em 2020, Russomano concorrerá pela terceira vez à prefeitura paulistana. Um dos deputados federais mais votados em 2018, ele conta com um recall que os oponentes não têm. É o único dos principais candidatos conhecido por mais da metade da população (54%), seguido pelo atual prefeito, o tucano Bruno Covas (47%).

Menos de dois em cada dez eleitores em São Paulo (17%) conhecem o terceiro colocado na pesquisa, Márcio França (PSB).

Russomano larga em vantagem em relação ao prefeito no quesito rejeição. Dos entrevistados, 21% dizem que não votariam nele de jeito nenhum, enquanto Bruno Covas ostenta índice dez por cento superior.

Quem quiser superar um dos dois candidatos terá de crescer ao menos dez pontos percentuais até o dia da eleição, daqui a dois meses. É perfeitamente possível, sobretudo depois que tiver início a campanha na TV.

O dado principal do Datafolha até aqui é que 57% dos eleitores ainda não têm um candidato de preferência, enquanto 16% querem votar em...ninguém.

Mas, se o quadro não mudar, e a disputa em São Paulo de fato antecipar uma disputa que se desenha em 2022, entrará na conta das decisões o vínculo com os padrinhos políticos. E eles tendem a ser um trunfo no primeiro turno e um peso no segundo.

Hoje, em São Paulo, 59% dos entrevistados pelo Datafolha dizem que não votam de jeito nenhum no candidato apoiado por João Doria, o atual governador.

Já o candidato apoiado por Jair Bolsonaro afugentará 64% dos eleitores.

Não estará em lençóis tão melhores quem entrar na disputa com as mãos do ex-presidente Lula sobre os ombros. Mais da metade dos entrevistados (57%) dizem rejeitar um candidato apoiado pelo petista.

Se esses vínculos forem devidamente explorados (por adversários) ao longo da campanha, esta será uma conta que não fecha para quem quiser governar com algum capital político a partir do ano que vem.

No Brasil do fim da década, já não se fazem mais cabos eleitorais como antigamente, e isso exigirá um jogo de corpo delicado para quem quiser se eleger. Mais ou menos como chamar para a dança no primeiro turno e se afastar aos poucos no segundo para não herdar a rejeição.

No caso de Covas, isso pode ser minimizado quanto mais próximo da votação estiver o anúncio da vacinação contra o coronavírus.