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Da desconfiança ao desejo: Como a Sputnik V, vacina russa contra a Covid-19, ganhou espaço no cenário internacional

Anita Efraim
·4 minuto de leitura
View of a vial of the Sputnik V vaccine against COVID-19 in a temporary vaccination center at a public school in Bernal, Buenos Aires outskirts on February 18, 2021. (Photo by JUAN MABROMATA / AFP) (Photo by JUAN MABROMATA/AFP via Getty Images)
Argentina é um dos países que já recebeu doses da vacina russa Sputnik V e começou a aplicar o imunizante (Foto: JUAN MABROMATA/AFP via Getty Images)

A Sputinik V, vacina russa contra o coronavírus, surgiu no cenário internacional com desconfiança por parte do mundo ocidental. Isso aconteceu especialmente pela falta de estudos científicos publicados a respeito do imunizante desenvolvido pelo Instituto Gamaleya.

Mesmo assim, a Rússia começou a aplicar as doses no país. Angelo Segrillo, historiador da Universidade de São Paulo e autor do livro “Os Russos”, explica que a Rússia mudou a legislação para conseguir desenvolver o imunizante em tempo recorde.

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“Se editou uma lei especial na Rússia que permitia, que, em casos emergenciais ou de pandemia, vacinas poderiam ser criadas e usadas apenas com a fase 2 de estudos em vez das 3 fases usuais, o que criou esta polêmica internacional se a vacina estava pronta realmente ou não para ser usada internacionalmente”, explica.

Na esteira da decisão russa, países preteridos pelas grandes farmacêuticas começaram a se movimentar no cenário internacional para adquirir a Sputnik V. Entre eles, a Argentina, que já começou a aplicação das doses da vacina russa, a Palestina e a Venezuela, além da Hungria.

Angelo avalia que é uma maneira encontrada pela Rússia de se projetar internacionalmente e classifica que a vacina funciona como uma espécie de “soft power” dos russos. Para ele, no entanto, o imunizante ajuda, mas não muda radicalmente o cenário internacional – que já tem a Rússia como um player importante.

Vicente Ferraro, doutorando em Ciência Política pela USP e pesquisador do Laboratório de Estudos da Ásia da USP, acredita que a estratégia russa com a vacina lembra as ações geopolíticas usadas pela União Soviética na Guerra Fria.

“A vacina confere um impulso ao ‘soft power’ russo, basicamente à imagem de um esforço humanitário em benefício de países em desenvolvimento – uma imagem que a então União Soviética buscou difundir na Guerra Fria. Não por acaso a vacina leva o nome do primeiro satélite artificial lançado ao espaço e que simbolizou a liderança do avanço tecnológico e do programa espacial soviético sobre o Ocidente”, recorda.

Ferraro ainda ressalta que a Sputnik V tem ganhado espaço no cenário internacional pelas características científicas, para além da geopolítica. “A Sputnik V foi bem recebida por tradicionais aliados geopolíticos da Rússia na América Latina, no Oriente Médio e mesmo na Europa Oriental, como é o caso da Hungria. Contudo, alguns fatores tornaram-na atrativa inclusive para países geopoliticamente distantes. Enquanto algumas vacinas desenvolvidas por grandes farmacêuticas são difíceis de armazenar e foram compradas por países ricos, deixando os países em desenvolvimento na espera ou oferecendo condições pouco vantajosas, a vacina russa é consideravelmente mais barata, de fácil armazenamento e oferece a possibilidade de ser produzida localmente. Também cabe ressaltar que negociações diretamente com governos, como é o caso da vacina russa, são percebidas como menos arriscadas.”

O cenário mudou após a publicação de um estudo a respeito da vacina na conhecida revista The Lancet, atestando que a Sputnik V tem eficácia de 91,6%. Segrillo afirma que, mesmo antes, a vacina já se havia provado eficaz.

“A vacina já tinha mostrado sua eficácia antes de ser aplicada na Rússia (senão não seria aplicada). A polêmica era sobre o grau de segurança da vacina, pois tinham sido realizados apenas os estudos da fase 2, mas não da fase 3. Ou seja, o uso da vacina àquela altura representava uma aposta com grau de risco maior que o normal pelas melhores práticas internacionais”, aponta.

Em relação à geopolítica, Ferraro avalia que a venda da vacina pode desviar o foco de temas importantes envolvendo a Rússia, como o envenenamento de Alexey Navalnuy, principal opositor de Putin, além das crises com a Ucrânia e na Criméia. “Uma eventual cooperação na área da saúde poderia levar à diminuição das tensões e até mesmo a uma reaproximação [com o ocidente].”

Mas foi depois da publicação na The Lancet que países ocidentais passaram a olhar mais para a vacina. Ferraro lembra que a Alemanha, com dificuldade de comprar mais doses de vacinas da Pfizer e da AstraZeneca, já pensa em comprar a Sputnik V. “Resta saber se a Rússia terá condições de garantir uma produção em larga escala. O ritmo da vacinação no próprio país ainda é controverso.”

INTERESSE DO BRASIL NA SPUTNIK V

O Brasil também entrou no grupo dos países que negociam a compra da Sputnik V. Na opinião de Angelo Segrillo, a medida é positiva. “Neste momento emergencial de pandemia não se deve discriminar vacinas pela origem geográfica”, avalia.

A negociação do governo federal é com a União Química, que produzirá a vacina russa no Brasil. Ferraro entende que a iniciativa do governo de Jair Bolsonaro (sem partido) é uma forma de rivalizar com o governador de São Paulo, João Doria (PSDB).

“Bolsonaro age com foco nas eleições de 2022. A Sputnik V pode ser uma estratégia de promover uma solução alternativa à CoronaVac, fomentada pelo governador João Dória”, aponta.