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Dólar recua com expectativa de mudança na PEC, mas juros sobem e Bolsa cai

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Após uma semana de pressão no mercado, o dólar fechou em queda nesta sexta-feira (18). A melhora na taxa de câmbio, considerada um parâmetro para o risco do país aos olhos dos investidores, é atribuída à tentativa do governo eleito de mostrar que não promoverá descontrole fiscal, mesmo após o presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ter criticado a regra que limita gastos públicos.

O dólar comercial à vista cedeu 0,55%, a R$ 5,3780 na venda. Mas no saldo desta semana a moeda americana acumulou alta de 0,99%.

Na Bolsa de Valores brasileira, quedas das ações mais negociadas da Vale (-1,95%) e da Petrobras (-1,69%) puxaram para baixo o índice de referência Ibovespa. Preocupações com a demanda fraca da China por petróleo frente à oferta elevada desvalorizaram a matéria-prima, prejudicando a estatal petrolífera e outros exportadores de materiais básicos.

Analistas ainda apontaram que a expectativa de juros mais altos, reflexo da incerteza fiscal, contribuíram para a queda das ações do varejo, o que também afetou de forma negativa o Ibovespa.

O indicador parâmetro da Bolsa fechou com queda de 0,76%, aos 108.870 pontos. O mercado acionário do país sofreu uma baixa semanal de 3%.

Entre as ações com pior desempenho nesta sessão estavam as varejistas Via (-8,30%), Magalu (-5,41) e Americanas (-4,86).

Ainda revelando que o mercado espera mais inflação diante da pressão por gastos públicos, a taxa de juros DI (depósitos interbancários) para 2024, uma referência para o crédito de curto prazo, subia pelo terceiro dia consecutivo, alcançando 14,37% ao ano.

"Temos as curvas de juros subindo, o que faz também com que o setor de varejo amargue perdas. Uma fala do presidente do Banco Central [Roberto Campos Neto] sobre a necessidade de aguardar o texto final da PEC da Transição para definir o que fazer com a Selic também colabora para o pessimismo nas curvas de juros", disse Cassiano Konig, sócio da GT Capital.

Campos Neto afirmou nesta sexta que os rumos das contas públicas a partir de 2023 serão essenciais para entender como se dará o trabalho da política monetária no ano que vem, ou seja, em que patamar vai ficar a taxa básica de juros, hoje de 13,75% ao ano.

Participantes do mercado já discutem a possibilidade de que a taxa básica de juros possa avançar a 15% no próximo ano, a depender dos rumos do debate fiscal, segundo Rafael Marques, economista da Philos Invest. "Isso pressionou a curva de juros e trouxe impacto na Bolsa, principalmente para as empresas que demandam capital ou são endividadas", comentou.

Apesar da alta dos juros, parte do mercado se mostrou otimista com declarações feitas na véspera por integrantes da equipe de transição sobre a possibilidade de cortes de despesas. Além disso, há a expectativa de que a PEC que amplia os gastos seja enxugada no Congresso.

Fontes envolvidas nas negociações da PEC ouvidas pela agência Reuters disseram que aliados do novo governo admitem que terão de ceder durante as negociações do texto e definir um prazo da exceção ao teto para que a proposta avance a tempo de ser promulgada pelo Congresso ainda neste ano.

Em um aceno do novo governo à responsabilidade fiscal, o ex-ministro Aloizio Mercadante, que coordena os grupos técnicos da transição de governo, indicou que isenções fiscais estão sob análise e essa pode ser uma maneira de elevar as receitas futuras da administração federal, sem aumento da carga tributária.

O vice-presidente eleito, Geraldo Alckmin (PSB), afirmou na quinta-feira (17) que a reação do mercado à PEC da Transição é momentânea e será superada, e garantiu que o governo Lula vai discutir um novo arcabouço fiscal com o tempo.

As declarações ocorrem após uma sessão de muita a volatilidade nos mercados de ações e de câmbio

Depois de passar toda a quinta-feira em queda acentuada, a Bolsa fechou com queda moderada devido à reação positiva de investidores à notícia de que o ex-ministro Guido Mantega havia comunicado sua renúncia à equipe de transição.

O evento coincidiu com um salto do Ibovespa, que saiu dos 107.668 pontos às 16h46, para fechar o dia aos 109.702 pontos, às 18h20. Isso não foi suficiente, porém, para evitar a queda de 0,49% do indicador.

A renúncia do petista, assim, fez o setor amenizar as perdas observadas durante o dia, que refletiram a proposta do futuro governo de furar o teto de gastos para pagar o Bolsa Família e as declarações de Lula sobre a reação de investidores.

Lula defendeu, também na quinta, durante um discurso na COP27, furar o teto de gastos para conseguir financiar programas sociais.

"Se eu falar isso vai cair a Bolsa, vai aumentar o dólar? Paciência", disse Lula na conferência do clima da ONU que ocorre em Sharm el-Sheikh, no Egito. O petista afirmou ainda que a flutuação dos índices não acontece "por causa das pessoas sérias, mas por conta dos especuladores que ficam especulando todo santo dia".

Antes disso, na quarta-feira (16), o Ibovespa tombou 2,58% e o dólar avançou 1,52% enquanto a PEC era aguardada. O texto só foi apresentado à noite pelo vice-presidente eleito.

A medida é considerada necessária pelo governo petista para evitar um apagão social no ano que vem, já que a proposta de Orçamento enviada em agosto por Jair Bolsonaro (PL) assegura apenas um valor médio de R$ 405,21 para os beneficiários, além de impor cortes severos nas verbas para a habitação e no Farmácia Popular.

Apesar de reconhecerem a necessidade de ampliar despesas, analistas alertam que, caso o governo não estabeleça limites claros para isso, o mercado passará a ser movido pela expectativa de que o dinheiro público irá impulsionar a inflação e os juros, em consequência.

AÇÕES DA STONE SALTAM EM DIA DE GANHOS MODESTOS EM WALL STREET

Negociadas na Bolsa nova-iorquina, as ações da empresa de pagamentos StoneCo saltaram mais de 16,5% nesta sexta-feira, após a empresa divulgar um lucro trimestral melhor do que o projetado por analistas. Os papéis da empresa ainda caem 34% em 2022.

A Stone, que tem Warren Buffett como acionista, anunciou na noite da véspera que seu lucro ajustado de julho a setembro somou R$ 163 milhões, alta de 90,5% ano a ano.

Os principais índices de ações de Wall Street fecharam com ganhos modestos após frequentarem zonas negativas ao longo do dia.

Parâmetro para a Bolsa de Nova York, o índice S&P 500 subiu 0,48%, após ter passado quase toda a sessão no vermelho. O indicador focado no setor de tecnologia Nasdaq avançou 0,01%, enquanto o Dow Jones, que reúne 30 grandes empresas americanas, ganhou 0,59%.

Investidores de Wall Street vinham lucrando alto desde a semana passada, quando uma inflação abaixo do esperado criou a expectativa de que os juros no país passariam a subir menos e de forma mais lenta.

Esse otimismo desvaneceu conforme autoridades do Fed (Federal Reserve, o banco central americano) passaram a reafirmar que o aperto ao crédito para frear a inflação será mantido.

Além disso, analistas começam a ver sinais mais fortes de que os juros altos podem levar a principal economia do planeta à recessão, o que prejudica o crescimento das empresas e o mercado de ações.

Notícias sobre o crescimento dos casos de Covid na China também criam dúvidas sobre até que ponto o governo está disposto a amenizar sua política de restrições para combater a circulação do vírus.

Preocupações sobre a demanda derrubavam os preços do petróleo, inflados nos últimos meses devido à especulação quanto à potencial escassez com a chegada do inverno no hemisfério Norte. O barril do petróleo Brent recuava 2,17%, aos US$ 87,83, no final desta tarde.