Mercado fechado

Dólar fecha no menor patamar em quase três meses

O ambiente fortemente positivo no exterior para a tomada de risco permitiu que o rali de recuperação da moeda brasileira continuasse hoje O ambiente fortemente positivo no exterior para a tomada de risco manteve vivo o rali da moeda brasileira nesta segunda-feira. Apesar dos ruídos políticos pesistentes e das projeções ainda em queda para o PIB brasileiro este ano, o sinal vindo de fora permitiu que essas preocupações ficassem em segundo plano.

Depois de registrar a maior queda semanal em 12 anos na última sexta-feira, o dólar anotou novo recuo firme neste pregão. No fim do dia, foi cotado a R$ 4,8539, queda de 2,79%. Este é o menor patamar de fechamento desde 13 de março, quando a moeda americana foi cotada a R$ 4,8127.

Os demais pares emergentes também viveram um dia de ganhos. No mesmo horário, o dólar cedia 1,04% contra o rand sul-africano, 0,73% frente ao dólar canadense e 1,03% ante a rupia indonésia.

Nesse ambiente, a questão política local acabou de lado. "Os protestos pela Democracia e contra o presidente Jair Bolsonaro aumentaram e ocorreram em várias capitais, pela segunda semana consecutiva. É notável que eles tenham crescido e sejam maiores que os dos apoiadores do governo", dizem estrategistas do Citi em nota.

Para a professora da Faculdade de Economia da Universidade Federal Fluminense (UFF) Julia Braga, a melhora recente das condições de liquidez mundiais explica boa parte da queda do risco-país do Brasil e, consequentemente, a melhora da taxa de câmbio.

Braga estuda a dinâmica do risco-país de países periféricos, que pode ser medido através do spread dos contratos de 5 anos de Credit Default Swap (CDS) ou do EMBI, um indicador criado pelo J.P. Morgan. "O que temos analisado é que o risco-país de países emergentes, sejam eles o Brasil, a Argentina, a África do Sul ou o México, têm um componente em comum que é bem forte, explica cerca de 60% a 70% do CDS e do EMBI. Esse componente é muito influenciado por alguns indicadores associados ao ciclo de liquidez internacional, como a volatilidade do índice S&P 500, medida pelo VIX, os juros de 5 anos das Treasuries e a variação dos preços dessa commodity", diz.

Somente na semana passada, o petróleo acumulou um ganho superior a 11%, enquanto o VIX recuou 10,9%. Já o spread do CDS de 5 anos do Brasil encerrou a sexta-feira em 205 pontos, queda de 27,6% ante a sexta-feira anterior. Esse desempenho fez recuar o diferencial de juros ajustado ao risco entre o Brasil e o exterior, nota.

Fabiano Godoi, CIO da Kairós, ressalta que esse ambiente externo favorável se combinou, no Brasil, com distensionamento das relações entre o Executivo com o Congresso e o Judiciário. “Se considerar o Brasil no ambiente global, a gente piorou mais que outros emergentes no começo da crise por causa dessas particularidades nossas, essa ameaça de crise política institucional. É natural que, quando começa a dissipar esse risco, a gente se aproxime dos pares”, diz.

O profissional ressalta, por outro lado, que a continuidade do rali do real é dependente desse mesmo ambiente externo e que a rápida melhora dos ativos de risco em todo o mundo pode não ser sustentável.

“Esse primeiro movimento de melhora está bastante atrelado à reabertura de economias na Europa e nos Estados Unidos. No entanto, os mercados estão, aparentemente, precificando uma recuperação mais rápida do que a realidade dos dados mostra hoje”, diz. “Ainda é cedo para saber se a retomada vai ser rápida ou lenta e gradual. Essa questão está sob judice e dado, que o S&P já zerou as perdas do ano, nos parece que o momento é de cautela para poder digerir os novos dados da economia.”

Pixabay