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Bolsonaro contra a maioria

O presidente Jair Bolsonaro. Foto: Adriano Machado/Reuters

Um dos territórios em disputa na narrativa revisionista sobre o período militar é o apoio da sociedade brasileira ao golpe de 1964. Por esta ótica negacionista, o país vivia sob a sombra de um “perigo comunista”, o presidente João Goulart, deposto no processo, não tinha base popular e tudo de ruim que aconteceu nos 21 anos seguintes foi apenas consequência dos esforços para evitar um mal maior.

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Era mais ou menos isso o que dizia uma mensagem disparada a jornalistas pelo canal oficial do Planalto no WhatsApp em 31 de março de 2019, quando Jair Bolsonaro ainda não havia completado três meses no cargo.

Pesquisas de opinião da época desmentem de alto a baixo essa narrativa. Algumas mostram que Goulart era, inclusive, forte candidato a se reeleger em 1965, caso houvesse eleições.

Em São Paulo, cidade em que a onda pró-intervenção ganhou forma na imagem da “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”, a rejeição ao governo era minoritária, segundo o Ibope: 19% o avaliavam negativamente, contra 42% que diziam o contrário.

Os humores populares dos anos seguintes foram obscurecidos pela perseguição e a censura.

Numa visão deturpada do que seja “minoria” -- grupos que podem ser majoritários na população, mas minoritários nos postos de poder e acesso a direitos básicos -- Bolsonaro prometeu, na campanha de 2018, fazer “um Brasil para as maiorias”.

“As minorias têm que se curvar para as maiorias. As minorias ou se adequam ou simplesmente desapareçam”, disse, num carro de som.

Pouco depois, Bolsonaro foi eleito com 57,7 milhões de votos -- contra 47 milhões do adversário petista, Fernando Haddad, 11 milhões de votos nulos ou brancos e 31 milhões de abstenções.

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Há algumas semanas, enquanto o mundo discutia o enfrentamento da pandemia do coronavírus e a retomada do que se convencionou a chamar de normalidade, os brasileiros debatiam intervenção militar e o uso das Forças Armadas em favor de um presidente acossado e enroscado numa série de possíveis crimes de responsabilidade.

Apesar da mudança de tom após a prisão de um amigo com um pé na milícia e outro na casa de seu advogado, a ameaça autoritária não está totalmente descartada. Está recente ainda na memória os inúmeros flertes do governante em direção a um suposto “clamor popular” pró-intervenção.

Usava, para isso, manifestações de meia dúzia de lunáticos (alguns patrocinados, como revelam as investigações dos atos) na frente do Palácio para dizer que ali estava “o Brasil”. Um Brasil que, a exemplo do que juram ter acontecido em 64, pedia para ser salvo de um “mal maior”.

Pois bem.

Se daqui a cinco décadas as viúvas e viúvos de um projeto autoritário se apegarem a imagens de aglomeração focadas em recortes seletivos, vale guardar no baú o resultado de uma ampla pesquisa de opinião feita pelo Datafolha no momento em que Bolsonaro e outros saudosos da ditadura reivindicam o status dos desejos e das vozes majoritárias do país.

Não são.

Atenção, historiadores do futuro: em junho de 2020, as teses e ideias bolsonaristas não encontravam eco na maioria da população, não.

Enquanto Bolsonaro acenava para atos que pediam o fechamento do Congresso e do STF, 68% dos brasileiros diziam que tais manifestações representavam uma ameaça à democracia. O mesmo valia para pedidos do tipo feitos pelas redes sociais e para a divulgação de notícias falsas envolvendo políticos e ministros da Corte -- considerados uma ameaça por 66% e 81%, respectivamente.

Os atos antidemocráticos, nas ruas e nas redes, são hoje alvos de inquérito no Supremo.

Para 81% dos brasileiros, movimentos sociais precisam respeitar a lei e a ordem para reivindicar seus direitos. Um desses movimentos levava armas num acampamento pró-Bolsonaro e sua líder prometia sair no soco com um ministro do Supremo.

Bolsonaro, que quando deputado defendia tortura e guerra civil, foi eleito presidente em um país onde 79% afirmam que a tortura nunca pode ser praticada, mesmo se for a única forma de obter provas e punir criminosos, e 65% dizem que direitos humanos devem valer para todos, inclusive criminosos.

Para a maioria dos brasileiros (62%), a ditadura de 64-85 deixou mais realizações negativas do que positivas e atos tomados na época não deveriam ser repetidos pelo governo atual, que flerta com uma reedição do AI-5, instrumento de perseguição do período mais duro do regime. A maioria discorda totalmente de frases como as que dizem que o governo deveria proibir greve (59%), proibir a existência de algum partido (51%), censurar jornais, TV e rádio (64%), fechar o Congresso Nacional (59%), torturar suspeitos para obter confissões (73%) ou fechar o STF (56%).

Ah, sim: por mais que representantes do governo neguem, oito em cada dez brasileiros (78%) acham que o que aconteceu no período foi uma ditadura, sim.

É praticamente o mesmo número (75%) dos que dizem que o regime democrático é sempre o regime mais adequado.

Bolsonaro pode até tentar a sorte, mas não será sob aplausos da maioria que diz representar. Para essa maioria, aliás, Jair Bolsonaro é considerado pouco inteligente (54%), autoritário (64%), despreparado (58%) e incompetente (52%). Uma parcela considerável, embora não majoritária, o avalia ainda como falso (46%) e desonesto (40%).

Segundo o instituto, Bolsonaro tem hoje 32% de aprovação, o índice mais baixo entre todos os presidentes avaliados em seu primeiro ano de mandato. Apenas 20% dos eleitores dizem confiar “sempre” em suas declarações, contra quase 80% que dizem não confiar nunca (46%) ou só às vezes (32%).

No maior desafio de sua gestão, o que ficará para a história, sua liderança diante da pandemia é considerada ruim ou péssima para 49% dos entrevistados.

Que fique registrado quando os candidatos a reescrever a História do presente disserem que foi este sujeito que atendeu o clamor popular, potente como um miado, e livrou o país de todos os males.

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