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Governadora de SC poupa pai hitlerista e cospe nas famílias destroçadas pelo nazismo

Matheus Pichonelli
·4 minuto de leitura
Plastic garden dwarves with their arms outstretched in the stiff-armed Hitler salute, are pictured on the main square in Straubing, south eastern Germany, as part of the art installation 'Dance with the Devil' by German artist Ottmar Hoerl October 15, 2009. The exhibition with 1,250 garden gnomes opens today.  REUTERS/Michael Dalder   (GERMANY SOCIETY ENTERTAINMENT)
Foto: Michael Dalder/Reuters

Pessimista na análise, otimista remediado na ação, nem em pesadelo imaginava, alguns anos atrás, que chegaria a 2020 me vendo e vendo alguns amigos se estapearem pelo óbvio.

A essa altura já não imaginava chegar aqui sob rasantes de carros voadores. Nem com um mísero skatezinho flutuante, como queria meu amigo e jornalista Leandro Fortes.

Em vez disso, estamos aqui batendo a cabeça no teclado, e o celular na parede, defendendo direito a vacinação universal, atendimento gratuito pelo Sistema Único de Saúde caso bata a cuca no chão, ou exagere na cabeçada na parede, cotas para grupos historicamente marginalizados, ensino sobre a teoria da evolução, educação sexual e outras conquistas sob ataques de terraplanistas científicos, históricos, jornalísticos e planetários que se creem multiplicados por geração divina e espontânea.

Até a pesadelos nos acostumamos. Em nenhum deles pensei vir até aqui um dia e repercutir a postura defensiva e eivada recibos de uma governadora recém-empossada que se esquiva em responder se afinal compartilha ou não da admiração do pai em relação a...Adolf Hitler.

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Daniela Reinehr, nova chefe do Executivo em Santa Catarina, é filha de um historiador que não faz questão de disfarçar a admiração pelo facínora em textos e imagens. Em uma delas Altair Reiher posa na frente da casa onde nasceu o líder nazista em Brenauu am Inn, na Áustria.

A foto, como relatou a repórter Paula Sperb, na Folha, acompanha um texto queixoso no qual o pai da governadora lamenta não poder lembrar das obras reconhecidamente positivas daquele tempo em que se podia mandar judeus, ciganos e pessoas com deficiência para as câmaras de gás.

Um exemplo de obras positivas são as estradas construídas no período. Governar, afinal, é abrir estradas, diria Washington Luis, que aparentemente não teve o lugar de nascimento fotografado pelo pai da governadora.

Torcido e retorcido, o texto do historiador poderia trazer no título a defesa da estratégia “mata mas faz”.

Reinehr pai, que já testemunhou em defesa de um autor de obras antissemitas, atribui ao líder nazista a modernização do Estado alemão, a eliminação do desemprego, a revitalização da indústria.

Em sua posse, após o impeachment de Carlos Moisés (PSL), Daniela Reinehr foi questionada sobre se, a exemplo do pai, concordava ou não com as as ideias neonazistas e negacionistas sobre o Holocausto.

A resposta é um recibo do tamanho da vergonha: “Respeito as pessoas independentemente dos seus pensamentos, respeito os direitos individuais e as liberdades. Qualquer regime que vá contra o que eu acredito, eu repudio”.

Em outras palavras, Reinher filha foi incapaz de dizer o óbvio e repudiar com algumas letras o nazismo como experiência histórica e o neonazismo como herança familiar.

E foi além: “existe uma relação e uma convicção que move a mim, e acredito que a todos os senhores, que se chama família. Me cabe, como filha, manter a relação familiar em harmonia, independentemente das diferenças de pensamento”.

Filha, diferença de pensamento é o que alimenta a vontade de cuspir o macarrão no almoço de domingo quando o teu pai diz que o Ringo Starr foi o maior dos Beatles. Isso é diferença de pensamento. Harmonia é o que nos faz sorrir sem graça da opinião equivocada.

Fosse cláusula pétrea, estaríamos todos em casa andando ainda de cavalo para não chatear o bisavô que vendia carroça e achava que a chegada do automóvel era só modinha.

Defender nazista não é exposição de pensamento. É crime. E evitar confrontar a atitude criminosa não é colocar a harmonia familiar em primeiro plano, um plano supostamente sagrado, mas escarrar na cara e na história de todas as famílias destroçadas, espoliadas, separadas, delatadas, assassinadas, levadas forçadamente a campos de trabalho e execução graças ao ídolo do seu papai.

Foi justamente a espoliação dessas famílias que encheu os bolsos criminosos de quem abriu estradas que agora, segundo a lógica neonazista, precisam ser reconhecidas como “obras positivas” de uma época nem tão ruim assim.

“Em lugar nenhum do mundo a filha de um hitlerista assumiria o cargo”, me disse a antropóloga da Unicamp Adriana Dias, que já identificou mais de 300 células neonazistas no país. “Estamos literalmente nos nazificando”, lamentou.

No Brasil governador por um fã de torturador, a filha do hitlerista incapaz de refutar ideias hitleristas em sua posse não só assume o cargo como se diz “100% Bolsonaro” e ainda recebe apoio jurídico da advogada do presidente.

Resta saber o que dirá o presidente diante dos que levantam a bandeira de Israel nas manifestações em seu apoio.