Mercado fechado

Dólar opera nos R$ 4,20 com fala de Campos e exterior; Bolsa oscila

Ana Carolina Neira, Marcelo Osakabe e Victor Rezende

Ontem, a moeda americana superou a máxima nominal histórica de fechamento do Plano Real, aos R$ 4,2060 O dólar comercial opera em leve queda, após registrar altas nesta terça-feira e bater R$ 4,2195. Por volta das 13h50, o dólar caía 0,05%, aos R$ 4,2037. O contrato para dezembro, mais líquido, cedia 0,15%, aos R$ 4,2120.

Ontem, a moeda americana superou a máxima nominal histórica de fechamento do Plano Real, aos R$ 4,2060, o que reviveu especulações sobre uma possível intervenção do Banco Central. Essas preocupações, no entanto, foram minimizadas pelo presidente do BC, Roberto Campos Neto.

Em audiência na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado, o dirigente não tocou diretamente no assunto, mas reafirmou que não há mudanças na política cambial da instituição. “Sempre é notícia quando [o câmbio] tem algum movimento”, ironizou.

Campos Neto salientou que a desvalorização recente da moeda brasileira se dá por uma série de questões, como a frustração recente com a cessão onerosa, mas não é preocupante porque, ao contrário das outras vezes, não veio acompanhada de piora do risco-país nem deterioração das expectativas de inflação.

Mais cedo, o mercado também viveu algum ruído por causa do cancelamento do leilão no mercado à vista conjugado com oferta de swap reverso. Segundo a assessoria de imprensa do BC, o motivo foi o feriado de amanhã em São Paulo, que atrapalharia a liquidação da operação.

Participantes de mercado dizem que o ruído não afeta a cotação, uma vez que a operação é estruturada justamente para não afetar o nível dos preços. "O Banco Central só vai intervir no mercado se o real se descolar dos emergentes, o que parece que não é o caso hoje”, diz Luiz Eduardo Portella, sócio e gestor da Novus Capital. "Se houver não descolamento, não vai ser os R$ 4,20 que vai fazer o BC entrar", acrescenta.

Stephen Bayer/Pixabay

Bolsa

O clima de incerteza no exterior e a perda de fôlego das bolsas americanas fazem o Ibovespa oscilar. O índice operava em queda de 0,54% às 13h57, aos 105.556 pontos, piorando significativamente após a abertura do mercado americano.

Na máxima do dia até agora, o índice chegou a subir 0,64%, aos 106.950 pontos. O giro reduzido também dá dimensão do comportamento ponderado do investidor: até agora, o fluxo soma R$ 3,97 bilhões, considerado baixo para o horário. A média anual dos pregões de 2019 é de R$ 12,5 bilhões.

Na avaliação do operador de renda variável da RJ Investimentos, Raphael Guimarães, está pesando mais para os ativos brasileiros a ausência de notícias capazes de sustentar um ambiente de forte alta e também a perda de força dos mercados americanos. Apesar da abertura com renovação de máximas históricas, as bolsas de Nova York já desaceleraram e operam no negativo.

“Não houve avanços significativos que motivassem o investidor a comprar mais ações. Quando subimos foi sem força e mais por movimento de correção. Após a abertura nos Estados Unidos, o mercado refletiu sobre a ausência de motivos para atuar mais na bolsa brasileira e vai vendendo aos poucos”, diz.

Ele ainda cita que alguns temas na cena internacional, como a instabilidade política na América Latina e o vaivém entre China e Estados Unidos na frente comercial, também exercem certa pressão sobre os ativos e sustentam as incertezas no mercado.

As principais oscilações do Ibovespa também não são acentuadas ou concentradas em setores específicos hoje. Entre as principais altas estão Ultrapar ON (2,12%), MRV ON (2,02%) e Marfrig On (1,81%).

No caso da Marfrig, a companhia ainda se beneficia do anúncio de que, por intermédio de sua subsidiária NBM US Holdings, a companhia elevou de 51% para 81,73% sua participação no capital social da controlada National Beef Packing Company, dos Estados Unidos. O acordo foi bem avaliado pelo mercado e fez a Marfrig liderar as altas do Ibovespa também no pregão de ontem.

Entre as maiores baixas do índice estavam, há pouco, Magazine Luiza ON (-2,31%), B3 ON (-1,94%) e Yduqs ON (-1,95%). Ações de relevante peso e liquidez no Ibovespa também ajudam a pressionar o índice, como Bradesco (-0,77 a ON e -0,51% a PN), Banco do Brasil (-0,59%), B3 (-1,94%) e Petrobras (-1,07% a ON e -0,72 a PN).

Com foco na alta de estoques e na sinalização da Rússia de que não defenderá ampliação de corte de oferta, os preços do petróleo também operam em queda, afetando a Petrobras. Mais cedo, tanto o Brent quanto o WTI operavam em queda acima de 1%.

Juros

O comportamento do mercado de câmbio voltou a dominar as atenções dos agentes nesta terça-feira e os juros futuros oscilaram perto dos ajustes e chegaram ao início da tarde com viés de alta em toda a curva a termo. O impacto da valorização do dólar na inflação é monitorado pelos agentes, que mantiveram no radar comentários do presidente do Banco Central e a perspectiva de retomada da atividade econômica no país.

De acordo com Campos Neto, a alta recente da moeda americana sobre o real é diferente de ocasiões anteriores e não resultou em uma mudança nas expectativas de inflação. Para o presidente do BC, se a desvalorização do real começar a afetar o canal de expectativa dos preços, “daí é outra história” e o BC “vai ter de fazer uma atuação diferente”.

A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2021 ia de 4,68% no ajuste de ontem para 4,69%; a do DI para janeiro de 2022 passava de 5,30% para 5,34%; a do contrato para janeiro de 2023 subia de 5,82% para 5,85% e a do DI para janeiro de 2025 avançava de 6,36% para 6,41%.

“O mercado está operando com muita incerteza. O câmbio está pressionando desde que chegaram informações sobre a não entrada de recursos com os leilões de petróleo. Na nossa interpretação, isso não é um determinante para a atuação do BC em relação à política monetária, mas alguns agentes avaliam o câmbio como um fator determinante para o movimento das taxas”, diz Cássio Andrade Xavier, gestor de renda fixa da Sicredi Asset.

A perspectiva de valorização do dólar, porém, continua no radar do mercado. Economista-chefe da Infinity Asset, Jason Vieira nota que o recorde nominal de fechamento do dólar ante o real foi impulsionado por uma série de fatores. “Não existem opções globais que possam enfrentar a dominância da divisa americana neste momento no mundo”, afirma Vieira.

Visão semelhante tem o chefe global de estratégia de câmbio do HSBC, David Bloom. “O dólar é a moeda para se ter neste momento”, afirma. Para ele, um acordo comercial entre Estados Unidos e China pode ser um “divisor de águas” e gerar um rali em ativos considerados mais arriscados. Assim, a partir daí, haveria alternativas ao dólar. “Mas não se deve prender a respiração em torno de um acordo”, afirma Bloom.