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Dá-lhe! O argentino que se naturalizou brasileiro e naturalizou ser colorado

Mauro Beting
·3 minuto de leitura
DÁ-LHE D'ALE! FOTO Diego Vara-Pool/Getty Images

D'Ale, você é um mala.

Para que se aposentar?
Para que largar o Inter no meio do Brasileirão?
Para que brigar com a direção que brigou com o Colorado?
Para que dar um basta depois de 516 jogos e 95 gols pelo Inter onde você foi um craque é ídolo estrangeiro como Figueroa. Para não dizer que foi um dos melhores gringos da história do futebol brasileiro.

Para que deixar de brigar da entrada em campo até a saída do juízo em um Gre-Nal?
Para que deixar de jogar um clássico até no banco? Peitar juiz, rival, torcida, cartola, jornalista, gandula, fatos e feitos?

Para que sempre deixar tudo no cancha e agora deixar as chancas por nada?

Você não é só chato pra todos que não tiveram o privilégio de torcer por você. Você é uma esteira de malas do Salgado Filho e de Ezeiza por deixar o Beira-Rio hoje sem torcida para dar "hasta luego" pra ti, guri muchacho.

Dava pra esperar um abraço colorado do tamanho do mundo de 2006 em sua partida?

Não deu.

Respeito. O que você teve de sobra das goleiras às casamatas. Carinho. Imensamente retribuído. Atenção que você tem com as causas sociais enquanto 10 colorado.

Campeão da América em 2010. Campeão da Sul-Americana em 2008. Da Recopa Sul-Americana em 2011. Da Copa Suruga em 2009. Ganhou o Gaúcho no ano seguinte à sua chegada no Beira-Rio, vindo do Zaragoza. Pentacampeão estadual de 2011 a 2015.

D’Ale não estava no gramado em uma das piores derrotas contra eles. Apenas torcia. E por isso poucos na história colorada são tão idolatrados. Não apenas pelo muito que conquistou, pelo tanto que a canhota nada canhestra cativou. D’Alessandro torcia na cancha. E se retorcia no gramado quando atingido – ou “atingido”. Cavava faltas como desafetos das outras cores.

Chato de ser marcado. Chato de ser tolerado. Chato de jogar contra ele e com o time dele. Dá-lhe a dribles! Dá-lhe bola enfiada do outro lado. Caños e canetas. Cacetadas na goleira alheia, cacetadas na própria perna. Não era Pelé, mas peleava como se fosse. Não foi Diego, mas D’Ale!

O do drible de La Boba. Pisa na bola, mete no meio das pernas e sai para o jogo. Ainda existem bobos no jogo. Eles caíam feito patos na milonga. Você sabia que ele faria a jogada. E ele fazia a jogada do mesmo jeito. Insolente. Irrefreável. Inter.

Colorado de sangue. A banda roja no peito do River amado borrou e tomou todo o manto vermelho gaúcho. A má vontade contra o azul e amarelo bostero virou o prazer de vencer o azul, o preto e o branco Tricolor. No Gre-Nal quase sempre cresceu. E nos Gre-Nais deixou cada vez mais estreita a sua relação com a torcida.

Dos gols que marcou no clássico, muitos saíram de patadas de longe. De sem-pulo ou depois de dribles. No ângulo ou batendo no gramado e encobrindo o goleiro rival. D’Alessandro encurtou distâncias no gramado. E trouxe para dentro dele um senhor jogador. Armador fino da estirpe de outros tempos. Por isso também fica em todos os anos do Inter. Mas vai um tanto além por ser mais sanguíneo que o maior de todos – Falcão. Não foi tão emblemático como Fernandão, capitão na acepção, cabeça fria e testa de titânio para os momentos de paúra e de poder, em 2006. Mas D’Ale é um pouco mais colorado por ser um tanto mais torcedor. Não aceita perder. Nem jogo e nem os tantos campeonatos que conquistou. Ele não gosta de perder a bola, um lance, uma decisão do árbitro. Irrita. Enerva. Incita. Inter!

Ele é um tanto gaúcho, é muito argentino, e virou totalmente Internacional. O cara que todo torcedor quer ver no seu time: bom de bola e de briga. O jogador que nenhum rival quer ver perto – também por isso.

Admiração tamanha de todo o Brasil que até brasileiro você virou.

Ou melhor:

D'Alessandro, você não se naturalizou brasileiro. Você naturalizou ser colorado.

A sua maior conquista.