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Dar garantia a crédito é mais eficaz do que subsidiar juros, diz presidente do BNDES

NICOLA PAMPLONA

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - O presidente do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), Gustavo Montezano, afirmou nesta segunda (8) não ver eficácia em subsidiar juros de empréstimos emergenciais para enfrentar a crise gerada pela pandemia do novo coronavírus. Ele defendeu que o foco deve ser na oferta de garantias a empresas menores, que vêm tendo dificuldades para obter recursos.

O banco vem sendo criticado por oferecer condições de mercado em suas linhas emergenciais, deixando a definição dos juros finais nas mãos de instituições financeiras privadas. Na linha de capital de giro, uma das primeiras a entrar em vigor, a taxa média é de 11,61% ao ano.

Em entrevista, o banco consolidou medidas de uma terceira rodada de pacotes de socorro, algumas delas já anunciadas nos últimos dias. Entre os beneficiários, estão hospitais, usinas de cana, estados e municípios e pequenas e médias empresas. No total, dão R$ 36,5 bilhões em recursos disponíveis.

"Existe liquidez para apoiar as empresas e vivemos um momento de juros baixos", afirmou Montezano, em entrevista para anunciar novos pacotes de crédito para empresas afetadas pela crise. "Então, a parte de subsídio em taxa básica de juros se mostraria pouco eficaz nesse momento."

Ele defendeu que não se deve comparar o cenário atual com períodos em que a taxa básica de juros superava os 10%. Agora, afirmou, o maior gargalo na busca por financiamento é a aversão ao risco, diante das incertezas sobre a sustentabilidade das empresas após a pandemia.

Por isso, diz o BNDES tem priorizado programas que reduzam o risco, omo a criação do seguro com recursos do Tesouro para garantir financiamentos a pequenas e médias empresas. "A gente acha que é bem mais eficaz."

O programa foi anunciado na semana passada e vai contar com R$ 20 bilhões do Tesouro e potencial para alavancar até R$ 100 bilhões em empréstimos, segundo o BNDES. A primeira etapa, de R$ 5 bilhões deve estar disponível no início de julho. Com ela, o banco espera destravar R$ 25 bilhões em crédito.

Os financiamentos serão negociados com bancos privados parceiros do BNDES, que são alvo de críticas pela rigidez na análise de risco e pelos juros cobrados. Na linha de capital de giro, por exemplo, há contratos com taxas superiores a 15% ao ano, caso de duas indústrias de pequeno porte no Nordeste.

Montezano alega que o acesso a crédito por pequenas e médias empresas no país é um problema estrutural, que se agravou durante a crise atual. Entre fevereiro e abril, disse ele, a oferta de dinheiro novo para grandes empresas cresceu cinco vezes mais do que os volumes oferecidos a empresas menores.

Enquanto no primeiro caso, o crédito contratado passou de R$ 902,4 bilhões para R$ 1 trilhão, no segundo subiu de R$ 541,6 bilhões para R$ 553 bilhões. "Se a gente observa as pequenas e médias, existe um crescimento não desprezível, mas ainda aquém do necessário", comentou o presidente do BNDES.

Além da oferta de garantia, o BNDES anunciou incluiu na terceira rodada de socorro uma linha de R$ 3 bilhões para financiar estocagem de etanol e outra de R$ 2 bilhões para pagamento de fornecedores, na qual grandes contratantes serão responsáveis por repassar o dinheiro, ambas anunciadas na semana passada.

Está ainda do pacote a suspensão de R$ 3,9 bilhões em financiamentos a estados e municípios, que é parte do programa de socorro do governo federal aos entes subnacionais. Prefeituras e governos estaduais que têm contratos com o BNDES poderão anda antecipar parcelas do financiamento.

Uma linha de R$ 2 bilhões foi criada para atender hospitais filantrópicos ou não filantrópicos que precisam liquidez para manter suas operações.

Até o momento, o BNDES já ofereceu R$ 138 bilhões ao mercado, tanto em operações de crédito direto indireto como em suspensão de pagamentos de financiamentos concedidos antes da crise. Na entrevista, Montezano disse que se trata de um processo dinâmico e novas linhas podem surgir.

"Isso aqui é um aprendizado, é uma terra nova que a gente está caminhando", afirmou. "Essa jornada não se encerra hoje, possivelmente daqui a algumas semanas a gente virá aqui com novos esclarecimentos e/ou apresentando novas medidas."

O banco evitou maiores detalhes sobre os programas de socorro setoriais, em discussão com companhias aéreas e montadoras, por exemplo. Disse apenas que as negociações estão em andamento com empresas que têm interesse nos créditos.

No caso do setor aéreo, Gol, Azul e Latam negociam R$ 2 bilhões para cada, por meio de pacotes que incluem renda fixa e variável. No setor automotiva, as conversas já avançam com Fiat e GM e devem envolver R$ 4 bilhões para cada uma. Nos dois casos, a ajuda terá dinheiro do BNDES e de bancos privados.