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Dados da missão InSight trazem mais mistérios envolvendo os terremotos de Marte

Danielle Cassita
·4 minuto de leitura

Em 26 de novembro de 2018, a sonda InSight, da NASA, pousou em Marte para estudar o interior do planeta, sua formação e os tremores chamados de “marsquakes” (algo que podemos traduzir para "martemotos", equivalentes aos nossos terremotos). Após pouco mais de um ano marciano (que dura 687 dias terrestres), os instrumentos da sonda detectaram mais de 480 martemotos e ajudaram os cientistas a entender melhor o que acontece por lá, mas ainda existem algumas questões sem resposta.

Apesar de Marte ser um mundo com condições hostis hoje, o passado do planeta guarda características bem mais parecidas com as da Terra: o Planeta Vermelho já foi quente, úmido e envolvido por uma atmosfera bem mais espessa. Entretanto, há cerca de 4 bilhões de anos, os dois mundos seguiram caminhos diferentes que resultaram no que vemos hoje. Assim, a missão da InSight vem ajudando os cientistas a compararem a Terra com esse nosso vizinho tão árido.

Então, ao estudar o que forma as profundezas marcianas, como esse material se encaixa nas diferentes camadas que formam o planeta e como ocorre perda de calor, os cientistas podem entender melhor como os materiais primordiais dos planetas os tornam mais ou menos capazes de permitir a ocorrência de vida. Assim, enquanto a InSight ainda tem trabalhos científicos a realizar, já podemos pensar em três descobertas que ela nos proporcionou sobre nosso vizinho:

A atividade sísmica marciana está "tranquila"

Representação do lander InSight e indicação do sismógrafo, protegido do calor e vento (Imagem: Reprodução/NASA)
Representação do lander InSight e indicação do sismógrafo, protegido do calor e vento (Imagem: Reprodução/NASA)

A InSight conta com o sismógrafo SEIS, posicionado especialmente para estudos sobre a formação de Marte, a atividade geológica que ocorre por lá e a formação de planetas rochosos. O instrumento é tão sensível que é capaz de detectar tremores de terra leves, mesmo que ocorram a grandes distâncias. Apesar de ter chegado a Marte no final de 2018, foi somente em abril do ano seguinte que os sismólogos conseguiram identificar o primeiro martemoto. Desde então, o planeta veio compensando o período calmo com movimentos leves e frequentes, de magnitude que não foi além de 3,7.

O problema é que, se os abalos sísmicos leves são frequentes, a ausência de tremores de magnitude 4 é um mistério: “é surpreendente não termos visto um evento maior”, disse Mark Panning, sismólogo do Laboratório de Propulsão a Jato (JPL), que lidera a missão InSight. Então, pode ser que Marte seja um planeta mais “estático” do que se pensava ou que, talvez, a InSight tenha simplesmente chegado lá em uma época de calmaria. Mesmo assim, os cientistas vão precisar esperar terremotos mais fortes para estudar o que ocorre abaixo da crosta marciana.

O vento pode “disfarçar” martemotos

Nuvens se movendo no céu com destaque para o SEIS (Imagem: NASA/JPL-Caltech)
Nuvens se movendo no céu com destaque para o SEIS (Imagem: NASA/JPL-Caltech)

Logo quando a InSight começou a identificar os tremores, eles se tornaram regulares a ponto de acontecerem todos os dias — mas foi em junho de 2020 que as detecções dos terremotos pararam. Foi somente após setembro deste ano que cinco novos registros ocorreram. Para os cientistas, esse período “quieto” pode ser explicado pela ação do vento: é que a temporada das ventanias mais intensas do ano marciano começou por volta de junho.

A equipe já sabia que ventos podem afetar o sismômetro da InSight, que é equipado com uma espécie de cúpula que o protege contra o vento e escudos de calor. Só que o vento causa tremores no solo, e causa também um som que pode cobrir os terremotos. Então, pode ser que isso tenha contribuído para o que parece ser uma longa calmaria sísmica antes do primeiro tremor que a InSight acompanhou desde quando pousou — que também foi quando uma tempestade de poeira estava se acalmando.

Não há ondas de superfície

Quando ocorrem, os tremores produzem as ondas primárias (ondas P) e secundárias (ondas S), que são dois conjuntos de ondas de corpo que viajam pelo interior do planeta. Elas também se movem pela parte superior da crosta do planeta como parte das ondas de superfície, outra categoria. No nosso caso, estas ondas são usadas pelos sismólogos para estudos sobre o interior da Terra.

Assim, os sismólogos da missão esperavam que estas ondas dessem sinais no manto de Marte, que fica a 400 quilômetros abaixo da superfície. Entretanto, as centenas de martemotos que ocorreram não trouxeram ondas de superfície: “não é exatamente uma novidade ter tremores sem ondas de superfície, mas foi uma surpresa”, comenta Panning. A ausência desse fenômeno pode estar relacionada a grandes fraturas a 10 quilômetros abaixo de onde o InSight está, ou talvez signifique que os martemotos que a InSight detectou estão vindo do fundo do planeta — e, nesse caso, é esperado que eles não produzam ondas de superfície fortes.

Fonte: Canaltech

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