Dólar volta a subir apesar do recado de Tombini

Um dia depois de comentários do ministro da Fazenda, Guido Mantega, nesta quinta-feira foi a vez de o presidente do Banco Central (BC), Alexandre Tombini, mandar um recado para o mercado de câmbio. Pela primeira vez, ele admitiu, em audiência no Congresso Nacional, que a taxa de câmbio real mudou de patamar e lembrou que o BC carrega uma posição comprada de US$ 5 bilhões em swap cambial.

Na avaliação do mercado, a fala de Tombini foi uma indicação de que o BC tem munição suficiente para agir se houver uma valorização excessiva do dólar ante o real. Este fator, aliado à queda da moeda norte-americana ante outras divisas, fez o dólar recuar ante o real no balcão durante boa parte do dia. Perto das 15h30, no entanto, o dólar passou a subir, em um ambiente de liquidez menor e com os investidores testando a disposição da autoridade monetária de atuar para conter a alta.

Ao fim da sessão, o dólar à vista mostrou alta de 0,14% no balcão, cotado a R$ 2,0970. Na mínima da sessão, a moeda cedeu para R$ 2,0890 e, na máxima, a cotação foi de R$ 2,0980. A moeda operou em baixa na maior parte do dia, mas na reta final do pregão voltou ao território positivo.

O volume de negócios foi menor em função do feriado do dia de Ação de Graças nos Estados Unidos. Na BM&F, o dólar pronto fechou estável, a R$ 2,0960, com oito negócios. Às 16h42, o dólar para dezembro de 2012 era cotado a R$ 2,1015, com baixa de 0,05%, após marcar durante o dia máxima de R$ 2,1025.

O ambiente externo ameno pela manhã, em meio a dados positivos da economia chinesa e às perspectivas de solução para o problema grego na segunda-feira, trouxe um viés de baixa para o dólar ante outras moedas no mercado internacional. O movimento se repetiu no Brasil, com o dólar em queda no balcão e no mercado futuro.

A tendência de baixa foi reforçada pela fala de Tombini no Congresso. Segundo ele, o BC não tem "qualquer objetivo de câmbio", mas "sempre tomaremos precauções" para que o País não se torne uma "praça de desvalorização de moedas importantes, por exemplo, o dólar". "Temos tomado as precauções para que isso não ocorra", afirmou. "Se preciso for, vamos intervir na liquidez na virada do ano. O BC continua praticando a política cambial que sempre praticou para que o real não seja objeto de valorização por causa da política adotada por outros países", acrescentou.

Profissionais do mercado avaliaram que, ao destacar a posição comprada de US$ 5 bilhões, Tombini passa o recado de que a autoridade monetária tem ferramentas para agir, caso a alta do dólar se acentue. "O BC mostrou que tem munição para evitar exageros. E eu acredito que, acima de R$ 2,10, ele pode entrar no mercado para evitar uma alta muito forte", comentou João Paulo de Gracia Corrêa, gerente de câmbio da Correparti Corretora, de Curitiba.

A percepção fez o mercado testar o BC no fim da sessão. Para Alessandro Faganello, operador da Fourtrade Corretora, o movimento foi visto principalmente no mercado futuro, mas se refletiu também no balcão, com a virada da moeda. "Os investidores passaram a testar o BC para ver se ele vai agir realmente ou não", comentou. "Se o dólar bater nos R$ 2,12, acredito que o BC não vai deixar."

No início da tarde, o BC informou ainda que as remessas de lucros e dividendos feitas pelas empresas estrangeiras com sede no Brasil somaram US$ 2,355 bilhões em outubro. No mesmo mês do ano passado, as remessas haviam sido de US$ 1,558 bilhão. Para alguns analistas, os dados mais recentes mostram que o envio de recursos para o exterior será, de fato, mais intenso no fim do ano, o que pode trazer uma pressão adicional de alta para o dólar ante o real.

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