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Dólar cai 2% ante real com ajuste após disparada por temor de descontrole fiscal sob Lula

Notas de dólar

Por Luana Maria Benedito

SÃO PAULO (Reuters) - O dólar caía acentuadamente frente ao real nesta sexta-feira, em meio a negociações instáveis, com investidores ajustando posições depois de na véspera a moeda ter disparado ao ritmo mais rápido desde o início da pandemia diante de temores de descontrole fiscal sob o presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva.

Às 10:40 (de Brasília), o dólar à vista recuava 1,88%, a 5,2955 reais na venda, após perder 2,29% na mínima do dia, a 5,2730 reais. Apesar da queda, a moeda mostrou alguma instabilidade, e chegou a subir 0,19% mais cedo, a 5,4070 reais.

Na B3, às 10:40 (de Brasília), o contrato de dólar futuro de primeiro vencimento caía 1,05%, a 5,3165 reais.

Fernando Bergallo, diretor de operações da FB Capital, disse que a queda da moeda norte-americana nesta sessão reflete a falta de liquidez nos mercados devido a feriado nos Estados Unidos pelo Dia dos Veteranos, bem como um "ajuste técnico pontual e natural" depois de o dólar ter saltado 4,09% na véspera, a 5,3968 reais na venda.

Foi a maior disparada percentual diária desde o salto de 4,86% registrado em 16 de março de 2020, em meio ao pânico dos mercados no início da pandemia de Covid-19, e o patamar de encerramento mais alto desde a cotação de 5,54976 reais vista em 22 de julho passado.

"Mas perceba que foi apenas um ajuste", ponderou Bergallo, destacando que o dólar chegou a devolver completamente as perdas neste pregão. "Então acredito que a percepção de ontem ainda esteja reverberando."

O salto do dólar na quinta-feira refletiu amplos temores de descontrole de gasto sob Lula, que planeja uma PEC para acomodar despesas extra-teto em 2023, com possibilidade de retirada permanente do custeio do Bolsa Família das regras fiscais do país.

Agravou o sentimento a fala do presidente eleito na véspera, quando o petista voltou a criticar o mecanismo de teto de gastos e disse que ele deve ser discutido com a mesma seriedade que a questão social do país. Além disso, Lula convidou economistas associados ao PT --e possivelmente inclinados a medidas fiscais heterodoxas, como o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega-- para compor sua equipe de transição.

"Após o discurso de Lula, que questionou a importância da responsabilidade fiscal, o mercado aguarda a definição do texto final da PEC de transição", disse a Guide Investimentos em nota a clientes.

Bergallo, da FB, disse que o desempenho do real neste pregão e na véspera poderia ter sido muito pior não fosse o tombo do dólar no mercado internacional.

O índice que compara a divisa norte-americana a uma cesta de seis pares fortes recuava mais de 1% nesta manhã, depois de na quinta-feira já ter despencado cerca de 2%, ficando a caminho de marcar seu maior declínio em dois dias desde 2009.

Esse movimento foi estimulado por uma leitura de inflação mais fraca do que o esperado para outubro nos Estados Unidos, que alimentou apostas numa moderação do ritmo de aperto monetário do banco central do país, o Federal Reserve.