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Dólar volta a R$ 4,12 de olho em guerra comercial

Marcelo Osakabe

A melhora do sentimento sobre o estado das negociações entre Estados Unidos e China não foi suficiente para fazer investidores voltarem ao real A melhora do sentimento sobre o estado das negociações entre Estados Unidos e China não foi suficiente para fazer investidores voltarem ao real. Contrariando o movimento no exterior, o dólar se fortaleceu pelo segundo pregão consecutivo e encerrou com ganho de 0,50%, aos R$ 4,1228.

O movimento de alta chegou a ser moderado mais cedo, após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciar que irá se encontrar amanhã com o representante comercial da China, Liu He. Esse suspiro, no entanto, não durou muito e a moeda americana encerrou mais próximo da máxima intradiária do dia, de R$ 4,1370, do que da mínima, de R$ 4,0897.

Daniel Acker/Bloomberg

O contraste com o comportamento no exterior foi grande neste pregão. Influenciado pelo noticiário sobre guerra comercial e também por relatos de que o Reino Unido e a União Europeia podem estar chegando a um consenso que permitirá um Brexit com acordo, o índice DXY do dólar recuava 0,41% no horário de fechamento, a maior queda diária em cinco semanas. A libra esterlina, por sua vez, se valorizava 1,99%.

Os pares emergentes se fortaleceram em bloco. O dólar cedeu 0,70% contra o rand sul-africano e 0,55% frente ao peso mexicano. No dia, o real só não foi pior que o peso argentino, que se desvalorizou mais de 3%.

O comportamento destoante dos pares e de outros ativos de risco nos últimos dias tem intrigado analistas.

Entre as possíveis causas citadas por estão as incertezas trazidas pelo adiamento da votação da reforma da Previdência no Senado e dados econômicos que reforçam a expectativa por um ciclo de cortes da Selic mais intenso por aqui, o que diminui o diferencial de juros com o exterior e, por tabela, a atratividade do real.

Hoje, dados do varejo brasileiro voltaram a levar operadores de mercado apontar nessa direção. Segundo o IBGE, o volume de vendas no varejo restrito cresceram 0,1% em agosto, contrariando expectativa de 0,3%. O indicador reforça a perspectiva de retomada mais lenta da economia brasileira.

"Os dados de varejo vieram mais fracos e reforçam a precificação de uma Selic a 4,5% no começo do ano que vem", diz Victor Beyruti, economista da Guide. "O número corrobora o IPCA de ontem, que mostrou deflação em setembro."

Para o Commerzbank, a queda dos juros nominais no Brasil deve pesar sobre a perspectiva de curto prazo da moeda brasileira. “O real é uma divisa vulnerável a momentos de aversão ao risco. O país não é grau de investimento há algum tempo e, apesar de melhor, o déficit orçamentário ainda é grande. Caso os juros reais continuem a cair, esta dinâmica deve intensificar a vulnerabilidade do real”.

Para Roberto Campos, gestor da Absolute Investimentos, o desempenho recente do dólar no Brasil começa, inclusive, a colocar alguma dúvida sobre o tamanho do efeito do leilão da cessão onerosa sobre o câmbio. Espera-se que o volume de recursos trazidos para o leilão - entre US$ 15 bilhões e US$ 25 bilhões, ajude a colocar o câmbio mais próximo das estimativas de fim de ano da maioria das instituições. A mediana das projeções de 36 instituições consultadas pelo Valor Data no início deste mês está em R$ 4,00.

"Tivemos uma semana com boa expectativa pelos fluxos da cessão onerosa. Mesmo assim, o fluxo cambial continua fortemente negativo e, mesmo com a antecipação dos players pelo leilão, há ainda pressão pela depreciação da moeda brasileira", observa Campos. "Então se antes se imaginava que o leilão poderia derrubar o dólar a R$ 3,80, é possível que o impacto final não seja tão forte quanto imaginávamos.