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Cenário político pesa, real destoa de pares e cai contra o dólar

Marcelo Osakabe e Victor Rezende
·3 minutos de leitura

Além da cena política brasileira, investidores acompanham quadro externo A falta de sintonia no discurso e novas trombadas entre integrantes do governo e aliados no Congresso mantêm sob pressão o mercado de câmbio no Brasil. Apesar de um clima mais positivo no exterior nesta quinta-feira, ajudado pela esperança sobre as negociações para o pacote fiscal nos Estados Unidos, a moeda americana permanece em alta no Brasil, contrariando a maior parte dos pares emergentes e desenvolvidos. Às 13h46, o dólar comercial era negociado a R$ 5,6401, alta de 0,39%. Na máxima, marcou R$ 5,6592. Na mínima, ficou em R$ 5,5757. O real disputa com o peso colombiano a posição de pior divisa em um pregão onde apenas 8 das 33 moedas mais líquidas do mundo cedem terreno contra a moeda americana. No exterior, embora a última reunião entre democratas e republicanos tenha terminado sem acordo, a lider da oposição na Câmara dos EUA, deputada Nancy Pelosi, disse que ambos os lados estavam próximos de decidir as provisões para a saúde. Por outro lado, eles ainda batiam cabeça em relação à ajuda aos estados e municípios. No Brasil, o clima vem se anuviando desde o "consenso" sobre o Renda Cidadã anunciado, na segunda-feira, pelo relator da PEC dos Gatilhos, Márcio Bittar (MDB-AC). Ontem, o ministro da Economia, Paulo Guedes, escancarou a divergência dentro do governo ao chamar de "puxadinho" a proposta de utilizar verba dos precatórios para o Renda Cidadã. Ele foi rebatido no mesmo dia por Bittar, que disse que a medida continuará dentro do texto. “Podemos interpretar a fala de Paulo Guedes como um posicionamento perante o mercado e investidores sobre esta questão, mas a palavra final será do Congresso, e a julgar pelas declarações do Relator Bittar, ele ainda pretende utilizar o teto dos precatórios como fonte de financiamento do Renda Cidadã”, diz a LCA em comentário matinal. “Em suma, o atual programa emergencial termina no fim do ano e o governo continua sem uma proposta viável do ponto de vista político e fiscal para substitui-lo.” Guedes também abriu outra frente de disputa ao dizer que o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, estava atuando para atrasar as privatizações. Maia também respondeu de pronto, afirmando que o ministro estava “desequilibrado.” Em meio à troca de farpas, foi a vez do presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, pressionar por uma alternativa ao programa. Segundo apurou o Valor, o dirigente afirmou nesta manhã, em live fechada organizada pelo J.P. Morgan, que se o teto de gastos for rompido ou se for adotada uma solução para pagar o Renda Cidadã que envolva alguma espécie de contabilidade criativa, o "forward guidance" para a taxa de juros será suspenso. A medida, no entanto, não representaria automaticamente o início de um aperto monetário - este ocorreria apenas com a deterioração das expectativas de inflação. Diante do atual quadro, o Bradesco BBI revisou o cenário para 2020 e 2021, elevando sua projeção para o dólar na esteira das maiores preocupações fiscais. "Fatores como baixa taxa de juros, riscos fiscais altos, uma recuperação que ainda precisa ser confirmada no primeiro semestre de 2021 e uma fadiga já presente nos mercados globais sugerem que a nossa previsão de R$ 5,10 para este ano necessitava de um ajuste. Em suma, nem mesmo um balanço de pagamentos mais confortável irá compensar os riscos mais altos percebidos", diz a casa em relatório a clientes. O Bradesco BBI elevou a expectativa para o dólar no fim deste ano foi de R$ 5,10 para 5,40, e de R$ 4,80 para 5,10 no final do próximo ano. Kiyoshi Ota/Bloomberg