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Dólar vai a R$ 4,3505 com frustração no varejo

Marcelo Osakabe

Foi a quinta alta consecutiva da moeda e também uma nova máxima histórica de fechamento A decepção com as vendas no varejo de dezembro voltou a pressionar o dólar nesta quarta-feira, levando a moeda americana a anotar sua quinta alta consecutiva e também uma nova máxima histórica de fechamento.

No encerramento dos negócios, a moeda americana era negociada em alta de 0,55%, aos R$ 4,3505. O comportamento voltou a destoar do exterior, onde os pares emergentes e outros ativos de risco tiveram um pregão de alívio com a notícia de que o ritmo de contágio do Covid-19 desacelerou. No mesmo horário, o dólar cedia 0,92% contra o peso colombiano, 0,26% frente ao rublo russo e 0,20% contra o peso mexicano.

Segundo o IBGE, as vendas no varejo restrito recuaram 0,1% em dezembro ante novembro, contrariando a mediana das estimativas dos analistas consultados pelo Valor Data, que era de alta de 0,2%. Já as vendas no varejo ampliado caíram 0,8% no período, também abaixo da mediana de -0,2% entre os consultados.

O dado se soma a uma sequência de outros indicadores negativos divulgados desde o início do ano que reforçam temores de que a retomada da economia brasileira ainda é vacilante. Com isso, crescem as apostas de novos cortes na Selic ainda este ano, mesmo com a sinalização de interrupção por parte do Copom na semana passada.

Juros mais baixos comprimem o diferencial de juros do Brasil com o exterior, um dos compomentes da atratividade da moeda. Em momentos de aversão ao risco global, este tende a ser um fator bem-visto por investidores internacionais.

"O dado de varejo mantém a dinâmica que temos visto e impede um suspiro do real", diz Cleber Alessie Machado, operador da Commcor. "Apesar de, em termos de preço, o impacto ser marginal, ele alimenta um recuo da curva de juros, o que reflete uma preocupação com a atividade e põe em cheque os próximos passos do Copom".

Um dos bancos que tem recomendado emergentes que oferecem diferencial de juros maior é o Credit Suisse. “Temos preferido apostar em moedas que oferecem altas taxas de juros reais e nominais, um balanço de pagamentos estável e riscos políticos, no mínimo, bem conhecidos”, diz um relatório recente do banco. “O rublo russo e a lira turca são dois exemplos dessa descrição. Entre as moedas latino-americanas, nenhuma além do peso mexicano.”

Separadamente, o J.P. Morgan revisou sua perspectiva para a moeda brasileira de “compra” para “neutra”. O banco americano - elegeu o Brasil como uma de suas principais apostas para 2020 em dezembro - nota que as perspectivas de médio prazo do país continuam positivas. No entanto, a deterioração do sentimento de risco e os potenciais efeitos sobre a economia real levaram o banco a interromper a aposta sobre a moeda brasileira.

“Iniciamos 2020 comprados em real esperando que a recuperação do PIB do país, valuations baratas e agenda econômica positiva iriam se traduzir em suporte à moeda. Desde então, no entanto, o coronavírus impactou o crescimento do PIB global e o Brasil não ficou ileso a essa deterioração no sentimento”, dizem os estrategistas do J.P. em relatório. “Por causa disso, interrompemos com perdas nossa posição ‘bullish’ em real uma vez que, mesmo que os mercados se recuperem rapidamente, o momento exato da inflexão é difícil de prever.”

O Credit Suisse vê espaço para uma recuperação técnica do real nas próximas semanas, dada a sinalização de interrupção dos cortes da Selic pelo Copom, a aparente estabilização da cotação do yuan e dos preços de commodities como o cobre e o minério de ferro e ainda a própria intensidade da depreciação recente do real.

Estruturalmente, no entanto, o banco suíço se mantém negativo quanto às perspectivas de curto prazo da moeda brasileira. "O principal componente dessa visão continua sendo a de que o diferencial de juros do real é muito pequeno para que ele tenha performance melhor ou mesmo equivalente a de outros ativos de risco em momentos em que o sentimento dos mercados é construtivo”, dizem os analistas. Dessa forma, a instituição acredita que a moeda americana possa ser negociada em uma banda entre R$ 4,25 e R$ 4,45 neste momento.

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