Mercado fechado

Dólar tem maior alta desde outubro com ajustes após flertar com suporte técnico

Por José de Castro
·3 minuto de leitura
.
.

Por José de Castro

SÃO PAULO (Reuters) - O dólar saltou mais de 1% ante o real nesta sexta-feira, na maior valorização diária em mais de três semanas, abandonando queda de mais cedo conforme investidores aproveitaram para realizar lucros após baixas ao longo da semana.

Um clima ainda instável no exterior, em meio a temores sobre disparada de casos de Covid-19 nos Estados Unidos e redução de recursos para empréstimos emergenciais do banco central norte-americano, corroborou o ajuste doméstico, num contexto em que o mercado segue preocupado com o rumo fiscal do Brasil.

O dólar à vista fechou em alta de 1,39%, a 5,387 reais na venda. A moeda bateu a mínima do dia (5,2855 reais, queda de 0,52%) logo no começo do pregão e ganhou força até alcançar a máxima no começo da tarde (5,3928 reais, alta de 1,50%).

O ganho desta sexta é o maior desde 28 de outubro, quando a cotação saltou 1,42%. Na quinta, o dólar havia fechado em 5,3131 reais, mínima em mais de dois meses.

As compras aceleraram neste pregão depois de na véspera o dólar ter ameaçado tocar a média móvel de 200 dias (atualmente por volta de 5,2719 reais) pela primeira vez desde o começo de janeiro. Um rompimento consistente dessa linha de suporte poderia deflagrar mais vendas, derrubando o preço da divisa norte-americana.

Na B3, o dólar futuro valorizava-se 1,49% nesta sexta, a 5,3855 reais, às 17h08.

Alguns operadores citaram fala do ministro da Economia, Paulo Guedes, feita na véspera, como catalisador da realização de lucros no câmbio. Em evento na noite de quinta, Guedes disse que uma forma de reduzir a dívida pública é por meio de venda de ativos, privatizações, desalavancagem de bancos públicos e até venda de reservas internacionais.

Uma leitura das palavras do ministro é que corte de gastos --a principal demanda do mercado-- estaria para baixo na lista de prioridades.

Sobre venda de reservas, o secretário especial de Fazenda, Waldery Rodrigues, admitiu nesta sexta-feira que essa ação entra no cardápio do governo para redução da dívida bruta, mas pontuou que quem decide a respeito é o Banco Central. Questionado a respeito, Waldery defendeu que a fala do ministro "entrou num contexto de uma gestão macroeconômica mais integrada e melhor feita, melhor desenhada".

Rogério Braga, sócio e gestor dos fundos multimercado/renda fixa na Quantitas Gestão de Recursos, entende que a discussão sobre corte de gastos está em curso, mas que o momento eleitoral acaba desestimulando o tratamento em público dessa questão.

Braga avaliou ainda que a repercussão da fala de Guedes sobre a venda de reservas se deu mais porque ocorreu na mesma semana em que o Banco Central sinalizou venda líquida de dólares para ajudar o mercado a lidar com a demanda típica de fim de ano.

"O mercado tinha melhorado bem, faltou notícia hoje, ficamos meio nesse limbo", disse, explicando a correção do dólar nesta sexta, com operadores evitando exposição ao longo do fim de semana.

Na semana, o dólar ainda fechou em queda de 1,61% (até a véspera caía 2,96%). Em novembro, a moeda recua 6,12%, mas ainda salta 34,24% em 2020.

Apesar das instabilidades, alguns analistas têm visto melhora no cenário para o real. Na avaliação de Gabriel Gersztein, estrategista-chefe global para mercados emergentes do BNP Paribas, uma apreciação do real é "inevitável" e o dólar poderá cair "mais perto de" 4 reais, 4,25 reais ao fim de 2021, considerando um manejo fiscal responsável.

"O Brasil tem várias estrelas que estão se alinhando: (crescimento da) China, dólar fraco, retomada econômica global, gringo ainda 'subinvestido' no país...", disse.