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O ataque dos cidadãos de bem que só leem o título e jogam uma criança aos leões

Matheus Pichonelli
·4 minutos de leitura
Brazil's Minister of Women, Family and Human Rights, Damares Alves attends a news conference, amid the coronavirus disease (COVID-19) outbreak in Brasilia, Brazil April 13, 2020. REUTERS/Adriano Machado
A ministra da Família Damares Alves. Foto: Adriano Machado/Reuters

Na semana passada, a ministra Damares Alves criticou um texto meu do qual só leu o título sobre um filme do qual, provavelmente, só viu o cartaz.

Instigados por ela e por parlamentares da base governista, entre eles o filho 02 do presidente, passei dias recebendo e filtrando todo tipo de ataque e acusação, inclusive o de passar pano e estimular a sexualização precoce dos brasileiros.

Se o séquito tivesse ao menos lido o texto até o fim, veria que jamais escrevi que se vestir como adulto era direito da criança. Direito a ser criança era justamente quebrar um modelo que adultiza a infância não só no vestuário, mas também nas responsabilidades pela casa, pelo trabalho, pela criação de outras crianças. O abandono e as jornadas de trabalho extenuantes dos pais mostrados no filme deixam meninas e meninos à mercê de modelos de comportamento que não condizem com seus corpos e suas idades, o que é o tempo todo denunciado pela diretora.

Na cena final, caso não queiram se dar o trabalho de ir até o fim, a protagonista quebra uma sequência de sofrimento intenso, causado pelo esforço em ser adulta, brincando de pular corda, como uma criança deveria fazer na sua idade.

Como outros jornalistas, me tornei alvo da fúria dos que leem e entendem o que querem de uma realidade que insistem em observar pelo módulo binário.

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Se um filme ou qualquer outro produto audiovisual alimenta criminosos à espera de estímulos, talvez seja o caso de as autoridades combaterem quem está do outro lado da tela. Sem isso, cai na vala comum dos que veem nas roupas a justificaria para a violência. Uma violência que se perpetua dentro das casas das melhores famílias mesmo que a vítima cubra todas as partes do corpo.

Do episódio, fica o questionamento se as autoridades eleitas ignoram esta dinâmica ou só fingem que ignoram. Seja como for, é a estrutura do Estado que está sendo usada para financiar as armas de uma guerra cultural que tem, entre seus objetivos, alvejar quem estiver à frente de suas crenças e convicções.

A estratégia é justamente olhar a parte, enviesar, julgar e ressignificar o todo. Não é só criar dificuldade para vender facilidade. É criar inimigo para vender segurança. As experiências do século 20 mostram, ou deveriam mostrar, o fim dessa história.

Damares, que na reunião de 22 de abril jurava que a contaminação, por covid, de povos indígenas era estimulada por opositores para prejudicar o governo, dá rosto a esta estratégia. Trata-se, afinal, de uma política que opera na fração, e não só dos pedaços da realidade que tenta montar como bricolagem.

Nesta segunda-feira 21, a Folha de S.Paulo noticiou que o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos usou até setembro metade da verba para proteção da mulher. A pasta sofrerá também corte de 25% dos recursos para a área no ano que vem.

O mesmo jornal mostrou que, embora tenha mantido silêncio público quanto ao aborto legal realizado por uma criança de dez anos que engravidou após ser estuprada pelo tio, Damares agiu nos bastidores para impedir que ela fosse submetida ao procedimento.

Suspeita-se que pessoas envolvidas no processo tenham vazado o nome da criança a gente como Sara Giromini, cidadã de bem que costuma posar com armas e ameaçar trocar socos com ministros do STF.

A exposição levou a criança a mudar de nome, de cidade, e ser inscrita no Programa de Proteção a Testemunha.

Se isso é cuidar das crianças, imagine o que seria jogá-las aos leões.